A anquiloglossia, também conhecida popularmente como “língua presa”, é uma condição congênita caracterizada pela mobilidade restrita da língua devido a uma alteração no frênulo lingual (FL). A prevalência relatada desta condição é bastante variável (de 0,2 a 20%), devido à falta de critérios diagnósticos padronizados.
Nas últimas décadas, os diagnósticos e as frenotomias aumentaram drasticamente em países como Estados Unidos, Austrália e Canadá, uma tendência atribuída menos à prevalência real e mais à maior atenção ao aleitamento materno (AM), à expansão do apoio à lactação e à disseminação de informações pelas mídias sociais. Apesar do crescente interesse clínico e científico, as evidências de alta qualidade não acompanharam esse ritmo, levando a diretrizes pouco claras, heterogeneidade metodológica e preocupações com o sobrediagnóstico, principalmente quando as dificuldades iniciais de AM são rapidamente atribuídas à anquiloglossia sem uma avaliação multidisciplinar abrangente. No entanto, uma avaliação mal conduzida tem implicações clínicas, psicológicas e econômicas para os bebês e suas famílias. No Brasil, a avaliação de rotina do FL neonatal é obrigatória desde 2014 pela Lei Federal nº 13.002/2014.
Dessa forma, com o objetivo de fornecer recomendações baseadas em evidências para o diagnóstico, avaliação do impacto funcional e tratamento da alteração do FL em crianças, pesquisadores brasileiros publicaram, recentemente, uma revisão no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology. Essas recomendações estão sintetizadas a seguir.
Metodologia
Os membros da força-tarefa responsável pela revisão foram treinados em métodos de síntese de conhecimento, incluindo busca em bases de dados eletrônicas, revisão e seleção de citações relevantes e avaliação crítica dos estudos selecionados.
Para inclusão no estudo, foram elegíveis artigos escritos em inglês ou português sobre anquiloglossia ou frenotomia lingual. Além disso, o sistema de classificação de diretrizes do American College of Physicians foi utilizado para a avaliação crítica das evidências e recomendações para intervenções terapêuticas.
O que é anquiloglossia?
Anatomicamente, é definida como uma alteração do FL que pode restringir a mobilidade da língua. No entanto, seu diagnóstico ainda é controverso devido à falta de critérios padronizados e à subjetividade da avaliação clínica.
Classificações
- Anquiloglossia clássica ou anterior: FL que se estende até a ponta da língua ou próximo a ela, limitando o movimento e sendo, em geral, evidente à inspeção;
- Anquiloglossia posterior: controversa, sem consenso entre especialistas. Pode ser definida como inserção posterior ou restrição submucosa detectável por manobras específicas, sendo questionada como entidade anatômica distinta.
Veja também: Anquiloglossia x frenotomia
Métodos de avaliação do frênulo lingual
Principais instrumentos
- HATLFF (Hazelbaker Assessment Tool for Lingual Frenulum Function): avalia aspectos anatômicos e funcionais; escore >24 indica normalidade.
- Classificação de Kotlow: baseada no comprimento livre da língua (>16 mm é normal), sem avaliação funcional.
- Classificação de Coryllos: divide em quatro tipos, incluindo o frênulo submucoso, cuja existência é questionada.
- Teste da Língua (Martinelli et al.): triagem neonatal com avaliação anatômica e funcional, com componentes subjetivos.
- BTAT (Bristol Tongue Assessment Tool): protocolo rápido com pontuação simples; recomendado pelo Ministério da Saúde.
- TABBY: versão visual da BTAT.
É importante destacar que nenhum dos métodos mencionados passou por validação interna ou externa robusta.
Implicações funcionais do frênulo lingual alterado
Apneia obstrutiva do sono (AOS)
- Associação: nível de evidência muito baixo
- Frenotomia: não recomendada
Alterações dentárias e orofaciais
- Associação com crescimento facial e má oclusão: evidência muito baixa
- Frenotomia: não recomendada
Disfagia
- Associação: evidência muito baixa
- Frenotomia: não recomendada
Refluxo gastroesofágico (RGE)
- Associação: evidência baixa
- Frenotomia: não recomendada
Impacto social
- Possível impacto funcional/social: evidência muito baixa
- Frenotomia: não recomendada
Desenvolvimento da fala
- Possível impacto: evidência baixa
- Frenotomia: não recomendada para prevenção ou tratamento
Amamentação
- Associação com dificuldade: evidência moderada
- Frenotomia: pode ser recomendada para controle da dor materna
Frenotomia lingual e técnicas cirúrgicas
Tipos de procedimento
- Frenotomia: incisão simples, rápida e de baixo risco
- Frenectomia: excisão completa, mais invasiva
- Frenuloplastia: reposicionamento tecidual para reduzir recorrência
Técnicas
- Métodos a frio: tesoura, bisturi
- Métodos térmicos: eletrocautério, laser
Não há evidência de superioridade entre técnicas ou instrumentos.
Riscos e limitações do tratamento cirúrgico
Não há estudos robustos que estabeleçam a taxa de complicações. Entre as descritas:
- Sangramento e complicações associadas
- Dificuldades de alimentação pós-procedimento
- Infecções (abscessos, angina de Ludwig)
- Lesões de estruturas adjacentes
- Obstrução de vias aéreas (casos raros)
Considerações clínicas
Os autores destacam a superestimação do papel do FL alterado em diversas condições. A avaliação clínica deve considerar diagnósticos diferenciais que impactam:
- Amamentação
- Deglutição
- Fala
- Sono
Atribuir o quadro exclusivamente ao FL pode atrasar diagnósticos relevantes.
Conclusão
A maioria dos métodos diagnósticos carece de validação robusta, e o conceito de frênulo submucoso permanece controverso. A revisão não encontrou evidências de que alterações do FL causem alterações orofaciais, má oclusão, AOS, atraso de fala, disfagia ou RGE.
A frenotomia pode reduzir a dor materna durante o aleitamento, mas não há superioridade entre técnicas cirúrgicas.
Comentário
Publicação extremamente pertinente, considerando o aumento expressivo de procedimentos cirúrgicos indicados como preventivos com base no teste da linguinha.
Antes de indicar correção cirúrgica, é fundamental avaliar aspectos como pega, posicionamento e acolhimento da lactante.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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