A diarreia aguda infecciosa (DAI) é uma das principais motivadoras de buscas pelo pronto-atendimento. Nesse aspecto, a atualização da Infectious Diseases Society of America (IDSA) é extremamente relevante na prática médica, sobretudo por sintetizar os avanços no diagnóstico molecular, abordar o papel da crescente resistência antimicrobiana e demonstrar as novidades relativas às terapias baseadas em microbiota. Um ponto primordial: a premissa de que a maioria dos casos não requer antibiótico continua válida!
Qual a evolução esperada?
A história natural da DAI é favorável. A maioria dos adultos evolui com resolução espontânea em até 72 horas, valendo-se apenas de medidas suportivas. Entretanto, cerca de 10% podem apresentar sintomas persistentes em 12 meses, no escopo da “síndrome pós-infecciosa”, comportando-se como um gatilho para a síndrome do intestino irritável.
Como abordar?
A avaliação inicial, pragmática, deve responder a três perguntas:
- Há instabilidade hemodinâmica?
- Há padrão inflamatório (disenteria, febre, toxemia, dor abdominal intensa e tenesmo)?
- Há fatores de risco para um desfecho desfavorável?
- Idade < 5 ou > 65 anos;
- Gestação;
- Imunossupressão;
- Doença renal crônica, cardiopatia ou doença inflamatória intestinal;
- Exposição recente a antibióticos ou viagem internacional.
Pilar principal: medidas suportivas
- Sais de reidratação oral (SRO) continuam sendo a estratégia mais eficaz, embora subutilizada. O racional fisiológico é sólido: utilizar o cotransporte sódio-glicose entérico a favor da hidratação;
- Hidratação venosa é indicada apenas na presença de choque ou desidratação grave, sobretudo diante de hipotensão postural ou incapacidade de hidratação oral por náuseas ou vômitos persistentes;
- Antidiarreicos (loperamida ou racecadotrila) podem ser utilizados com cautela na diarreia aquosa sem sinais inflamatórios, em decisão compartilhada, especialmente na diarreia do viajante e diante de compromissos que obriguem o paciente a se deslocar;
- Probióticos: o benefício clínico é modesto e a evidência heterogênea. Devem ser evitados em imunossuprimidos pelo risco raro, porém descrito, de translocação.
Perseguir um diagnóstico etiológico específico?
A expansão dos NAATs (testes moleculares multiplex) aumentou a sensibilidade diagnóstica, mas introduziu um desafio: não diferenciam infecção ativa de colonização ou detecção residual. Portanto, a interpretação exige correlação clínica rigorosa e não devem ser utilizados como teste de cura.
Na suspeita de infecção por Clostridioides difficile, reforça-se a testagem exclusiva de fezes não formadas para a pesquisa do antígeno constitutivo GDH e das toxinas A e B (NAAT se os resultados forem inconclusivos no teste binário), bem como a limitação de ambos métodos em crianças menores do que 1-2 anos. A coprocultura pode ser realizada na presença de disenteria (febre, toxemia, fezes mucopurulentas/ sanguinolentas, dor abdominal intensa e tenesmo).

Antibioticoterapia: Indicações e Riscos
O tratamento antimicrobiano deve ser restrito e individualizado, reservando-o para pacientes com choque/sepse (pressão sistólica < 90 mmHg, taquicardia, hiperlactatemia ou encefalopatia), diarreia de padrão inflamatório, imunossupressão ou contexto epidemiológico de alto risco.
A cobertura deve incluir Salmonella, Shigella e Campylobacter. A resistência comunitária às quinolonas e ao sulfametoxazol-trimetoprima é crescente. Portanto, ceftriaxona (2 g/dia) é a primeira linha para pacientes hospitalizados, enquanto a azitromicina (500 mg/dia por 3 dias) ou rifaximina (200 mg 8/8h por 3 dias —ainda muito cara no Brasil) são preferidas em viajantes ou no cenário ambulatorial.
O Ertapenem deve ser considerado somente na suspeita de Shigella XDR, sendo os principais fatores da risco: pessoas em situação da rua ou vivendo com HIV, viajantes internacionais e homossexualidade.
Na infecção por C. difficile, a primeira linha é a vancomicina oral, embora o metronidazol (mais disponível) ou a fidaxomicina possam ser utilizados. Produtos comerciais baseados na microbiota fecal, dedicados a infecções recorrentes ou refratárias, estão disponíveis no mercado norte-americano: Rebyota® e VOWSTTM.
Em contrapartida, antibióticos devem ser evitados na suspeita de Escherichia coli produtora de toxina Shiga (STEC), devido ao aumento do risco de síndrome hemolítico-urêmica (SHU). Logo, atenção especial aos surtos comunitários por STEC, bem como ao histórico de exposição a animais ou elevação da ureia sérica.
Caso clínico: Diarreia crônica e possível doença de Whipple
Manifestações extraintestinais
Destacamos, na tabela que se segue, algumas manifestações extraintestinais que merecem estar no radar do clínico:
|
Agente |
Manifestação extraintestinal |
|
Campylobacter jejuni |
Síndrome de Guillain-Barré, artrite reativa e convulsões febris pediátricas |
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Clostridium botulinum |
Neuropatia craniana bilateral aguda, simétrica e descendente |
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Listeria monocytogenes |
Meningite e pneumonia neonatal |
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STEC |
Síndrome hemolítica urêmica |
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Entamoeba histolytica |
Abscesso hepático |
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Yersinia |
Eritema nodoso e artrite reativa |
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Hepatite A |
Icterícia, prurido, rash e artralgia |
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Cryptosporidium e Cyclospora |
Colecistite, colangite, hepatite e pancreatite |
Conclusão e Mensagens práticas
Na diarreia infecciosa, menos é mais. A avaliação clínica cuidadosa, com estratificação do risco, hidratação adequada (sais de reidratação oral) e seleção criteriosa de exames e antibióticos são mais determinantes para bons desfechos do que testagem ampla ou tratamento empírico indiscriminado.
Leia também: Simbióticos na diarreia aguda infantil
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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