Uma revisão sistemática da Cochrane, publicada em outubro de 2026, indicou que a cannabis medicinal para insônia pode ter pouco ou nenhum efeito clinicamente relevante sobre a qualidade do sono, o tempo total de sono e a funcionalidade diurna em comparação ao placebo. Por outro lado, o uso de canabinoides se associou a mais eventos adversos, e a certeza da evidência foi classificada como baixa ou muito baixa em todos os desfechos.
Tratamentos convencionais da insônia crônica têm limitações no uso prolongado
A insônia é o distúrbio do sono mais prevalente, acometendo 10% da população, sobretudo entre idosos e mulheres, frequentemente associada à dor crônica, depressão e ansiedade. Na forma crônica, as dificuldades para iniciar ou manter o sono ocorrem pelo menos três vezes por semana, durante três meses ou mais, com repercussões diurnas.
A terapia cognitivo-comportamental para insônia e a higiene do sono são a primeira linha terapêutica, com melhora relatada em cerca de 60% dos pacientes. Já os fármacos disponíveis, como antidepressivos, agonistas do receptor benzodiazepínico e antipsicóticos, podem causar dependência, tolerância e prejuízo cognitivo, o que restringe seu uso a longo prazo.
Nesse contexto, cresceu o interesse e a prescrição de produtos com tetra-hidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), mas a cannabis medicinal não consta na diretriz americana de manejo da insônia e é apontada pela diretriz europeia como área sem evidência suficiente, o que motivou a elaboração da revisão.
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Como a revisão sistemática selecionou os ensaios?
Os autores pesquisaram as bases de dados CEMTRALMEDLINE, Embase, Global Index Medicus e dois registros de ensaios até 5 de abril de 2025. Foram elegíveis ensaios clínicos randomizados paralelos, cruzados (cross-over) ou por conglomerados, com adultos diagnosticados com insônia por critérios padronizados, de qualquer tipo ou duração. Os comparadores previstos incluíam placebo, benzodiazepínicos, agonistas do receptor benzodiazepínico, agonistas do receptor de melatonina, antidepressivos e antipsicóticos.
Os desfechos críticos foram qualidade ou satisfação com o sono, tempo total de sono e eventos adversos. Entre os desfechos importantes estavam latência do sono, despertar após o início do sono, funcionalidade diurna, sintomas de abstinência e qualidade de vida. Risco de viés e certeza da evidência foram avaliados pelo RoB 2 e GRADE, respectivamente.
Foram incluídos nove ensaios, a maioria com menos de 50 pacientes, totalizando 537 participantesentre 18 a 76 anos, com idade mediana de 45 anos e predomínio de mulheres (73%). Seis estudos avaliaram insônia crônica, três insônia aguda e um incluiu pacientes com fibromialgia. Oito compararam cannabis com placebo e um com Amitriptilina. Dois usaram medicamentos licenciados (CBD de origem vegetal e nabilona, por via oral e sublingual); os demais, preparações magistrais. Todos os desfechos foram de curto prazo, variando de uma única noite até oito semanas, com seguimento máximo de 12 semanas em um estudo.

Qualidade do sono não difere do placebo nos ensaios analisados
Na comparação com placebo (oito estudos, 505 participantes), não houve diferença significativa na qualidade do sono (diferença média padronizada [DMP] −0,49; IC95% −1,06 a 0,08; I² = 91%; sete estudos) nem no tempo total de sono (diferença média [DM] 7,68 minutos; IC95% −23,04 a 38,39; I² = 80%; seis estudos). O mesmo ocorreu com a funcionalidade diurna (DMP −0,34; IC95% −0,83 a 0,16), a latência do sono (DM −4,30 minutos; IC95% −26,82 a 18,22) e o despertar após o início do sono (DM −2,79 minutos; IC95% −34,40 a 28,82). A qualidade de vida apresentou tendência de estimativa favorável, mas sem significância estatística (DMP 0,84; IC95% −0,61 a 2,29; três estudos). Portanto, não é possível afirmar que exista ganho real ou clinicamente relevante no tempo total de sono.
Na análise de subgrupos, a insônia aguda mostrou ganho de tempo total de sono (DM 57,23 minutos; IC95% 16,12 a 98,34; um estudo), ausente na insônia crônica (DM −4,21; IC95% −31,99 a 23,58), mas às custas de um intervalo de confiança amplo. O tipo de produto não modificou os resultados.
Canabinoides elevam as chances de eventos adversos
Em três ensaios cruzados com 98 participantes, a cannabis medicinal aumentou as chances de eventos adversos (OR 11,25; IC95% 4,46 a 28,35; I² = 0%; certeza baixa), que ocorreram em 37 participantes apenas no período com cannabis e em nenhum no período placebo.
No único ensaio da nobilona contra Amitriptilina, com 32 pacientes com fibromialgia, a cannabis reduziu o Índice de Gravidade da Insônia (DM −3,25; IC95% −5,17 a −1,33), sem diferença em qualidade de vida ou eventos adversos (RR 0,5; IC95% 0,05 a 5,24). O tamanho reduzido da amostra e a população específica limitam a aplicação desse achado à insônia em geral.
Não foram encontrados ensaios comparativos com benzodiazepínicos, agonistas dos receptores benzodiazepínicos ou agonistas dos receptores da melatonina.
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Terapia cognitivo-comportamental mantém prioridade em evidência com certeza baixa
A certeza foi rebaixada por alto risco de viés, inconsistência e imprecisão, já que apenas dois estudos tiveram baixo risco de viés. Amostras pequenas (a maioria com menos de 50 pacientes), seguimento curto (nenhum além de 12 semanas), heterogeneidade de formulações, ausência de comparação com benzodiazepínicos e sub-representação de idosos e de pacientes com comorbidades também limitam as conclusões.
Para o médico, a cannabis medicinal para insônia não demonstrou benefício clinicamente relevante sobre o sono em ensaios randomizados e expõe o paciente a mais efeitos adversos. As diretrizes internacionais não trazem recomendação para esses produtos, e a terapia cognitivo-comportamental segue como primeira linha. Na prática brasileira, diante de pacientes que solicitam canabinoides para dormir, sobretudo idosos, convém discutir a incerteza dos dados e priorizar abordagens com eficácia estabelecida, pelo menos até que ensaios maiores e mais longos definam o papel dessa terapia.
Mensagens práticas
- A revisão não oferece evidência robusta para sustentar o uso rotineiro de cannabis medicinal na insônia;
- Houve aumento de eventos adversos, com baixa certeza da evidência; a segurança em longo prazo permanece indefinida;
- A terapia cognitivo-comportamental para insônia permanece como referência inicial de tratamento;
- São necessários ensaios maiores, com formulações bem definidas e acompanhamento prolongado, para esclarecer a relação entre benefícios e riscos.
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Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Leandro Lima
Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.
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