O editorial publicado no BMJ em 19 de outubro de 2026 analisa os efeitos do calor ocupacional na saúde e produtividade. Os autores apresentam estimativas globais e defendem medidas contra o calor extremo, o estresse térmico e os riscos ocupacionais.
A publicação aborda desigualdades entre trabalhadores e propõe respostas integradas de governos, empresas e serviços de saúde. A análise considera umidade, esforço físico, ventilação e acesso a espaços de recuperação.

Calor extremo afeta bilhões de trabalhadores
Segundo o documento, cerca de 2,41 bilhões de trabalhadores são expostos ao calor excessivo anualmente, condição associada a 22,85 milhões de lesões ocupacionais e 18.970 mortes por ano.
Uma metanálise publicada no The Lancet Planetary Health, em 2018 citada no editorial, reuniu 111 estudos realizados em 30 países (como Brasil, Alemanha, China, Japão, Angola, Egito, etc.) e envolvendo mais de 40 ocupações (como trabalhadores rurais, trabalhadores de fábricas e salinas, entregadores que utilizam bicicletas, trabalhadores informais, etc) e identificou, em análises específicas, que 35% dos trabalhadores expostos ao estresse térmico apresentaram sobrecarga térmica, durante ou ao final do expediente, enquanto 30% relataram perdas de produtividade.
Em 2024, as perdas relacionadas ao calor foram estimadas em 639 bilhões de horas de trabalho e US$ 1,09 trilhão em rendimentos. Os impactos são especialmente relevantes entre trabalhadores informais, migrantes, agrícolas e aqueles remunerados por produção, que frequentemente enfrentam dificuldades para interromper suas atividades devido ao risco de perda de renda ou de sanções profissionais.
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Quais são as consequências do estresse térmico?
O estresse térmico ocupacional está associado à exaustão pelo calor, insolação grave e lesão renal aguda. Os autores recomendam avaliação clínica, encaminhamento e investigação das condições laborais.
Trabalhadores informais e aqueles remunerados por produção podem perder renda ao suspender tarefas. Mulheres também enfrentam riscos relacionados à falta de água, sanitários e locais de descanso.
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Governos e empresas devem prevenir riscos ocupacionais
Governos devem estabelecer padrões fiscalizáveis e associar indicadores de estresse térmico a medidas de proteção. A temperatura do ar, isoladamente, não representa toda a exposição, pois fatores como umidade, radiação térmica, circulação do ar e intensidade do esforço físico também influenciam os riscos à saúde.
As empresas, por sua vez, devem adotar medidas para reduzir a exposição, incluindo controle das fontes de calor, ventilação, sombreamento e adequação de jornadas e cargas de trabalho. O acesso à água potável, às instalações sanitárias, às pausas para recuperação térmica e aos processos de aclimatação também integra as estratégias preventivas.
Na assistência à saúde, os médicos devem investigar a ocupação e as condições de exposição térmica dos pacientes, reconhecer precocemente manifestações relacionadas ao calor e organizar os encaminhamentos necessários. A identificação de casos recorrentes entre trabalhadores de um mesmo local pode subsidiar ações de vigilância e investigação das condições ocupacionais.
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Realidade brasileira
No Brasil, a prevenção desses riscos é contemplada por diferentes Normas Regulamentadoras (NRs). A NR-01 estabelece o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), exigindo que as empresas abrangidas identifiquem os perigos presentes nas atividades e definam medidas de prevenção por meio do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Já o Anexo III da NR-09 determina critérios para avaliação e controle da exposição ocupacional ao calor, utilizando o Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo (IBUTG), associado à intensidade do trabalho. Quando os níveis de ação são ultrapassados, devem ser adotadas medidas preventivas, como disponibilização de água fresca e programação de atividades mais intensas em horários termicamente mais amenos.
Quando os limites de exposição são excedidos, são previstas medidas corretivas, incluindo reorganização das tarefas e acesso a locais que permitam a recuperação térmica. A norma foi atualizada em janeiro de 2026, com alterações nas disposições relativas às áreas de recuperação térmica para atividades externas.
A NR-15, por sua vez, estabelece critérios para caracterizar a insalubridade decorrente da exposição ao calor em ambientes fechados ou com fontes artificiais de calor. A avaliação considera o IBUTG e a taxa metabólica do trabalhador, utilizando os 60 minutos consecutivos mais críticos de exposição. Quando caracterizada, a insalubridade é classificada em grau médio.
Na prática médica, destaca-se ainda a NR-07, responsável pelo Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO). Em situações específicas de exposição excessiva ao calor, a NR-09 determina que o programa contemple procedimentos e avaliações médicas, considerando a necessidade de exames complementares e monitoramento fisiológico. Essas medidas permitem integrar a vigilância clínica à identificação e ao controle dos riscos nos ambientes de trabalho.
A prevenção também exige condições para interromper atividades sem retaliação ou perda de renda. Os autores defendem proteção inclusive para trabalhadores informais.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.
Autoria

Bruna Lupp
Editora de Conteúdo Sr. Formada em Letras pela UFRJ e pós-graduada em Gestão de Projetos. Atuante na produção de conteúdo médico há 10 anos.
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