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Cirurgia28 outubro 2026

Dobesilato de cálcio na DVC: uma molécula, múltiplos alvos terapêuticos

A doença venosa crônica exige uma abordagem que vá além do alívio sintomático. Entenda como a atuação na microcirculação pode impactar o tratamento nos estágios CEAP C0 a C6.

Este conteúdo foi produzido pela Afya em parceria com Apsen de acordo com a Política Editorial e de Publicidade do Portal Afya.

Microcirculação e progressão da DVC

A doença venosa crônica (DVC) é uma condição crônica, progressiva e de elevada prevalência, com apresentação clínica variável em diferentes níveis de gravidade, classificados pelo CEAP – Clinical, Etiological, Anatomical and Pathophysiological classification (Quadro 1).1,2

 

Quadro 1. Classificação clínica CEAP da doença venosa crônica.

  Categoria  Descrição
  C0  Sem sinais visíveis ou palpáveis de doença venosa
  C1  Telangiectasias ou veias reticulares
  C2  Veias varicosas (varizes)
  C2r  Veias varicosas recorrentes
  C3  Edema
  C4  Alterações da pele e tecido subcutâneo secundárias à doença venosa crônica
  C4a  Pigmentação ou eczema
  C4b  Lipodermatoesclerose ou atrofia branca
  C4c  Coroa flebectásica (Corona phlebectatica)
  C5  Úlcera venosa cicatrizada
  C6  Úlcera venosa ativa
  C6r  Úlcera venosa ativa recorrente

Fonte: Adaptado de Tamada et al.2

 

Nos diferentes estágios da DVC, alterações na microcirculação e na função endotelial estão relacionadas à progressão da doença. O endotélio vascular atua como o principal local de transição e é o elemento central na progressão da DVC. A disfunção endotelial (DE) precede as manifestações clínicas da patologia, atuando como marcador prognóstico confiável de comprometimento da homeostase vascular.3

Sob o efeito da hipertensão venosa persistente, os capilares sofrem dano estrutural, levando à fragilidade mecânica e à impermeabilidade, o que resulta no extravasamento de eritrócitos e macromoléculas (como albumina) para a matriz extracelular (ME).3

Esse processo sustenta um quadro de hipóxia crônica e um estado inflamatório, gerando alterações tróficas cutâneas graves que precedem as úlceras.3

Ação multifatorial e repercussões clínicas

O dobesilato de cálcio atua simultaneamente em três eixos fisiopatológicos, com efeitos convergentes sobre a microcirculação e a parede vascular:

  • ação antioxidante e angioprotetora: redução da produção de espécies reativas de oxigênio, combatendo o estresse oxidativo;1
  • modulação endotelial via óxido nítrico: estímulo à atividade da enzima sintase do óxido nítrico (promovendo relaxamento vascular) e inibição da síntese de tromboxano A2 e prostaglandinas com efeito inflamatório;1,4
  • efeitos hemorreológicos e antiproliferativos: redução da viscosidade sanguínea, diminuição da agregação plaquetária e inibição da sinalização do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), modulando a proliferação celular e a permeabilidade excessiva.4

Ao reduzir a permeabilidade vascular, a molécula diminui o escape de albumina e preserva a integridade capilar, atenuando as complicações microcirculatórias da pele sem causar bloqueio biológico completo.3,4

Nos estágios iniciais da doença (C0 a C2), estudos apontam o alívio de sintomas como dor, sensação de peso nas pernas, cãibras e parestesia. O NNT (número necessário para tratar) descrito é de 4 (IC 95%, 3-7) para o alívio do desconforto e de 8 (IC 95%, 4-50) para a redução de cãibras noturnas.1,4,5

Com a progressão para os estágios C3 e C4, ensaios clínicos demonstraram redução volumétrica significativa do edema dos membros inferiores (p = 0,0002) e alívio consistente de prurido e cansaço, com correlação entre a magnitude da resposta e a gravidade tecidual inicial.1,6,7

Manejo nos estágios avançados da DVC

Nos estágios avançados da DVC (CEAP C5 e C6), caracterizados pela presença de úlceras cicatrizadas ou ativas, o comprometimento microcirculatório permanece como componente relevante da doença. 1,8

Aqui o dobesilato de cálcio atua sobre as alterações decorrentes da estase crônica e suas complicações secundárias, tais como úlcera venosa e dermatite de estase.9

Nesse contexto de maior comprometimento microvascular e tecidual, a terapia reduz de forma consistente diversos sintomas associados à estase venosa, promovendo alívio de prurido, dor, cansaço, fadiga, sensação de peso, cãibras e edema de membros inferiores.1,8,9

Qualidade de vida, segurança e respaldo em diretrizes

Tratar as disfunções biológicas, como a disfunção endotelial e a inflamação microvascular, permite atuar sobre os mecanismos responsáveis pela progressão da DVC.1,3

Dados sustentam que a melhora na qualidade de vida, quando avaliada por escalas globais contínuas, como o questionário CIVIQ, manifesta-se de forma estatisticamente significativa no longo prazo (12 meses; p = 0,02).1,10

O dobesilato de cálcio apresenta segurança documentada para uso crônico e é geralmente bem tolerado, com eventos adversos predominantemente gastrointestinais, reforçando sua segurança para uso geral sem necessidade de monitorização específica.4,11

Além disso, esse fármaco é recomendado pelas principais diretrizes internacionais, incluindo as da ESVS e as diretrizes conjuntas norte-americanas (SVS/AVF/AVLS).1,4

Autoria

Foto de Gabriel Quintino Lopes

Gabriel Quintino Lopes

Editor médico na Afya, em B2B. Cardiologista com MBA em Gestão em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Combina prática clínica de alta complexidade — coordenou o serviço de cirurgia cardíaca da Santa Casa de Barra Mansa, onde liderou redução de mortalidade perioperatória de 30% para 5% em três anos — com governança em operadora de saúde (conselheiro administrativo da Unimed Barra Mansa) e empreendedorismo em modelos novos de cuidado, como idealizador da Zure Saúde, primeira clínica de atenção primária por assinatura do Sul Fluminense.

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