Microcirculação e progressão da DVC
A doença venosa crônica (DVC) é uma condição crônica, progressiva e de elevada prevalência, com apresentação clínica variável em diferentes níveis de gravidade, classificados pelo CEAP – Clinical, Etiological, Anatomical and Pathophysiological classification (Quadro 1).1,2
Quadro 1. Classificação clínica CEAP da doença venosa crônica.
| Categoria | Descrição |
| C0 | Sem sinais visíveis ou palpáveis de doença venosa |
| C1 | Telangiectasias ou veias reticulares |
| C2 | Veias varicosas (varizes) |
| C2r | Veias varicosas recorrentes |
| C3 | Edema |
| C4 | Alterações da pele e tecido subcutâneo secundárias à doença venosa crônica |
| C4a | Pigmentação ou eczema |
| C4b | Lipodermatoesclerose ou atrofia branca |
| C4c | Coroa flebectásica (Corona phlebectatica) |
| C5 | Úlcera venosa cicatrizada |
| C6 | Úlcera venosa ativa |
| C6r | Úlcera venosa ativa recorrente |
Fonte: Adaptado de Tamada et al.2
Nos diferentes estágios da DVC, alterações na microcirculação e na função endotelial estão relacionadas à progressão da doença. O endotélio vascular atua como o principal local de transição e é o elemento central na progressão da DVC. A disfunção endotelial (DE) precede as manifestações clínicas da patologia, atuando como marcador prognóstico confiável de comprometimento da homeostase vascular.3
Sob o efeito da hipertensão venosa persistente, os capilares sofrem dano estrutural, levando à fragilidade mecânica e à impermeabilidade, o que resulta no extravasamento de eritrócitos e macromoléculas (como albumina) para a matriz extracelular (ME).3
Esse processo sustenta um quadro de hipóxia crônica e um estado inflamatório, gerando alterações tróficas cutâneas graves que precedem as úlceras.3
Ação multifatorial e repercussões clínicas
O dobesilato de cálcio atua simultaneamente em três eixos fisiopatológicos, com efeitos convergentes sobre a microcirculação e a parede vascular:
- ação antioxidante e angioprotetora: redução da produção de espécies reativas de oxigênio, combatendo o estresse oxidativo;1
- modulação endotelial via óxido nítrico: estímulo à atividade da enzima sintase do óxido nítrico (promovendo relaxamento vascular) e inibição da síntese de tromboxano A2 e prostaglandinas com efeito inflamatório;1,4
- efeitos hemorreológicos e antiproliferativos: redução da viscosidade sanguínea, diminuição da agregação plaquetária e inibição da sinalização do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), modulando a proliferação celular e a permeabilidade excessiva.4
Ao reduzir a permeabilidade vascular, a molécula diminui o escape de albumina e preserva a integridade capilar, atenuando as complicações microcirculatórias da pele sem causar bloqueio biológico completo.3,4
Nos estágios iniciais da doença (C0 a C2), estudos apontam o alívio de sintomas como dor, sensação de peso nas pernas, cãibras e parestesia. O NNT (número necessário para tratar) descrito é de 4 (IC 95%, 3-7) para o alívio do desconforto e de 8 (IC 95%, 4-50) para a redução de cãibras noturnas.1,4,5
Com a progressão para os estágios C3 e C4, ensaios clínicos demonstraram redução volumétrica significativa do edema dos membros inferiores (p = 0,0002) e alívio consistente de prurido e cansaço, com correlação entre a magnitude da resposta e a gravidade tecidual inicial.1,6,7
Manejo nos estágios avançados da DVC
Nos estágios avançados da DVC (CEAP C5 e C6), caracterizados pela presença de úlceras cicatrizadas ou ativas, o comprometimento microcirculatório permanece como componente relevante da doença. 1,8
Aqui o dobesilato de cálcio atua sobre as alterações decorrentes da estase crônica e suas complicações secundárias, tais como úlcera venosa e dermatite de estase.9
Nesse contexto de maior comprometimento microvascular e tecidual, a terapia reduz de forma consistente diversos sintomas associados à estase venosa, promovendo alívio de prurido, dor, cansaço, fadiga, sensação de peso, cãibras e edema de membros inferiores.1,8,9
Qualidade de vida, segurança e respaldo em diretrizes
Tratar as disfunções biológicas, como a disfunção endotelial e a inflamação microvascular, permite atuar sobre os mecanismos responsáveis pela progressão da DVC.1,3
Dados sustentam que a melhora na qualidade de vida, quando avaliada por escalas globais contínuas, como o questionário CIVIQ, manifesta-se de forma estatisticamente significativa no longo prazo (12 meses; p = 0,02).1,10
O dobesilato de cálcio apresenta segurança documentada para uso crônico e é geralmente bem tolerado, com eventos adversos predominantemente gastrointestinais, reforçando sua segurança para uso geral sem necessidade de monitorização específica.4,11
Além disso, esse fármaco é recomendado pelas principais diretrizes internacionais, incluindo as da ESVS e as diretrizes conjuntas norte-americanas (SVS/AVF/AVLS).1,4
Autoria

Gabriel Quintino Lopes
Editor médico na Afya, em B2B. Cardiologista com MBA em Gestão em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Combina prática clínica de alta complexidade — coordenou o serviço de cirurgia cardíaca da Santa Casa de Barra Mansa, onde liderou redução de mortalidade perioperatória de 30% para 5% em três anos — com governança em operadora de saúde (conselheiro administrativo da Unimed Barra Mansa) e empreendedorismo em modelos novos de cuidado, como idealizador da Zure Saúde, primeira clínica de atenção primária por assinatura do Sul Fluminense.
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