O carcinoma hepatocelular permanece associado a diferentes perfis de risco, com destaque para hepatites virais, cirrose e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (do inglês metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease – MASLD). Diante da diversidade etiológica e das diferenças regionais de acesso ao rastreamento, um consenso brasileiro multidisciplinar reuniu recomendações para prevenção, vigilância e detecção precoce. O documento é o primeiro de uma série de quatro artigos e busca transformar a evidência disponível em orientações aplicáveis à prática clínica brasileira.
No cenário nacional descrito pelos autores, as hepatites virais ainda respondem por parcela importante dos casos, enquanto fatores associados à disfunção metabólica ganham relevância. Esse deslocamento reforça a necessidade de combinar a prevenção das causas evitáveis com a identificação adequada das populações que realmente se beneficiam da vigilância.

O consenso brasileiro reúne evidências para prevenção do CHC
O documento foi coordenado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, com a participação de outras 13 sociedades médicas nacionais. Ao todo, 43 especialistas de áreas como hepatologia, oncologia, cirurgia hepatopancreatobiliar, transplante hepático, radiologia e gastroenterologia participaram do processo.
Um comitê definiu perguntas clínicas sobre prevenção, critérios de vigilância e estratégias de detecção precoce. A base científica veio de uma revisão direcionada, com buscas em PubMed, Scopus e Cochrane Library e inclusão de estudos clínicos, ensaios randomizados e não randomizados, revisões sistemáticas, diretrizes e consensos prévios.
As recomendações passaram por um processo Delphi adaptado em duas rodadas eletrônicas. O consenso foi definido previamente com a aprovação de pelo menos 80% dos participantes. Ao final, 18 recomendações foram incorporadas. A qualidade da evidência foi classificada como alta, moderada ou baixa, e a força das recomendações, como forte ou fraca.
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Quem deve entrar na vigilância do CHC?
A recomendação central é realizar vigilância em todos os pacientes com fibrose avançada F3 ou cirrose F4, independentemente da etiologia. Na hepatite B crônica, o consenso também indica vigilância em pacientes com F0 a F2 quando há características de maior risco, como idade mais avançada, sexo masculino, carga viral elevada, história familiar ou ancestralidade asiática ou africana. Em situações selecionadas, com riscos sobrepostos, a decisão pode ser individualizada.
Na MASLD, a vigilância é indicada quando existe fibrose avançada ou cirrose confirmada por biópsia ou por métodos não invasivos. O documento ressalta que, embora o carcinoma hepatocelular possa ocorrer sem cirrose, a incidência em pacientes com MASLD sem fibrose avançada é muito baixa e não sustenta a vigilância rotineira nesse grupo.
Entre as estratégias de prevenção, o consenso recomenda vacinação universal contra o vírus da hepatite B, preferencialmente iniciada ao nascimento, além de tratamento antiviral oportuno nas hepatites B e C, conforme os critérios descritos no documento. Para pacientes com HCV, o benefício preventivo é mais evidente quando se alcança resposta virológica sustentada.
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Priorize a ultrassonografia abdominal no seguimento
A ultrassonografia abdominal permanece como exame de primeira linha para a vigilância do carcinoma hepatocelular, com recomendação forte e nível de evidência moderado. O intervalo recomendado é de seis meses. A alfafetoproteína não deve ser usada isoladamente, mas pode ser combinada à ultrassonografia, especialmente em pacientes de alto risco.
Na evidência sintetizada pelo consenso, a combinação de ultrassonografia com alfafetoproteína aumentou a sensibilidade para a detecção de tumores em estágio inicial de 45% para 63%, com p=0,002, embora com pequena redução da especificidade. Em outro estudo brasileiro citado, um protocolo ultrassonográfico estruturado baseado no US LI-RADS identificou nódulos em 10% dos pacientes, em comparação com 1,3% com a ultrassonografia convencional, com p<0,001.
Por isso, os laudos devem ser estruturados e documentar limitações acústicas, presença ou ausência de lesões focais, características de nódulos indeterminados e avaliação Doppler das estruturas vasculares hepáticas e portais. Ressonância magnética ou tomografia computadorizada podem ser consideradas quando limitações técnicas comprometem o desempenho da ultrassonografia.
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Se surgirem nódulos hepáticos subcentimétricos, encurte o seguimento
Para nódulos menores que 1 cm detectados na ultrassonografia, o consenso recomenda novo exame a cada três a quatro meses nos primeiros dois anos. Se o nódulo permanecer estável, o acompanhamento pode retornar ao intervalo semestral. A recomendação considera a baixa probabilidade de malignidade dessas lesões e as limitações da biópsia e da imagem seccional nesse tamanho.
Na prática, o documento propõe uma estratégia que combina prevenção etiológica, seleção de pacientes de maior risco, vigilância semestral e padronização da ultrassonografia. Para o contexto brasileiro, a própria discussão do consenso reconhece que a disponibilidade de recursos, o acesso a exames, a capacitação profissional e as redes de encaminhamento podem exigir adaptação local.
Assim, a principal aplicação clínica é identificar corretamente quem deve permanecer em vigilância do carcinoma hepatocelular e garantir que o acompanhamento seja realizado com método, intervalo e documentação adequados. O consenso também reforça que suas recomendações devem apoiar, e não substituir, decisões individualizadas diante do perfil clínico e das condições de cuidado de cada paciente.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Jader Ricco
Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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