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Cirurgia2 outubro 2026

Consenso orienta vigilância do carcinoma hepatocelular

Carcinoma hepatocelular ganha recomendações brasileiras sobre prevenção, grupos de risco, ultrassonografia e seguimento.
Por Jader Ricco

O carcinoma hepatocelular permanece associado a diferentes perfis de risco, com destaque para hepatites virais, cirrose e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (do inglês metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease – MASLD). Diante da diversidade etiológica e das diferenças regionais de acesso ao rastreamento, um consenso brasileiro multidisciplinar reuniu recomendações para prevenção, vigilância e detecção precoce. O documento é o primeiro de uma série de quatro artigos e busca transformar a evidência disponível em orientações aplicáveis à prática clínica brasileira.

No cenário nacional descrito pelos autores, as hepatites virais ainda respondem por parcela importante dos casos, enquanto fatores associados à disfunção metabólica ganham relevância. Esse deslocamento reforça a necessidade de combinar a prevenção das causas evitáveis com a identificação adequada das populações que realmente se beneficiam da vigilância.

O consenso brasileiro reúne evidências para prevenção do CHC

O documento foi coordenado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, com a participação de outras 13 sociedades médicas nacionais. Ao todo, 43 especialistas de áreas como hepatologia, oncologia, cirurgia hepatopancreatobiliar, transplante hepático, radiologia e gastroenterologia participaram do processo.

Um comitê definiu perguntas clínicas sobre prevenção, critérios de vigilância e estratégias de detecção precoce. A base científica veio de uma revisão direcionada, com buscas em PubMed, Scopus e Cochrane Library e inclusão de estudos clínicos, ensaios randomizados e não randomizados, revisões sistemáticas, diretrizes e consensos prévios.

As recomendações passaram por um processo Delphi adaptado em duas rodadas eletrônicas. O consenso foi definido previamente com a aprovação de pelo menos 80% dos participantes. Ao final, 18 recomendações foram incorporadas. A qualidade da evidência foi classificada como alta, moderada ou baixa, e a força das recomendações, como forte ou fraca.

 

Saiba mais: Hepatite B um novo horizonte? 

 

Quem deve entrar na vigilância do CHC?

A recomendação central é realizar vigilância em todos os pacientes com fibrose avançada F3 ou cirrose F4, independentemente da etiologia. Na hepatite B crônica, o consenso também indica vigilância em pacientes com F0 a F2 quando há características de maior risco, como idade mais avançada, sexo masculino, carga viral elevada, história familiar ou ancestralidade asiática ou africana. Em situações selecionadas, com riscos sobrepostos, a decisão pode ser individualizada.

Na MASLD, a vigilância é indicada quando existe fibrose avançada ou cirrose confirmada por biópsia ou por métodos não invasivos. O documento ressalta que, embora o carcinoma hepatocelular possa ocorrer sem cirrose, a incidência em pacientes com MASLD sem fibrose avançada é muito baixa e não sustenta a vigilância rotineira nesse grupo.

Entre as estratégias de prevenção, o consenso recomenda vacinação universal contra o vírus da hepatite B, preferencialmente iniciada ao nascimento, além de tratamento antiviral oportuno nas hepatites B e C, conforme os critérios descritos no documento. Para pacientes com HCV, o benefício preventivo é mais evidente quando se alcança resposta virológica sustentada.

 

Saiba mais: ACP 2024 Dicas sobre MASLD para o clínico

 

Priorize a ultrassonografia abdominal no seguimento

A ultrassonografia abdominal permanece como exame de primeira linha para a vigilância do carcinoma hepatocelular, com recomendação forte e nível de evidência moderado. O intervalo recomendado é de seis meses. A alfafetoproteína não deve ser usada isoladamente, mas pode ser combinada à ultrassonografia, especialmente em pacientes de alto risco.

Na evidência sintetizada pelo consenso, a combinação de ultrassonografia com alfafetoproteína aumentou a sensibilidade para a detecção de tumores em estágio inicial de 45% para 63%, com p=0,002, embora com pequena redução da especificidade. Em outro estudo brasileiro citado, um protocolo ultrassonográfico estruturado baseado no US LI-RADS identificou nódulos em 10% dos pacientes, em comparação com 1,3% com a ultrassonografia convencional, com p<0,001.

Por isso, os laudos devem ser estruturados e documentar limitações acústicas, presença ou ausência de lesões focais, características de nódulos indeterminados e avaliação Doppler das estruturas vasculares hepáticas e portais. Ressonância magnética ou tomografia computadorizada podem ser consideradas quando limitações técnicas comprometem o desempenho da ultrassonografia.

 

Saiba mais: Carcinoma hepatocelular o que o clínico deve saber? 

 

Se surgirem nódulos hepáticos subcentimétricos, encurte o seguimento

Para nódulos menores que 1 cm detectados na ultrassonografia, o consenso recomenda novo exame a cada três a quatro meses nos primeiros dois anos. Se o nódulo permanecer estável, o acompanhamento pode retornar ao intervalo semestral. A recomendação considera a baixa probabilidade de malignidade dessas lesões e as limitações da biópsia e da imagem seccional nesse tamanho.

Na prática, o documento propõe uma estratégia que combina prevenção etiológica, seleção de pacientes de maior risco, vigilância semestral e padronização da ultrassonografia. Para o contexto brasileiro, a própria discussão do consenso reconhece que a disponibilidade de recursos, o acesso a exames, a capacitação profissional e as redes de encaminhamento podem exigir adaptação local.

Assim, a principal aplicação clínica é identificar corretamente quem deve permanecer em vigilância do carcinoma hepatocelular e garantir que o acompanhamento seja realizado com método, intervalo e documentação adequados. O consenso também reforça que suas recomendações devem apoiar, e não substituir, decisões individualizadas diante do perfil clínico e das condições de cuidado de cada paciente.

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Jader Ricco

Jader Ricco

Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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