A inteligência artificial já entrou na sala de aula da medicina — e você provavelmente já percebe seus efeitos.
Como médico experiente, você já se sentiu incomodado quando um residente ou interno apresentou, durante a discussão de um caso, uma hipótese diagnóstica inesperada e, ao ser questionado sobre a origem daquele raciocínio, afirmou que havia “pesquisado ou estudado antes”?
Ou já recebeu de um estudante uma anamnese estruturada de maneira diferente — e até mais elaborada — do que as produzidas pelas turmas anteriores?
A possibilidade de esse estudante ter utilizado uma ferramenta de inteligência artificial é elevada. Isso não deve ser interpretado necessariamente como um problema, mas como um sinal.
A inteligência artificial no ensino médico avançou inicialmente de forma silenciosa e individual, sobretudo entre os mais jovens. O uso começou antes da atualização dos currículos, da elaboração de protocolos e até mesmo da formação de uma opinião mais consistente entre professores e preceptores.
Agora, a IA está em toda parte.
O crescimento da inteligência artificial na educação médica
A produção científica sobre inteligência artificial na saúde indexada no PubMed cresceu de maneira sem precedentes. Em 2019, havia 819 artigos sobre o tema. Em 2024, esse número chegou a 28.180. Em 2025, aproximou-se de 50 mil publicações, praticamente o dobro em um único ano.
Em 12 anos, o campo cresceu mais de 32.000%.
Para quem atua na formação médica, outro dado merece atenção. A categoria Educação, que até 2021 não aparecia como uma especialidade relevante nessas análises, acumulou em poucos anos um volume expressivo de estudos.
Grande parte dessas pesquisas investiga o uso de grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT e ferramentas equivalentes, no ensino médico e na oferta de feedback a estudantes e residentes.
A sala de aula de medicina tornou-se uma das novas fronteiras da IA.
Como a IA já aparece na formação de estudantes e residentes
Professores e preceptores provavelmente já se depararam com pelo menos uma das situações a seguir.
O estudante conhece a resposta, mas não sustenta o raciocínio
O estudante apresenta uma lista de diagnósticos diferenciais impressionante para sua etapa de formação. No entanto, quando o preceptor aprofunda a discussão, percebe que ele sabe o que responder, mas não compreende plenamente o porquê.
A IA forneceu uma resposta estruturada, mas a experiência clínica necessária para sustentar o raciocínio ainda não foi construída.
O residente resiste mais ao feedback humano
Alguns residentes parecem menos receptivos à correção do preceptor do que em anos anteriores.
Parte dessa resistência pode decorrer da inexperiência e da percepção equivocada de que a IA sabe tudo. O residente pode ter passado horas “discutindo” o caso com uma ferramenta que responde sem julgamento ou impaciência e oferece explicações organizadas e aparentemente lógicas.
Em contraste, o feedback humano pode parecer mais áspero ou menos estruturado.
O professor já não sabe exatamente o que está avaliando
Diante de um texto muito bem escrito, de um relatório de estágio extremamente organizado ou de uma lista de referências pertinentes, surge uma nova dúvida: o estudante produziu aquele conteúdo ou uma ferramenta de IA o gerou?
Essa incerteza, por si só, modifica a relação entre o professor, o estudante e a avaliação.
Essas situações não devem ser tratadas apenas como problemas disciplinares. Elas fazem parte de uma transição que avança mais rapidamente do que muitas instituições de ensino conseguem acompanhar.
Leia mais: Como supervisionar o uso de IA por residentes e estudantes de medicina
O que a IA consegue oferecer além da preceptoria tradicional
Essa comparação pode ser desconfortável, mas precisa ser enfrentada.
O preceptor experiente permanece insubstituível no julgamento clínico, no diagnóstico e na transmissão de uma medicina construída ao longo de anos de prática. Para o jovem ansioso, entretanto, esse professor possui limitações concretas.
O preceptor está disponível em janelas determinadas, muitas vezes fornece feedback depois do atendimento e precisa dividir a atenção entre vários residentes. Os estudantes, por outro lado, esperam acesso à informação em tempo real.
A IA opera sob outra lógica.
Ela está disponível às 2 horas da manhã, quando o residente prepara a apresentação do dia seguinte. Pode simular um paciente com dor torácica atípica e avaliar, em tempo real, se o estudante realizou as perguntas adequadas.
A ferramenta não se cansa, não precisa dividir a atenção entre diferentes alunos e pode oferecer respostas imediatas.
IA e feedback formativo no ensino médico
Um sistema chamado MedSimAI, desenvolvido em parceria com a Universidade Cornell, demonstrou em 2026 capacidade de avaliar habilidades de anamnese com 87% de precisão.
A ferramenta identificou padrões como perguntas não realizadas, falta de organização do raciocínio e lacunas na abordagem empática, oferecendo feedback formativo imediato.
O feedback formativo — aquele que ocorre durante o aprendizado, antes da avaliação final — é considerado um dos elementos mais relevantes para o desenvolvimento de competências clínicas.
O problema é que sua realização depende de tempo e consistência, recursos que o sistema atual nem sempre consegue garantir a todos os estudantes.
A inteligência artificial pode ampliar esse acesso, alcançando tanto o residente de uma grande universidade quanto aquele formado em uma instituição distante dos principais centros acadêmicos.
A IA não substitui o preceptor, mas modifica seu papel
A pergunta “a IA vai substituir o médico ou o preceptor?” pode não ser a mais adequada.
Uma questão mais útil seria: o profissional que sabe utilizar a inteligência artificial terá vantagem sobre aquele que ignora essas ferramentas?
Quem forma médicos atualmente tem uma oportunidade que as gerações anteriores não tiveram: usar a tecnologia para oferecer mais feedback, de forma personalizada e a um número maior de pessoas, sem renunciar ao que somente a experiência humana pode ensinar.
Os estudantes de hoje encontrarão ferramentas de inteligência artificial integradas a prontuários, exames de imagem, processos diagnósticos e prescrições.
Caso a formação médica não os prepare para essa realidade, poderá tornar-se desatualizada antes mesmo da conclusão do curso.
Como começar a integrar a inteligência artificial no ensino médico
Professores e preceptores não precisam aprender programação nem dominar os fundamentos matemáticos dos modelos de linguagem.
Precisam, entretanto, compreender o suficiente para formular as perguntas adequadas:
- Quais ferramentas de IA já são utilizadas na instituição?
- Quais vieses essas tecnologias podem reproduzir?
- Como integrar a tecnologia sem esvaziar os aspectos insubstituíveis da relação entre preceptor e residente?
- Como verificar as bases, referências e limitações das respostas apresentadas pela IA?
A literatura científica sobre o tema cresce em ritmo acelerado. O debate sobre inteligência artificial no ensino médico não aguardará que todos estejam confortáveis para avançar.
Leia mais: Inteligência artificial no currículo médico
O debate sobre IA na medicina já chegou às instituições
A discussão já ocorre em diferentes espaços acadêmicos e profissionais.
O Conselho Federal de Medicina criou uma Comissão de Inteligência Artificial e, em junho de 2025, realizou o I Fórum sobre Inteligência Artificial na Medicina.
Com transmissão gratuita pelo YouTube, o evento reuniu especialistas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal de Goiás e de entidades internacionais para discutir os impactos da IA na prática clínica e no ensino.
Professores e preceptores devem conversar com seus residentes sobre como essas ferramentas estão sendo utilizadas — não com uma postura exclusivamente punitiva, mas com o objetivo de compreender o fenômeno.
Também é necessário questionar as bases de dados consultadas, os vieses dos modelos e a tendência de algumas ferramentas de priorizar artigos de acesso gratuito, que nem sempre representam as melhores evidências disponíveis.
A inteligência artificial já está na sala de aula. A questão não é mais se o professor fará parte dessa transformação, mas se ajudará a conduzi-la de maneira crítica.
#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Ester Ribeiro
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