O artigo de opinião “Building the AI-Enabled Medical School of the Future”, publicado no JAMA, discute como o avanço da inteligência artificial (IA), sobretudo dos large language models (LLMs), têm transformado a educação médica.
Tais modelos já desempenham papel relevante em tarefas clínicas cotidianas, como documentação clínica, revisão de prontuários, interpretação de exames médicos e apoio à tomada de decisão. Entretanto, tais tecnologias não possuem, de fato, um raciocínio clínico, mas apenas reconhecem padrões derivados de dados de treinamento que permitem respostas plausíveis, sem necessariamente considerar mecanismos fisiopatológicos subjacentes. A bem da verdade, há o risco real de as respostas serem apenas associação probabilística entre palavras e conceitos frequentemente relacionados.
O ponto chave para a educação médica atual é como preparar os futuros médicos para atuar em um ambiente onde ferramentas de IA estarão integradas a praticamente todas as etapas do cuidado em saúde.
O desafio é instruir os acadêmicos a utilizar a IA de modo crítico e estruturado.
Uma das propostas é encará-la como tutor ou parceiro de discussão clínica, capaz de analisar o raciocínio do estudante, oferecer feedback e ajudar na interpretação de textos complexos, como livros ou artigos científicos. Ademais, poderiam ampliar o volume e a diversidade de cenários clínicos disponíveis para treinamento, permitindo que estudantes e residentes pratiquem o raciocínio diagnóstico em centenas de casos simulados.
As LLMs permitem moldar pacientes padronizados digitais, que podem ser úteis em avaliações estruturadas como os OSCEs e no treinamento de doenças raras ou apresentações atípicas que dificilmente seriam encontradas em variedade suficente durante os estágios clínicos tradicionais, reduzindo desigualdades educacionais entre instituições.
Os currículos médicos devem adotar maior ênfase na alfabetização em dados, compreensão de sistemas algorítmicos e avaliação crítica de outputs gerados por IA, sem abrir mão, em absoluto, dos fundamentos da prática clínica.
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Conclusão e Mensagens práticas
- A integração bem-sucedida entre IA e educação médica dependerá de um equilíbrio entre inovação tecnológica e preservação dos elementos centrais da medicina, como o raciocínio clínico, a empatia e o julgamento moral.
- A escola médica do futuro não deve simplesmente adotar novas ferramentas digitais, mas integrá-las de forma deliberada e responsável, garantindo que os médicos permaneçam capazes de exercer uma prática segura e humana mesmo em cenários em que a tecnologia falhe ou esteja indisponível.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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