Desde a época da residência, o apelido daquele médico circulava em voz baixa, quase sempre acompanhado de uma risada jocosa. Nunca diante dele — ninguém demonstrava essa coragem ou assumia tamanha descortesia. Bastava, porém, que ele virasse as costas.
A idade, a maneira antiga de falar e as referências que os profissionais mais jovens não reconheciam transformavam-se em motivo de brincadeira.
Eu nunca havia conversado verdadeiramente com ele. Não por hostilidade, mas por indiferença. Ele simplesmente não fazia parte do grupo de pessoas com quem eu imaginava que poderia aprender.
Isso mudou durante um plantão.
Era uma tarde monótona quando ele perguntou:
— Quer conhecer o sistema de tratamento de água da hemodiálise?
Era evidente que eu queria.

A experiência clínica que não aparece nos protocolos
Ele me mostrou cada máquina, cada controle e cada detalhe daquele sistema. Dominava aspectos técnicos que eu nunca havia imaginado que conhecesse.
Depois, seguiu para as consultas. Conhecia cada paciente pelo nome — e não apenas pelo nome. Conhecia a realidade de cada um.
Quando prescrevia uma opção diferente da recomendação inicial do protocolo, não era por desconhecimento das diretrizes. Ele sabia que determinado paciente não teria condições de comprar o medicamento de primeira escolha. Apresentar uma alternativa acessível já na primeira consulta poderia representar a diferença entre iniciar ou não o tratamento.
Também dividia as medicações em etapas. Não porque desconhecesse as recomendações, mas porque havia aprendido, ao longo de décadas, que prescrever tudo de uma vez poderia resultar em nenhum medicamento tomado.
Esse conhecimento não estava em um guideline. Estava em 50 anos de experiência.
A adesão terapêutica depende não apenas da prescrição, mas da capacidade de compreender as circunstâncias individuais de cada paciente.
Leia mais em: Como melhorar a adesão do paciente ao tratamento
O conhecimento de uma geração pioneira
Quando jovem, aquele médico havia buscado tecnologia e conhecimento no exterior, em uma época em que essa iniciativa exigia um esforço difícil de imaginar atualmente.
Trouxe equipamentos, técnicas e uma visão de medicina que o país ainda começava a desenvolver.
Anos depois, estava sendo apelidado nos corredores por colegas que haviam nascido décadas mais tarde e ainda não tinham vivenciado uma fração dos desafios que ele atravessara.
Esse médico conquistou meu respeito. Também passou a ter minha defesa quando algum colega mais jovem dirigia a ele aquele sorriso torto.
Conto essa história porque o etarismo na medicina apresenta dois rostos — e um deles ainda recebe pouca atenção.
Etarismo na medicina e o cuidado do paciente idoso
O primeiro rosto é o do paciente idoso mal atendido.
É o sintoma descartado com a afirmação de que “é apenas a idade”. É o câncer diagnosticado tardiamente porque ninguém considerou que ainda valia a pena investigar. É o protocolo que deixa de ser seguido não por uma decisão clínica individualizada, mas pela suposição silenciosa de que determinado cuidado já não compensaria.
A idade é uma variável clínica relevante. O problema surge quando ela passa a determinar diagnósticos e condutas antes de uma avaliação criteriosa.
É o “já tem 78 anos” que encerra o diagnóstico diferencial antes mesmo de ele ser construído.
O médico experiente invisibilizado pela própria categoria
O segundo rosto do etarismo é o do médico experiente que se torna invisível dentro da própria profissão.
Uma pesquisa da Associação Médica Americana, publicada em 2025, ouviu mais de 6 mil médicos com 65 anos ou mais. Quase dois terços relataram ter sofrido alguma forma de preconceito em razão da idade.
Entre as experiências relatadas estavam opiniões desconsideradas, retirada de responsabilidades, pressão para se aposentar e a percepção de que sua presença havia se tornado inconveniente.
É o “ele é de outra geração” usado para dispensar uma opinião antes que ela seja ouvida.
Os dois fenômenos partem da mesma premissa equivocada: a de que idade e declínio são necessariamente sinônimos. Nessa lógica, ser mais velho significaria ser menos capaz, menos relevante ou menos digno de atenção.
Esse é um atalho mental construído culturalmente e que a medicina também pode reproduzir.
Leia também: Etarismo entre médicos e desvalorização da experiência.
Individualizar o cuidado também exige escutar
A medicina que desejamos exercer — e receber quando chegar a nossa vez — é aquela que trata cada pessoa como indivíduo.
O paciente de 78 anos merece uma investigação criteriosa, assim como o paciente de 40. O colega de 77 anos carrega décadas de experiência que dificilmente podem ser sintetizadas em uma reunião ou substituídas apenas pela leitura de diretrizes.
Aquele médico dos corredores da residência me ensinou mais sobre adesão ao tratamento, vínculo com o paciente e a diferença entre seguir um protocolo e cuidar de uma pessoa do que muitas aulas formais.
Quase perdi esse aprendizado porque não havia me dado o trabalho de conversar com ele antes.
Às vezes, pergunto-me quantos médicos como ele existem por aí: profissionais apelidados em voz baixa enquanto seu conhecimento permanece ignorado na sala ao lado.
Eles sabem o que está acontecendo. Provavelmente já tentaram ser ouvidos. Muitos talvez também tenham concluído que sua opinião é valiosa demais para ser oferecida a quem não sabe reconhecê-la.
Autoria

Ester Ribeiro
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