Cuidar de pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas é, hoje, um dos territórios mais complexos, e também mais humanos, da prática médica. Longe de protocolos lineares, esse campo exige do profissional uma combinação rara de conhecimento técnico, escuta qualificada e capacidade de lidar com vulnerabilidades profundas, muitas vezes invisíveis nos manuais.
Na linha de frente desse cuidado estão os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), especialmente na modalidade III, que funciona 24 horas e acolhe casos de maior gravidade. É nesse cenário que a prática médica se amplia: deixa de ser apenas clínica e passa a ser também social, ética e profundamente relacional.
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O que faz o médico no CAPS AD III
Na prática, o médico que atua em um CAPS AD III desempenha funções que vão muito além da prescrição medicamentosa. Embora essa seja uma atribuição central, o cuidado envolve também a avaliação clínica global de pacientes frequentemente marcados por múltiplas vulnerabilidades.
“Muitas vezes, esses pacientes chegam com a saúde física negligenciada, como hipertensão, diabetes, dislipidemia, não por falta de necessidade, mas por barreiras de acesso e exclusão social”, explica o psiquiatra Dr. Lucas Nascimento.
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Além do manejo de intoxicações, crises psiquiátricas e comorbidades clínicas, o médico também participa de decisões que envolvem encaminhamentos para emergência, articulação com o SAMU e suporte em situações de maior gravidade.
Outro aspecto relevante é o papel documental e social da prática médica. Laudos, pareceres e relatórios são instrumentos fundamentais para garantir acesso a benefícios sociais, afastamentos do trabalho e inclusão em políticas públicas. “O médico também atua como facilitador de direitos. Muitas dessas conquistas passam, literalmente, pelo ‘carimbo médico’”, destaca.
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Acolhimento: mais do que triagem, uma intervenção terapêutica
O acolhimento é um dos pilares do CAPS e representa, muitas vezes, o primeiro contato do paciente com o sistema de saúde.
Esse processo pode ocorrer por demanda espontânea, encaminhamento de serviços de saúde, assistência social ou até por vias judiciais. Independentemente da origem, o objetivo é compreender a complexidade da relação do indivíduo com as substâncias.
“É fundamental entender qual substância causa mais prejuízo, se o uso é compulsivo, abusivo ou recreativo, e quais impactos isso tem na vida do paciente: familiar, social, laboral”, explica o psiquiatra.
Mais do que coleta de dados, acolher significa criar um ambiente de escuta real. Isso implica abandonar julgamentos e construir um espaço seguro para que o paciente relate sua história com honestidade.
“Não existe tratamento eficaz se o paciente já chega se sentindo julgado. O acolhimento precisa ser um espaço onde ele possa falar sem medo: não é um interrogatório, nem uma abordagem punitiva”, afirma.
Desafios clínicos e emocionais na linha de frente
Trabalhar com dependência química exige lidar com cenários de alta complexidade clínica e social. Rompimentos familiares, perda de vínculos, exclusão social e situações de rua são frequentes.
Nesse contexto, um dos principais desafios é compreender que o objetivo do tratamento nem sempre é a cura, mas a redução de danos e a melhoria da qualidade de vida.
“O CAPS não trabalha com a lógica da onipotência. Não buscamos uma solução idealizada, mas intervenções possíveis, que façam sentido para aquele paciente”, diz Dr. Lucas.
A imprevisibilidade também é parte da rotina. Cada crise tem sua subjetividade, e o manejo exige flexibilidade clínica, capacidade de escuta e articulação com diferentes pontos da rede.
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Formação e perfil profissional
A residência médica em Psiquiatria é considerada o padrão-ouro de formação para atuação no CAPS AD III, principalmente pela diversidade de cenários clínicos. A carga horária média semanal gira em torno de 60 horas, com variação nos plantões e atividades complementares.
“O residente passa por emergência psiquiátrica, enfermarias, CAPS, ambulatórios. São muitas horas por ano de imersão. Isso proporciona uma formação muito mais completa do que outras modalidades”, explica.
No entanto, há outros caminhos possíveis, especialmente para médicos com experiência em saúde mental. Ainda assim, o trabalho exige competências específicas:
- Capacidade de trabalhar em equipe multidisciplinar
- Escuta qualificada e não julgadora
- Flexibilidade diante de cenários complexos
- Compreensão de determinantes sociais da saúde
- Manejo clínico e psiquiátrico integrado
“Talvez o principal seja aprender a trabalhar em equipe e reconhecer que não somos onipotentes”, resume.
CAPS AD III e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
O CAPS AD III é um dos principais dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), articulando-se com serviços de saúde, assistência social, justiça e políticas públicas.
Essa integração permite um cuidado contínuo e territorializado, especialmente para populações em situação de maior vulnerabilidade, como pessoas em situação de rua.
Além do atendimento ambulatorial, o serviço também oferece o chamado acolhimento noturno, uma modalidade intensiva, voluntária, para pacientes em momentos críticos, sem caracterizar internação hospitalar.
Uma escolha profissional transformadora
Para médicos em formação, atuar no CAPS AD III pode representar uma experiência profundamente transformadora, tanto do ponto de vista profissional quanto humano.
“Esse trabalho ensina humildade. A gente aprende a lidar com a própria falibilidade, a trabalhar em equipe e a reduzir nossos julgamentos para conseguir, de fato, cuidar”, afirma o psiquiatra.
Mais do que tratar doenças, o médico passa a atuar na reconstrução de trajetórias. Reinserção social, recuperação de vínculos, acesso a direitos e resgate da dignidade tornam-se parte central do cuidado.
Em um cenário onde a técnica precisa caminhar lado a lado com a escuta e a compreensão social, o CAPS AD III se consolida como um espaço de prática médica ampliada e, para muitos, uma das experiências mais marcantes da carreira.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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