O transtorno por uso de álcool (TUA) é uma condição grave, debilitante e estigmatizante, cuja evolução tipicamente se dá em padrão de surtos e remissões, trazendo amplos impactos negativos sobre a vida do indivíduo e da sociedade.
O diagnóstico de TUA pode ser estabelecido e graduado em conformidade com os critérios do DSM-5, atualizados em 2022, a partir da constatação de dois ou mais entre os elementos da tabela que se segue, desde que presentes por um período mínimo de 12 meses.
Domínios |
Elementos |
Perda do controle
| 1. Beber em quantidade maior ou período superior ao planejado;
2. Tentativas fracassadas de controlar ou interromper o uso; 3. Dispêndio de tempo exagerado para obter, utilizar ou se recuperar do uso do álcool; 4. Fissura, desejo ou urgência de utilização da substância. |
Disfunção social e risco físico
| 5. Falha em cumprir obrigações cotidianas pelo consumo de álcool;
6. Persistência do consumo a despeito da problemas sociais e interpessoais; 7. Redução de atividades sociais, laborais ou de lazer por conta do etilismo; 8. Uso recorrente da álcool em situações de perigo à integridade física; 9. Persistência de consumo apesar de problemas físicos ou psicológicos. |
Dependência fisiológica
| 10. Tolerância ao álcool;
11. Síndrome de abstinência ou manutenção do uso do álcool para evitá-la. |
Interpretação do transtorno |
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A entrevista médica motivacional, despida de julgamentos, é uma intervenção crucial, recomendando-se uma abordagem centrada na pessoa, fomentando a confiança e otimização da relação médico-paciente. Somente dessa forma as informações chave podem ser obtidas com veracidade: a carga etílica; as repercussões negativas no cotidiano, incluindo os aspectos relacionados à família, trabalho e eventuais consequências legais; e somente dessa forma um plano terapêutico individualizado e compartilhado pode ser traçado.
Como quantificar a carga etílica?
Carga etílica (g) =
Volume ingerido (mL) x teor alcoólico da bebida (%) x densidade do álcool (0,8 g/mL).
- Teor alcoólico médio das principais bebidas brasileiras: conhaque (50%), cachaça e gin (40%), vinho (10 a 20%) e cerveja (5%).
A farmacoterapia, tipicamente subutilizada, é uma ferramenta útil na indução e manutenção da abstinência alcoólica entre aqueles indivíduos nas fases de planejamento ou ação (classificação da Prochaska).
Os principais medicamentos utilizados na promoção de abstinência alcoólica incluem:
- Os antagonistas dos receptores opióides μ, tidos como agentes da primeira linha, reduzem a fissura e o consumo de álcool. O principal representante é a naltrexona, iniciada na dose de 25 a 50 mg/dia, podendo alcançar os 100 mg/dia, se necessário. Não há problemas em iniciá-la na vigência da ingestão etílica. Contudo, deve ser evitado o uso concomitante de opioides, bem como na hepatite aguda, aumento das enzimas hepáticas (> 3 a 5 vezes) e insuficiência hepática.
- O acamprosato, um agonista GABA e antagonista do glutamato, somente deve ser iniciado no período de abstinência alcoólica, sendo especialmente útil na presença de contraindicações à naltrexona. A dose habitual é de 666 mg de 8/8h, podendo-se adotar o intervalo posológico de 12/12 horas entre os indivíduos com menos de 60 kg.
- O topiramato, um anticonvulsivante que atua aumentando a atividade GABA A, é considerado um tratamento de segunda linha, a ser considerado após a naltrexona e acamprosato, sobretudo entre os indivíduos portadores de epilepsia. As doses iniciais é 25 mg/dia, com incremento semanal de 25 a 50 mg, até a dose máxima de 100 a 150 mg de 12/12h. O aumento gradual de dose tem como propósito amenizar os efeitos colaterais, como a alcalose metabólica, parestesias e embotamento cognitivo.
- A gabapentina atua como agonista do receptor GABA A e, à semelhança do topiramato, também é considerada um agente de segunda linha, especialmente pelo risco de uso abusivo. A dose inicial é de 300 mg, com aumento de 300 mg a cada 2 dias, tendo-se como alvo terapêutico a dose de 900 mg de 12/12h.
- O dissulfiram é um inibidor da acetaldeído desidrogenase, uma enzima importante na oxidação do álcool. O fármaco precipita reações adversas após o consumo de álcool, incluindo rubor facial, náuseas, taquicardia, sudorese, hipotensão e síncope. A dose habitual é de 200 mg/dia, mas nunca deve ser administrado na intoxicação alcoólica (exige-se ao menos 12 horas de abstenção) e sem o conhecimento e concordância do paciente. É considerado um tratamento de segunda linha, sendo especialmente indicado na intolerância às outras terapias ou quando for a preferência do indivíduo.
- O baclofeno é um relaxante muscular agonista do receptor GABA B. Os resultados no TUA são conflitantes na literatura, existindo preocupação quanto aos seus efeitos sedativos, risco de abuso e overdose. A dose inicial é de 5 mg de 8/8 horas, com possibilidade de incremento, em 3 a 5 dias, para 10 a 20 mg de 8/8h.
Qual a segurança da farmacoterapia na doença hepática crônica avançada?
- O dissulfiram é contraindicado;
- A naltrexona, acamprosato e topiramato são opções na hepatopatia inicial (Child-Pugh A), mas devem ser evitados na avançada (Child-Pugh C);
- O baclofeno tem um perfil de segurança aceitável na doença hepática crônica.
Outros fármacos encontram-se em investigação, como os análogos de GLP-1, canabinóides e agentes psicodélicos, como a psilocibina e 3,4-metilenodioximetanfetamina, embora não sejam recomendados fora do cenário da pesquisa clínica.
Os benzodiazepínicos, fundamentais no tratamento da síndrome de abstinência alcoólica, devem ser reservados para o curto prazo, tendo em vista os efeitos sedativos e sinérgicos com o álcool, bem como o potencial para abuso.
A preferência é pelo uso de medicamentos de meia-vida longa, como o diazepam ou clordiazepóxido. Entretanto, na presença de doença hepática crônica avançada, sobretudo em casos evoluindo para encefalopatia hepática, as melhores opções são o lorazepam e o oxazepam.
Os antidepressivos e ansiolíticos, embora não tenham indicação específica para o TUA, desempenham papel importante no manejo das comorbidades psiquiátricas.
Leia mais: Alcoolismo: nova diretriz indica melhor tratamento medicamentoso
Conclusão e Mensagens práticas
- O transtorno por uso de álcool é comum, debilitante e estigmatizante.
- O tratamento farmacológico, apesar de eficaz, é subutilizado, privando os pacientes em fase de planejamento ou ação de ferramentas que realmente podem ampliar as chances de abstinência alcoólica em longo prazo.
- A terapia de primeira linha inclui a naltrexona e acamprosato. Na segunda linha de tratamento encontram-se a gabapentina, topiramato e dissulfiram.
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