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Carreira18 junho 2026

Condições ginecológicas que o estudante de medicina deve saber no internato

Quais condições ginecológicas o estudante de medicina precisa reconhecer antes do CRM? Veja queixas, sinais de alerta e decisões clínicas essenciais

Não adianta tentar fugir: mesmo que você queira ser neurocirurgião ou dermatologista, a ginecologia vai bater à sua porta nos primeiros plantões. Independentemente da especialidade escolhida, o cuidado com a saúde da mulher fará parte da rotina assim que o médico pegar o CRM. Por isso, reconhecer, avaliar e encaminhar adequadamente uma paciente com queixa ginecológica é uma competência básica no início da carreira médica.

Na prática, o médico generalista é quem costuma realizar os primeiros atendimentos de pacientes com queixas como endometriose, corrimentos ou sangramentos que preocupam a paciente, seja em consultórios, clínicas ou emergências.

Mais do que decorar protocolos, o estudante de medicina precisa concluir a formação dominando o acolhimento na anamnese e a técnica adequada do exame físico, para diferenciar o que é urgência e exige intervenção imediata do que pode ser conduzido na rotina.

A seguir, estão algumas abordagens clínicas e condições ginecológicas que o estudante de medicina deve conhecer ao começar a atuar, conforme artigo de revisão de Atiomo, Stanley e Ezimokhai (2023) sobre uma proposta de estrutura para um currículo básico em obstetrícia e ginecologia para estudantes de medicina.

Abordagem clínica em ginecologia

Partindo dos conhecimentos e competências básicas para a abordagem clínica, o estudante de medicina deve conseguir, dentro da área da ginecologia:

  • Fazer anamnese ginecológica completa;
  • Fazer exame físico geral e ginecológico;
  • Realizar exame especular e toque vaginal;
  • Saber abordar temas sensíveis, como sexualidade, violência e contracepção.

Principais condições ginecológicas na formação médica

O objetivo do conhecimento dessas condições ginecológicas não é o domínio técnico aprofundado pelo estudante ainda em formação, mas a capacidade de identificar o que é urgente, o que pode ser manejado ambulatorialmente e quando encaminhar a paciente ao especialista.

Sangramento uterino anormal

O sangramento uterino anormal acontece quando há alterações no volume, na duração ou na frequência da menstruação. É uma queixa ginecológica comum em consultórios e pronto-atendimentos, afetando entre 9% e 14% das mulheres, com estudos apontando prevalência de até 40% ao longo da vida.

Para não se perder no diagnóstico entre tantas causas possíveis de sangramento uterino anormal, a abordagem do futuro médico pode se apoiar no acrônimo PALM-COEIN, que organiza as causas em estruturais, como pólipo, adenomiose, leiomioma e malignidade, e não estruturais, como coagulopatia, disfunção ovulatória, endometrial, iatrogênica e não classificada.

O tratamento tem o objetivo de promover estabilidade hemodinâmica e retorno ao padrão de ciclos menstruais normais. A conduta depende da etiologia, mas as possibilidades terapêuticas normalmente envolvem contraceptivos hormonais combinados, progesterona isolada, sistema intrauterino liberador de levonorgestrel, agonista do GnRH ou tratamentos cirúrgicos.

Saiba mais em: Sangramento uterino anormal, Sangramento uterino anormal – Tratamento e Caso Clínico: Sangramento uterino anormal.

Dor pélvica aguda e crônica

Saber manejar a dor pélvica é básico para o novo médico, já que ela afeta mais de um terço das mulheres em idade reprodutiva. Ela é definida como desconforto na parte inferior do abdômen e, na prática, é dividida em dois grandes grupos.

A dor pélvica aguda refere-se à dor de início súbito abaixo da cicatriz umbilical, com duração de alguns dias, podendo ser acompanhada de sintomas como náuseas, vômitos, sudorese e agitação, em virtude da resposta reflexa autonômica.

A dor pélvica crônica é a dor pélvica não menstrual ou não cíclica com duração de pelo menos 6 meses.

Em ambos os casos, o raciocínio deve ser amplo. Antes de fechar o diagnóstico, vale checar se a causa não está no sistema urinário, no trato gastrointestinal ou na musculatura pélvica. Nem toda dor nessa região é, necessariamente, ginecológica. Excluir gravidez também é uma etapa crítica, pois as causas e o manejo da dor pélvica em gestantes são diferentes.

Saiba mais em: Revisão destaca abordagem integrada e centrada na paciente com dor pélvica crônica e CBCM 2025: Dor abdominal aguda na emergência

Infecções ginecológicas

Nas queixas de corrimento no dia a dia do consultório, a vaginose bacteriana é a causa mais comum em mulheres em idade reprodutiva, responsável por 40% a 50% dos casos.

Nessas situações, o médico precisa estar atento para diferenciar as infecções do trato genital inferior, incluindo candidíase, tricomoníase e clamídia. Também deve reconhecer rapidamente situações de doença inflamatória pélvica, condição associada a complicações reprodutivas quando não tratada a tempo.

Saiba mais em: Corrimento vaginal esverdeado, acinzentado, bolhoso e espumoso: o que indicam? e Doença inflamatória pélvica – uma condição ainda subdiagnosticada e subtratada

Endometriose e suspeita clínica

Definida pela presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina, a endometriose acomete principalmente mulheres em idade reprodutiva, incluindo adolescentes, com prevalência estimada em 5% a 10%.

A apresentação dos sintomas é variável, com dor pélvica, dismenorreia intensa, dispareunia, infertilidade e sintomas urinários ou gastrointestinais.

O reconhecimento da suspeita clínica, mesmo sem confirmação histológica, é uma competência esperada do médico generalista, porque o diagnóstico precoce reduz o impacto na qualidade de vida e na capacidade reprodutiva. O tratamento deve ser avaliado de forma individual, de acordo com o desejo reprodutivo e as queixas da paciente.

Saiba mais em: Diretriz sobre endometriose: já podemos “bater o martelo” com base na clínica?

Miomas uterinos

Os miomas uterinos são os tumores pélvicos benignos mais comuns em mulheres em idade reprodutiva. Normalmente assintomáticos e descobertos como achado em ultrassonografia, exigem atenção quando sua localização passa a causar problemas, como sangramento uterino anormal ou pressão na região pélvica.

Os mecanismos fisiopatológicos ainda não estão completamente esclarecidos. Cabe ao médico saber reconhecer os casos que requerem seguimento e diferenciá-los daqueles que demandam encaminhamento especializado.

Saiba mais em: Miomas Uterinos

Climatério e menopausa

O climatério não é um evento isolado, mas uma fase de transição em que o corpo começa a sentir a queda na produção dos hormônios ovarianos. Já a menopausa é definida após 12 meses consecutivos de amenorreia.

Os principais problemas de saúde na menopausa estão relacionados à deficiência de estrogênio, como sintomas vasomotores, incluindo fogachos e sudorese noturna, atrofia urogenital, osteoporose e doenças cardiovasculares a longo prazo.

Saiba mais em: Menopausa e propedêutica e Manejo dos sintomas da menopausa

A abordagem médica deve incluir perda de peso, cessação do tabagismo, exercício físico e, quando possível, terapia estrogênica.

Autoria

Foto de Juliana Karpinski

Juliana Karpinski

Editora-assistente médica na Afya. Médica e Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com MBA em Gestão Estratégica pela mesma instituição (2022).

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Referências bibliográficas

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