A relação entre Tirzepatida e fibrilação atrial ganhou relevância à medida que o agonista duplo GIP/GLP-1 se consolidou no tratamento do excesso de peso. Uma metanálise publicada no Journal of the American Heart Association reuniu ensaios clínicos randomizados para estimar o risco de fibrilação atrial e de outras arritmias em adultos com sobrepeso ou obesidade tratados com o fármaco, em comparação ao placebo.
Por que avaliar a segurança arrítmica da Tirzepatida?
A obesidade é um fator de risco estabelecido para doença cardiovascular, incluindo a fibrilação atrial (FA). O excesso de tecido adiposo está associado a inflamação sistêmica e remodelamento cardíaco, processos que podem favorecer a arritmia. Os agonistas do receptor de GLP-1 mostraram eficácia na perda de peso e na redução do risco cardiovascular, mas persiste a preocupação com possíveis efeitos arritmogênicos, já que esse receptor é expresso no nó sinoatrial e em cardiomiócitos ventriculares.
As evidências dentro da classe são heterogêneas.
Estudos anteriores sugerem possíveis diferenças entre os fármacos quanto aos desfechos arrítmicos, mas esses achados não permitem estabelecer um efeito uniforme para toda a classe.
A Tirzepatida, que atua como agonista duplo, promove perda de peso entre 16% e 25% em pessoas com e sem diabetes. Metanálises anteriores não encontraram diferença na incidência de FA, porém se limitaram a comparadores ativos, como insulina, e a pacientes com diabetes. A publicação de novos estudos em populações com excesso de peso motivou esta atualização.
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Pesquisadores reuniram ensaios clínicos randomizados contra placebo
Trata-se de revisão sistemática com metanálise, com protocolo registrado prospectivamente no PROSPERO e conduzida segundo as recomendações Cochrane e PRISMA. As bases PubMed, Embase e Cochrane Library foram pesquisadas desde o início até junho de 2026, sem restrição de idioma ou data. Foram elegíveis estudos randomizados que compararam Tirzepatida a placebo em indivíduos com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 25 kg/m² (sobrepeso) ou 30 kg/m² (obesidade) e que relataram algum desfecho de eficácia ou segurança.
Os desfechos de interesse foram a incidência de qualquer arritmia, de arritmias atriais e de FA. Pela baixa frequência de eventos, os autores usaram um modelo hierárquico bayesiano binomial-normal, adequado a dados esparsos, com resultados expressos em odds ratio (OR) e intervalo de credibilidade de 95% (ICr95%). Nos ensaios com mais de uma dose, os braços de Tirzepatida foram combinados em um único grupo. O risco de viés foi avaliado pela ferramenta Cochrane e a certeza da evidência, pelo sistema GRADE.
Foram incluídos dez ensaios, todos multicêntricos, com 6.515 participantes, dos quais 4.491 (68,9%) receberam Tirzepatida. A média de idade foi de 51 anos, 53% eram mulheres e o IMC médio variou de 30 a 39 kg/m². A maioria dos estudos teve seguimento entre 40 e 72 semanas. Nos estudos que relataram essas características, 42% tinham diabetes, 36% apresentavam hemoglobina glicada acima de 7% e 32% tinham taxa de filtração glomerular abaixo de 90 mL/min/1,73 m². A detecção de arritmias se baseou, na maior parte dos casos, em eletrocardiogramas de 12 derivações programados em visitas predefinidas.

Análise não demonstra associação clara com fibrilação atrial
Para FA, avaliada em quatro estudos, o OR foi de 2,20 (ICr95% 0,81–6,75). O intervalo de credibilidade incluiu 1, sem demonstrar associação clara, mas sua amplitude impede excluir aumento clinicamente relevante das chances de FA.
O evento ocorreu em 0,8% dos pacientes com Tirzepatida (26/3.251) e em 0,8% dos que receberam placebo (12/1.452).
Para arritmias atriais, avaliadas em sete estudos, o OR foi de 2,16 (ICr95% 0,90–5,87), também sem evidência conclusiva de associação, com proporções agregadas de eventos de 0,8% em ambos os grupos.
Análise aponta sinal exploratório de aumento de qualquer arritmia
No desfecho que agrupou qualquer arritmia, presente nos dez ensaios, o OR foi de 1,84 (ICr95% 1,04-3,90), indicando maior chance de eventos com Tirzepatida. As taxas absolutas, contudo, foram baixas, de 1,2% em ambos os grupos (53/4.491 e 25/2.024). Essas proporções correspondem às contagens agregadas e têm finalidade descritiva. O OR resulta da metanálise bayesiana de efeitos aleatórios, considerando as comparações dentro de cada ensaio, e não da comparação direta entre os totais agrupados. Como os eventos foram raros e as arritmias não eram desfechos pré-especificados na maioria dos estudos, o achado deve ser considerado exploratório.
Seis estudos tiveram baixo risco de viés e quatro apresentaram algumas preocupações. A inspeção do gráfico de funil não sugeriu viés de publicação, embora o pequeno número de estudos limite essa avaliação.
A certeza da evidência foi considerada moderada para FA e para todas as arritmias. O rebaixamento ocorreu porque as arritmias foram registradas como eventos adversos, e não como desfechos pré-especificados, além do pequeno número de eventos e da amplitude dos intervalos. Grande parte dos eventos de FA veio de populações de maior risco, como o estudo SUMMIT, com indivíduos mais velhos e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.
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Os dados sobre incidência de FA seguem inconclusivos
As limitações pesam na interpretação. A ausência de monitorização sistemática pode ter levado à subdetecção de eventos assintomáticos, e as definições de arritmia variaram entre os estudos.
Seguimentos curtos podem ter deixado de captar eventos tardios, e preditores relevantes, como fração de ejeção, dimensões do átrio esquerdo e valvopatias, não foram relatados sistematicamente.
Não houve análises de subgrupos por idade, sexo ou duração do estudo. Por isso, a ausência de associação não deve ser lida como prova de ausência de efeito, e tanto um aumento do risco arrítmico quanto um efeito próximo de zero permanecem possíveis.
Para o médico, a mensagem é que os dados atuais não demonstram associação clara entre Tirzepatida e fibrilação atrial em pacientes com sobrepeso ou obesidade, mas a imprecisão das estimativas impede excluir aumento do risco. O sinal de maior chance de arritmias em geral é exploratório e deve ser interpretado considerando o pequeno número de eventos e as limitações de sua detecção. A decisão terapêutica deve considerar os benefícios estabelecidos e o perfil clínico individual. Estudos dedicados, como o TIRO-AF, que envolve pacientes com obesidade e FA já estabelecida, poderão esclarecer os efeitos da Tirzepatida nessa população. Para avaliar o risco de FA incidente, permanecem necessários ensaios com monitorização sistemática e desfechos arrítmicos pré-especificados.
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Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Juliana Avelar
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.
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