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Cardiologia20 maio 2024

Infecção urinária e inibidores do SGLT2 (iSGLT2)

Os inibidores de SGLT2 (iSGLT2) induzem a excreção da glicose na urina de forma sustentada a 40 a 80g/dia.
Por Isabela Abud Manta

Os inibidores do cotransportador-2 de sódio e glicose (iSGLT2) são cada vez mais usados por pacientes com diabetes mellitus (DM) tipo 2 ou com insuficiência cardíaca (IC), tanto com fração de ejeção reduzida (ICFER) quanto preservada (ICFEP). 

Um dos efeitos colaterais dessa classe é a ocorrência de infecções do trato gênito-urinário (ITU), que pode se tornar uma barreira para o uso crônico, apesar das recomendações das diretrizes. 

Recentemente foi publicada uma revisão sobre o assunto. Abaixo seguem os principais pontos abordados.  

Veja também: Balão intra-aórtico (BIA): dispositivo para choque cardiogênico

Mulher em uso de iSGLT2 sentada na cama com dores no abdome devido à infecção urinária

Mecanismos de ação e efeitos adversos 

O SGLT2 reabsorve a maior parte da glicose filtrada no túbulo proximal, prevenindo a glicosuria e os iSGLT2 induzem a excreção da glicose na urina de forma sustentada (40 a 80g/dia). Em pacientes com DM, essa excreção aumenta ainda mais, a depender da sua concentração sérica.  

Um outro efeito é a natriurese transitória e o aumento do sódio na mácula densa, no néfron distal, gera feedback negativo nas arteríolas glomerulares aferentes, com constrição e redução do fluxo sanguíneo glomerular, que gera redução da pressão e da filtração intraglomerular. Isso leva a menor dano renal, já que hiperfiltração gera inflamação e fibrose.  

Existem ainda efeitos protetores cardiorrenais que atuam por outros mecanismos: ação direta nos cardiomiócitos, via inibição do trocador de sódio e hidrogênio, aumento da produção energética priorizando a cetogênese e aumento da função mitocondrial, melhora da função endotelial e inibição do sistema nervoso simpático, além de propriedades anti-inflamatórias.  

A glicosúria induzida pela medicação pode favorecer o crescimento de microorganismos e facilitar a ocorrência de ITU, além de ter efeito na indução de virulência da Escherichia coli, patógeno comum do trato gênito-urinário. Já a causa mais comum de infeção genital é a infecção pela Candida albicans e a glicose é um dos fatores que influenciam no seu crescimento.  

Benefício dos iSGTL2 

DM: eficácia intermediária a alta no efeito hipoglicemiante. Auxilia no controle da DM e reduz risco cardiovascular e renal, independente do controle glicêmico. 

IC: melhora desfechos em pacientes com IC, reduzindo mortalidade e internações por IC. Os estudos avaliaram o uso de dapagliflozina e empagliflozina e os benefícios ocorreram independente da presença de DM. Assim, tem classe I de recomendação para pacientes com ICFER (≤ 40%), IC limítrofe (41-49%) e ICFEP (≥ 50%) pela diretriz europeia e classe I para ICFER e IIa para IC limítrofe e ICFEP pela diretriz americana, porém esta foi publicada antes do grande estudo DELIVER, que avaliou ICFEP.  

Doença renal: o início da medicação leva à queda transitória da taxa de filtração glomerular (TFG), sem associação com perda de função renal progressiva e geralmente seguida de um declínio menor da função renal ao longo do tempo, independente da presença de DM. Assim, é recomendada quando há DM2 e doença renal crônica (DRC) quando a TFG é ≥ 20ml/min/1,73m2. Também há benefício na DRC com proteinúria, mesmo na ausência de DM, porém essa indicação ainda não foi incorporada às diretrizes atuais.  

Infecções associadas ao iSGLT2 

Desde a aprovação da medicação foram feitos alertas em relação a ocorrência de ITU grave (uro-sepse e pielonefrite) e fasceíte necrotizante do períneo (síndrome de Fournier). 

ITU 

A incidência de ITU variou nos ensaios clínicos e não houve diferença em relação ao grupo placebo na maioria deles, exceto no VERTIS CV, que avaliou ertugliflozina em pacientes com doença vascular, e no EMPEROR-Preserved, que avaliou emplagliflozina em pacientes com ICFEP.  

Uma metanálise com 72 estudos pequenos não mostrou maior risco de ITU nos pacientes que usaram iSGLT2 e outra mais recente, que avaliou pacientes sem DM, mostrou maior risco de ITU com a medicação. A ocorrência de infecções complicadas também variou entre os estudos, principalmente pela variação na sua definição.  

Em estudos observacionais, a incidência de ITU foi de aproximadamente 1,9% e as análises não mostraram relação com ISGLT2 quando comparado a inibidores de DPP-4 ou análogos de GLP-1. Interessante que o risco dessa infecção parece maior nas primeiras 2 semanas de tratamento. 

Infecção genital micótica 

Esse tipo de infecção é mais comum em pacientes que usam ISGLT2, principalmente mulheres. A incidência nos ensaios clínicos variou de 0,8% a 6,4% no grupo tratamento e 0,8% a 1,8% no grupo placebo.

Uma metanálise mostrou maior ocorrência no grupo tratamento, com RR de 3,37 e o mesmo resultado foi encontrado em pacientes sem DM. Estudos observacionais também mostraram maior ocorrência em pacientes com iSGLT2 comparado a inibidor de DPP4.  

Síndrome de Fournier 

É infecção rara, mas letal, decorrente da infecção de tecidos superficiais e profundos da região genital e perineal. Os estudos não mostraram aumento em pacientes que usaram a medicação comparado a placebo ou agonistas do GLP-1 e a associação com iSGLT2 não pode ser confirmada.   

Fatores de risco para infecções associadas a iSGLT2 

Um dos fatores de risco é o próprio DM, assim como seu mal controle. Os pacientes com DM tiveram maior ocorrência que os pacientes que utilizam a medicação por IC ou DRC. Além disso, a combinação com inibidor de DPP-4, estatinas, bloqueador do receptor de angiotensina II e bloqueador de canal de cálcio parece aumentar o risco. Outros fatores de risco são idade ≥ 65 anos, TFG ≤ 60 e proteinúria.  

Fatores de risco para infecção genital micótica 

O DM, sua duração e mal controle glicêmico são fatores de risco. Outros fatores são uso concomitante de sulfonilureia ou insulina, obesidade, principalmente em mulheres, pós-menopausa e, nos homens, circuncisão é associado a menor risco.  

Implicações clínicas 

O benefício da medicação é muito maior que o risco da infecção, mesmo em quem tem fatores de risco e é importante ressaltar que história de infecção não é contraindicação ao uso dos iSGLT2. 

A presença dos fatores de risco deve ser um alerta para maior ênfase nas medidas de prevenção, como orientações sobre seu risco, sinais e sintomas que podem surgir e manutenção de boa higiene perineal.  

Não há indicação de profilaxia antimicrobiana ou de coleta de cultura de urina antes do início do tratamento e caso ocorra ITU ou infecção genital micótica, não há recomendação de suspender a medicação, já que seus benefícios se mantêm. A suspensão temporária pode ser considerada em caso de infecção ameaçadora à vida e deve ser reiniciada na maioria dos casos, porém o momento ideal não é definido.   

Leia mais: Como utilizar antiplaquetários e anticoagulantes na síndrome coronariana aguda

Comentários e conclusão 

Os dados sobre infecção são limitados, principalmente em pacientes sem diabetes, mas parece que a ocorrência de infecção genital micótica ocorre mais em pacientes em uso de iSGLT2. ITU e Fournier não parecem ocorrer com maior frequência.  

Ainda, se a infecção se comporta de forma diferente na população que usa iSGLT2 comparado à população em geral não é sabido e mais estudos são necessários para esclarecimento.  

O risco de suspender a medicação é maior que o risco das infecções e essa deve ser mantida, mesmo em vigência de infecção. 

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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