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Cardiologia1 outubro 2026

DAPT ultracurta reduz sangramento após angioplastia na SCA

Metanálise de ensaios randomizados mostra que o efeito da DAPT ultracurta varia conforme etnia, apresentação clínica e monoterapia subsequente.
Por Ivson Braga

A duração ideal da dupla antiagregação plaquetária após angioplastia em pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) segue em debate. A estratégia de DAPT ultracurta, com até um mês de aspirina associada a um inibidor de P2Y12, seguida de monoterapia antiplaquetária, ganhou espaço, mas sua eficácia e segurança ainda eram incertas nesse grupo. Uma metanálise publicada no JACC: Cardiovascular Interventions avaliou se encurtar a terapia antiplaquetária dupla preserva a proteção isquêmica ao mesmo tempo em que reduz sangramentos.

A combinação de aspirina e inibidor de P2Y12 por 12 meses foi, por muito tempo, a base da prevenção isquêmica após intervenção coronária percutânea (ICP) na SCA. Stents de nova geração e o reconhecimento do impacto prognóstico do sangramento levaram à adoção de regimes mais curtos, já endossados por diretrizes para pacientes com alto risco hemorrágico. Os autores também investigaram se a etnia e a estratégia utilizada para abreviar a DAPT, considerando sua duração e o antiplaquetário mantido em monoterapia, modificavam o balanço entre eventos isquêmicos e hemorrágicos.

 

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Ensaios randomizados em síndrome coronariana aguda são a base da metanálise

Trata-se de revisão sistemática com metanálise de ensaios randomizados, registrada no PROSPERO, com buscas em PubMed, Embase e Cochrane CENTRAL até fevereiro de 2026. Foram elegíveis estudos com adultos com SCA submetidos a ICP que comparassem DAPT ultracurta, de até um mês, seguida de monoterapia, com DAPT padrão de 6 a 12 meses, com seguimento de 12 meses. Excluíram-se estudos restritos à doença coronariana estável ou sem ICP.

Os desfechos primários foram eventos cardiovasculares e cerebrovasculares maiores (MACCE), sangramento maior e eventos clínicos adversos líquidos (NACE), composto que, em geral, somou MACCE a sangramento maior ou clinicamente relevante. Os secundários incluíram mortalidade, AVC, infarto, trombose de stent e revascularização do vaso-alvo, com sangramentos classificados preferencialmente pelos critérios BARC.

As análises de subgrupo pré-especificadas avaliaram a etnia (Leste Asiático versus não Leste Asiático) e a intensidade da abreviação. A estratégia intensiva incluiu DAPT de até uma semana ou transição para clopidogrel ou aspirina em monoterapia após um mês; a moderada, DAPT de ao menos duas semanas seguida de ticagrelor ou prasugrel. Uma análise post hoc comparou IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST) e SCA sem supradesnivelamento (SCASSST).

 

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Sangramento maior cai pela metade com a estratégia abreviada

Dez ensaios, com 29.232 pacientes, foram incluídos; nenhum apresentou alto risco de viés. A DAPT ultracurta não aumentou MACCE (HR 1,06; IC 95% 0,93-1,20; p = 0,38) e reduziu o sangramento maior em 53% (HR 0,47; IC 95% 0,35-0,64; p < 0,00001), resultando em benefício clínico líquido (NACE: HR 0,83; IC 95% 0,72-0,97; p = 0,02).

Não houve diferença em mortalidade por todas as causas (HR 1,00; IC 95% 0,81-1,25), mortalidade cardiovascular, AVC ou revascularização do vaso-alvo. Observou-se tendência não significativa de mais infarto (HR 1,18; IC 95% 0,98-1,42; p = 0,08) e trombose de stent (HR 1,37; IC 95% 0,94-1,99; p = 0,10). Sangramentos clinicamente relevantes também diminuíram (HR 0,53; IC 95% 0,41-0,70).

A redução do sangramento maior foi mais acentuada em pacientes do Leste Asiático (HR 0,35; IC 95% 0,25-0,49) do que nos demais (HR 0,63; IC 95% 0,43-0,93), com interação significativa (p = 0,02). O MACCE não diferiu entre os grupos étnicos. Em metarregressão exploratória, maior idade média associou-se ao risco de sangramento maior (p = 0,041).

 

O infarto com supradesnivelamento do segmento ST altera o benefício?

No IAMCSST, a DAPT ultracurta associou-se a mais MACCE (HR 1,41; IC 95% 1,04-1,91; p = 0,03), sem diferença na SCASSST (HR 1,00; IC 95% 0,74-1,35; p = 0,99). A interação entre subgrupos, porém, não foi significativa (p = 0,11). O sangramento clinicamente relevante caiu em ambos, com redução relativa maior no IAMCSST (HR 0,35; IC 95% 0,25-0,50 versus HR 0,57; IC 95% 0,43-0,76; p para interação = 0,03). Os autores atribuem o sinal à maior carga trombótica do IAMCSST e o consideram gerador de hipóteses.

A forma de abreviar a DAPT modifica o risco isquêmico

A estratégia de abreviação modificou significativamente o MACCE (p para interação = 0,003). A abreviação intensiva elevou o risco (HR 1,37; IC 95% 1,11-1,69; p = 0,003), com mais infarto (HR 1,50; IC 95% 1,06-2,11), trombose de stent (HR 2,17; IC 95% 1,08-4,37) e revascularização do vaso-alvo (HR 1,67; IC 95% 1,19-2,34). Já a abreviação moderada não aumentou MACCE (HR 0,96; IC 95% 0,85-1,08; p = 0,47) e reduziu o NACE (HR 0,73; IC 95% 0,59-0,90; p = 0,003). A redução de sangramento maior foi consistente entre as estratégias (p para interação = 0,72).

 

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O tipo de monoterapia após a DAPT parece influenciar o balanço entre isquemia e sangramento

Na SCA tratada com angioplastia, os dados indicam que cerca de um mês de DAPT seguido de monoterapia com ticagrelor ou prasugrel parece oferecer o equilíbrio mais favorável entre proteção isquêmica e sangramento. Suspender a aspirina na primeira semana ou migrar precocemente para clopidogrel ou aspirina isolados pode resultar em proteção isquêmica insuficiente no período inicial após a ICP. No IAMCSST, a opção pela DAPT ultracurta exige mais cautela, diante do sinal de maior risco residual.

No contexto brasileiro, vale notar que o NEO-MINDSET, único ensaio conduzido no país, combinou suspensão muito precoce da aspirina com inibidor de P2Y12 potente e foi classificado no grupo de abreviação intensiva. Como o estudo combinava a retirada muito precoce da aspirina com a manutenção de um inibidor de P2Y12 potente, os autores realizaram análise de sensibilidade tratando-o separadamente; os resultados gerais permaneceram consistentes. Entre as limitações estão dados agregados de subgrupos, heterogeneidade de esquemas, predomínio de homens e incapacidade de avaliar adequadamente pacientes com alto risco hemorrágico e submetidos a ICP complexa. A individualização permanece essencial, e futuras diretrizes poderão considerar, em conjunto, o tipo de SCA, a duração da dupla antiagregação plaquetária e a potência da monoterapia subsequente.

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Ivson Braga

Ivson Braga

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.

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