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Terapia Intensiva5 outubro 2026

Trombocitopenia induzida por heparina no suporte circulatório mecânico

Trombocitopenia induzida por heparina em suporte circulatório mecânico exige diferenciação de outras causas de queda plaquetária.
Por Leandro Lima

O suporte circulatório mecânico é frequentemente utilizado em pacientes com choque cardiogênico ou insuficiência cardíaca avançada e, muitas vezes, exige anticoagulação para prevenir trombose relacionada ao dispositivo.

Nesse cenário, o uso de anticoagulantes é rotineiro para a profilaxia de eventos trombóticos relacionados ao dispositivo e ao paciente. Entretanto, reconhecer a trombocitopenia induzida por heparina (HIT), uma complicação imunomediada e potencialmente pró-trombótica, é desafiador nesse contexto, pois a própria interação do sangue com os dispositivos pode reduzir a contagem plaquetária.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada no Research and Practice in Thrombosis and Haemostasis avaliou a frequência de HIT e os desfechos associados nessa população.

Suporte circulatório mecânico aumenta a complexidade do diagnóstico de HIT

Trombocitopenia de qualquer causa ocorre em aproximadamente 70% dos pacientes com Impella® e em 40%–80% daqueles expostos ao balão intra-aórtico. Esses números não representam a frequência de HIT, pois incluem consumo e lesão mecânica das plaquetas por cisalhamento.

Entre pacientes expostos à heparina, a incidência de HIT varia de 0,1% a 5%, reforçando a importância de distinguir uma queda plaquetária relacionada ao suporte mecânico de uma complicação imunológica específica associada ao risco de trombose.

 

Saiba mais: Trombocitopenia induzida por heparina: como diagnosticar e tratar? 

Metanálise reúne dados de Impella, balão intra-aórtico e assistência ventricular

A pergunta clínica foi: em pacientes submetidos a suporte circulatório mecânico com Impella®, balão intra-aórtico ou dispositivos de assistência ventricular esquerda, qual é a frequência de HIT, trombose e mortalidade? Não houve comparador obrigatório, pois se tratou de uma metanálise de proporções, ou seja, avaliou-se a frequência de HIT em vários estudos para produzir uma estimativa agrupada, sem estabelecimento de causalidade.

A busca incluiu MEDLINE e Embase até janeiro de 2025, com restrição a publicações em inglês e seleção independente por dois revisores.

Foram excluídos relatos e séries de casos, coortes com menos de dez pacientes, estudos com estimativas de HIT apenas entre pacientes já trombocitopênicos e estudos envolvendo ECMO. Dos 575 registros identificados, 438 foram triados, 31 avaliados integralmente e 17 incluídos, reunindo 2.302 pacientes.

Quinze estudos eram retrospectivos observacionais, um era prospectivo observacional e um, prospectivo experimental não randomizado.

 

Leia também: Diretrizes para manejo de dispositivos de assistência ventricular de curta duração

 

Trombocitopenia induzida por heparina concentra risco trombótico elevado

A frequência agrupada de HIT foi de 7% (IC 95% 4%–10%), com heterogeneidade elevada entre os estudos (I² = 80,7%), valor superior ao tradicionalmente descrito no cenário da cirurgia cardíaca.

As estimativas de HIT foram de 6% para Impella (IC 95% 3%–12%), 8% para dispositivos de assistência ventricular esquerda (IC 95% 3%–18%) e 7% para balão intra-aórtico (IC 95% 0%–54%), não sendo possível estabelecer qual dispositivo apresenta maior risco.

Entre os pacientes diagnosticados com HIT, a proporção de eventos trombóticos foi de 42% (IC 95% 21%–67%), com base em oito estudos e 106 pacientes, enquanto a mortalidade por todas as causas foi de 41% (IC 95% 29%–55%), com base em seis estudos e 90 pacientes. Apenas um estudo informou dados sobre sangramento, impedindo sua síntese quantitativa.

Na análise exploratória, após a exclusão de três estudos que contribuíam para a heterogeneidade, a estimativa de HIT caiu para 5% (IC 95% 4%–7%; I² = 34,9%).

Critérios diagnósticos variados limitam a confiança nos resultados

A principal fragilidade da metanálise é a variabilidade dos critérios diagnósticos nos estudos incluídos. Apenas oito dos 17 estudos descreveram a definição de HIT, e somente quatro relataram o uso do teste de liberação de serotonina, uma prova funcional que avalia se os anticorpos anti-PF4 são capazes de produzir ativação plaquetária dependente de heparina.

A ausência de confirmação funcional uniforme permite a classificação equivocada de casos soropositivos sem HIT clínica.

Outro aspecto é que houve assimetria no gráfico de funil e teste de Egger significativo (p = 0,0128), sugerindo efeitos de pequenos estudos ou possível viés de publicação.

O predomínio de estudos retrospectivos, a inclusão de diferentes gerações de dispositivos e a ausência de registro prospectivo do protocolo limitam a precisão e a aplicabilidade contemporânea dos resultados.

Vale ressaltar que a mortalidade observada entre os casos de HIT não equivale à mortalidade atribuível à HIT, pois não houve comparação ajustada capaz de separar seu efeito da gravidade clínica subjacente.

Suspeita de HIT exige avaliação clínica e uso do escore 4Ts

A queda da contagem de plaquetas durante o suporte circulatório mecânico merece avaliação, mas não deve ser automaticamente interpretada como HIT. A revisão sustenta atenção à evolução plaquetária diante da exposição à heparina e à ocorrência de trombose, com investigação diagnóstica apropriada quando houver suspeita de HIT, orientada pelo escore 4Ts.

A frequência estimada de HIT de 7% em pacientes sob suporte circulatório mecânico deve ser entendida como uma média derivada de estudos heterogêneos, e não como um risco universal.

Autoria

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Leandro Lima

Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.

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