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Terapia Intensiva6 janeiro 2026

Protocolos de ventilação mecânica e desfechos em UTIP 

Estudo buscou determinar se a implementação de um protocolo de desmame ventilatório em uma UTIP pode melhorar os desfechos

A ventilação mecânica invasiva (VMI) é essencial em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP), mas está associada a complicações significativas, tornando fundamental a sua retirada oportuna e segura. Em pediatria, o desmame é particularmente complexo devido a inúmeros fatores, como diferenças anatômicas e fisiológicas relacionadas à idade, heterogeneidade das doenças e variabilidade na prática clínica, o que, infelizmente, pode aumentar a ocorrência de falhas de extubação, prolongar seu tempo de uso e piorar outros desfechos do paciente. Essa variabilidade é reforçada pela falta de evidências robustas específicas para UTIP e a ausência de consenso sobre as estratégias ideais de desmame. 

Diante dessas questões, uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores brasileiros avaliou se a implementação de protocolos estruturados de desmame, em comparação com o atendimento padrão, reduz a duração da VMI, o tempo de internação na UTIP e no hospital, a falha na extubação e a mortalidade em crianças criticamente enfermas. O estudo foi publicado na edição de novembro de 2025 no jornal Pediatric Pulmonology  

Metodologia 

Para o estudo, foram efetuadas buscas nas seguintes bases de dados: PubMed, EMBASE, CINAHL, Web of Science e Cochrane Central Register of Controlled Trials. A busca excluiu neonatos. Foram critérios de inclusão: 

  • População: crianças e adolescentes com idade superior a 28 dias até 18 anos incompletos, internados em UTIP usando VMI (não foram incluídos pacientes traqueostomizados); 
  • Intervenção: utilização de protocolo de desmame da VMI; 
  • Intervenção de comparação: cuidados usuais de desmame com base no julgamento clínico; 
  • Desfecho: qualquer desfecho primário ou secundário; 
  • Desenho do estudo: ensaios clínicos randomizados (ECR), incluindo ensaios randomizados por conglomerados. 

O desfecho primário foi a duração, em dias, da VMI desde a intubação traqueal até a extubação bem-sucedida. Já os desfechos secundários foram: tempo de internação, em dias, na UTIP e no hospital; falha na extubação (reintubação com retorno à VMI dentro de 48 h após a extubação); e taxas de mortalidade hospitalar. 

Resultados 

Foram incluídos sete ECR publicados no período de 2007 a 2021, totalizando 11.742 pacientes. Em seis estudos, a mediana de idade variou de 1,4 a 114,6 meses (somente um estudo relatou dados de idade como média, variando de 116 a 119 meses). Em um artigo que incluiu bebês com menos de 29 dias de vida, os pesquisadores entraram em contato com o autor para excluir os dados neonatais. 

Os protocolos implementados nos estudos incluídos continham um protocolo de desmame ventilatório, um protocolo de desmame ventilatório automatizado por computador e um protocolo de sedação para desmame ventilatório. 

O tempo de VMI foi menor com o protocolo de desmame ventilatório automatizado por computador (diferença média [DM] −2,33, intervalo de confiança de 95% [IC 95%] −3,42 a −1,24; 1 ensaio clínico, N = 2199; evidência de certeza moderada) e com o protocolo de desmame ventilatório (DM −1,2, IC 95% −1,27 a −1,13; 1 ensaio clínico, N = 260; evidência de certeza moderada). 

Uma redução no tempo de internação no hospital nos pacientes intubados por doença respiratória foi observada com o protocolo de desmame da sedação associado à VM (DM −1,2, IC 95% −1,27 a −1,13; 1 ensaio clínico, N = 260; evidência de certeza moderada). No entanto, os pesquisadores não observaram diferenças significativas entre os protocolos e o tratamento padrão em relação ao tempo de internação na UTIP, falha de extubação ou mortalidade.  

Conclusão 

Os pesquisadores descrevem que as evidências são limitadas devido à heterogeneidade nos protocolos aplicados e nas metodologias empregadas nos estudos. Todavia, assinalam que os protocolos de desmame podem reduzir o tempo de VMI. Além disso, essas poucas evidências apontam para que os protocolos de sedação e desmame possam diminuir o tempo de internação hospitalar em crianças com doenças respiratórias admitidas em UTIP. Infelizmente, ainda permanecem não comprovadas sua segurança e eficácia na redução da falha na extubação ou mortalidade.  

Os autores também ressaltam a necessidade de uma maior padronização dos protocolos de desmame em UTIP. Ademais, destacam a necessidade de pesquisas futuras que considerem as diferentes faixas etárias e diagnósticos na pediatria. Essa necessidade também se justifica pelas evidências de baixa certeza.  

Protocolos de ventilação mecânica e desfechos em UTIP 

Comentário 

Fico muito feliz e orgulhosa em ler um estudo brasileiro publicado em um renomado jornal científico e tendo como foco a terapia intensiva pediátrica, uma área frequentemente dominada por publicações de países de alta renda. Parabenizo os autores por abordarem um tema altamente relevante e pouco explorado! A relevância que percebo nesse estudo é que ele apoia a tomada de decisão protocolizada e em equipe, reforçando práticas de desmame mais seguras e eficientes. 

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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Referências bibliográficas

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