Logotipo Afya
Anúncio
Saúde24 março 2026

Uso de mídias digitais afeta saúde mental de jovens além do tempo de tela

Revisão com mais de 150 estudos aponta associação entre redes sociais e piores desfechos emocionais e comportamentais

O impacto das mídias digitais na saúde de crianças e adolescentes vai além da quantidade de tempo diante das telas. Uma revisão sistemática com metanálise publicada no JAMA Pediatrics indica que o uso dessas plataformas está associado a diferentes desfechos em saúde mental, comportamento e desenvolvimento.

Mais do que uma questão de horas, o fenômeno exige uma mudança de lente. Para a psiquiatra Dra. Mariana Vilas Boas, reduzir o problema ao tempo de uso é uma simplificação que não dá conta da complexidade clínica observada no consultório. “O ponto central deixa de ser apenas quanto tempo se usa e passa a ser como se usa, e com que impacto isso aparece na vida do paciente”, afirma.

O estudo reuniu 153 pesquisas longitudinais, com dados de mais de 18 mil participantes entre 2 e 19 anos. Os resultados mostram associação consistente entre o uso de mídias sociais e maior risco de depressão, problemas comportamentais, pensamentos autolesivos e uso de substâncias.

Embora as associações sejam, em geral, de pequena magnitude, a consistência dos achados em diferentes estudos reforça sua relevância clínica e epidemiológica.

Saiba mais: Uso problemático de telas e sua correlação com suicídio e saúde mental em jovens

Redes sociais concentram maior risco, e não por acaso

Entre os diferentes tipos de mídia analisados, as redes sociais apresentaram os resultados mais preocupantes. Além dos sintomas depressivos, o uso dessas plataformas foi associado a pior desempenho acadêmico, menor autoestima e redução de indicadores de desenvolvimento positivo.

Na prática clínica, a diferença entre uso passivo e ativo é decisiva. “O adolescente que passa horas apenas rolando a tela, exposto a comparações constantes e conteúdos irreais vindo de influenciadores, está submetido a um tipo de experiência que potencializa vulnerabilidades típicas da idade”, explica a psiquiatra.

Esse padrão de consumo não é neutro: ele atua diretamente sobre a construção da autoimagem e do senso de pertencimento, processos ainda em formação na adolescência.

O impacto também é corroborado por dados do Relatório Mundial da Felicidade 2026, que aponta associação entre uso excessivo de redes sociais e menor satisfação com a vida. Jovens que utilizam essas plataformas por menos de uma hora por dia apresentam melhores níveis de bem-estar, enquanto a média global gira em torno de 2,5 horas diárias.

Os efeitos são mais intensos entre meninas, especialmente em ambientes digitais centrados em imagem, onde a comparação social se torna mais frequente e mais intensa.

Leia também: Skincare infantil e TikTok: influenciadores mirins são benéficos para crianças?

Uso de mídias digitais afeta saúde mental de jovens além do tempo de tela

O que acontece no cérebro, e por que o adolescente é mais vulnerável?

A compreensão dos impactos das mídias digitais passa, necessariamente, pelos mecanismos neuropsicológicos envolvidos.

Um dos principais pontos é o sono. “A privação de sono tem um impacto enorme. Eu costumo dizer que se esses adolescentes dormissem melhor, provavelmente metade dos atendimentos psiquiátricos seria reduzida”, afirma a médica.

A exposição noturna às telas combina dois fatores críticos: luz azul, que interfere no ciclo circadiano, e hiperestimulação cognitiva, que dificulta o início e a qualidade do sono. O resultado é um cérebro mais vulnerável a alterações de humor, irritabilidade e prejuízos de atenção.

Outro mecanismo central envolve o sistema de recompensa. Redes sociais operam com reforços intermitentes, como curtidas, notificações, validações rápidas, que ativam circuitos dopaminérgicos e favorecem padrões de uso repetitivos, muitas vezes desregulados.

Esse efeito é potencializado por características próprias da adolescência: imaturidade do controle inibitório, maior impulsividade e intensa busca por validação social.

“Estamos lidando com um cérebro em desenvolvimento, que ainda não tem plena capacidade de regulação emocional e tomada de decisão. Isso torna esse grupo particularmente sensível ao ambiente digital”, explica.

Leia também: 8 doenças que podem ser causadas pelo uso excessivo de telas na infância

Nem todo uso é igual, e essa distinção muda a prática clínica

Se por um lado há riscos claros, por outro, nem todo uso de tecnologia é prejudicial.

“O impacto depende da função que aquele uso tem na vida do adolescente”, destaca a psiquiatra.

Atividades com propósito, como aprendizado, comunicação com pares ou produção de conteúdo, tendem a ter efeitos mais positivos. O mesmo vale para jogos, que podem contribuir para habilidades cognitivas em determinados contextos.

Já o uso desregulado, sem intencionalidade e associado a evasão ou isolamento, está mais frequentemente ligado a prejuízos emocionais e comportamentais.

Essa distinção, entre uso ativo e passivo, estruturado e desorganizado, é o que, na prática, redefine a avaliação clínica.

Leia ainda: Infância e vaidade: riscos da aplicação de cosméticos na pele de crianças

O desafio da orientação: sair do óbvio

Diante desse cenário, recomendações genéricas como “reduzir o tempo de tela” mostram-se insuficientes.

“O médico precisa avaliar as repercussões reais: como está o sono, o desempenho escolar, as relações sociais”, afirma.

A orientação passa por medidas concretas e baseadas em evidência. Entre elas, a higiene do sono ganha destaque, com a recomendação de evitar telas pelo menos duas horas antes de dormir, além do incentivo a atividades fora do ambiente digital.

O papel da família também é central. Monitoramento, definição de limites e acompanhamento ativo do conteúdo acessado fazem parte do cuidado.

“Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de estruturar esse uso dentro de parâmetros seguros para o desenvolvimento”, resume.

Leia mais: Saúde mental de adolescentes e jovens no Brasil: ações governamentais

Mais do que tempo, contexto

Os dados reforçam um ponto cada vez mais claro na literatura: o impacto das mídias digitais não pode ser compreendido apenas em termos quantitativos.

Tempo, conteúdo, contexto, motivação e repercussão funcional são dimensões inseparáveis dessa análise.

Apesar de não ser possível estabelecer causalidade direta, o conjunto de evidências aponta para a necessidade de uma abordagem mais sofisticada, tanto na pesquisa quanto na prática clínica.

Porque, no fim, a pergunta deixou de ser “quanto tempo”, e passou a ser “o que esse uso está fazendo com esse adolescente”. E isso precisa ser observado pela família e devidamente acompanhado pelos médicos.

Autoria

Foto de Roberta Santiago

Roberta Santiago

Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Saúde