A depressão na infância e na adolescência vem se apresentando com uma importante frequência. Cerca de 17% dos estudantes estadunidenses entre 12 e 17 anos afirmaram lutar com pelo menos um episódio depressivo em 2020, com maior frequência no sexo feminino. Além disso, o transtorno depressivo também é um fator de risco modificável importante para o suicídio, segunda principal causa de morte entre adolescentes nos EUA. Ainda assim, menos da metade dessa população recebe o tratamento adequado. Já há alguns anos, os ácidos graxos ômega-3 vêm sendo estudados como um possível tratamento adjuvante para depressão. Entretanto, é possível encontrar resultados contraditórios na literatura. Ainda assim, esse suplemento é consumido em diferentes regiões pela crença na diversidade de benefícios que poderia atrair para a saúde.
Considerando esses pontos, Berger G. et al conduziram um ensaio clínico randomizado publicado em janeiro de 2026 no JAMA Network Open. O objetivo era avaliar se o ômega-3 poderia reduzir os sintomas do transtorno depressivo maior e melhorar qualidade de vida entre crianças e adolescentes, além de potencialmente diminuir a necessidade de antidepressivos, trazendo também dados de segurança.
Métodos
Foi conduzido um ensaio clínico randomizado de fase 3, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico e com duração de 36 semanas. A pesquisa ocorreu em cinco serviços suíços de psiquiatria da infância e adolescência, onde os pacientes foram randomicamente distribuídos entre o grupo de teste e o grupo de controle.
A população do estudo envolveu crianças e adolescentes entre 8 e 18 anos, com episódio depressivo de moderado a grave, confirmado por entrevista padronizada, (SADS-PST, CDRS-R, um questionário de efeitos adversos e outro sobre ideação suicida) em dois momentos (triagem e linha de base). Ao todo foram recrutados 257 participantes, a maioria do sexo feminino.
O grupo que recebeu a intervenção fez uso de 1,5 g/dia de ômega-3 (1.000 mg de EPA e 500 mg de DHA), enquanto o controle recebeu placebo com triglicerídeos de cadeia média ao longo de 36 semanas. Menores de 13 anos receberam meia dose para reduzir desconforto gastrointestinal. As cápsulas foram preparadas para serem indistinguíveis em aparência e sabor. Todos receberam tratamento multiprofissional, com psicoterapia e antidepressivos conforme as diretrizes utilizadas.
Leia também: Uso problemático de telas e sua correlação com suicídio e saúde mental em jovens

Resultados, discussão e limitações: ômega-3 para depressão em crianças e adolescentes
Apesar de ter sido observado uma elevação dos níveis de ômega-3 no grupo de tratamento ao final do estudo, não foi encontrada nenhuma melhora estatisticamente significativa entre o grupo controle e o de intervenção. Esse resultado se mantém em relação a diferentes parâmetros, como sintomas, resposta, remissão, qualidade de vida ou uso de medicações antidepressivas. Também não há evidências de influência significativa na ideação suicida. Importante destacar que esses resultados foram encontrados mesmo com uma boa adesão ao tratamento proposto, verificado por meio de análise laboratorial dos pacientes.
Um ponto discutido no trabalho foi que, em comparação com outros importantes estudos na literatura, as taxas de remissão do transtorno depressivo neste trabalho foram menores do que em outros. Os autores levantam a possibilidade de que isso se relaciona a outros fatores, como o uso de mídias sociais e a pandemia de covid-19. Outro dado relevante é que mais de um terço da amostra fez uso de medicação antidepressiva, mas a melhora foi apenas modesta. Isso ressalta, segundo eles, as limitações das estratégias farmacológicas atuais, especialmente nos casos graves.
Também é levada para a discussão a importância ou influência de outros fatores que podem estar relacionados ao Transtorno Depressivo Maior entre crianças e adolescentes, como o tempo de tela, o uso de mídias sociais, a prática de atividades físicas e sociais e o sono. Esses fatores muitas vezes não respondem ao tratamento antidepressivo ou ao uso de suplementos, como o ômega-3.
Apesar de algumas fontes da literatura apoiarem a melhora do humor com o uso de ômega-3, os resultados encontrados neste artigo reforçam a necessidade de uma avaliação criteriosa mesmo de intervenções consideradas como benignas, já que poderiam atrasar o acesso a uma abordagem mais apropriada para os casos, aumentando os riscos relacionados à depressão, o que inclui a ideação suicida.
Entre as limitações, os autores destacam que, embora o desenho em diversos contextos (multicêntrico) permita a melhor generalização dos resultados, traz também heterogeneidade de exposição ao tratamento e pode diluir efeitos adjuvantes detectáveis. Como foi conduzido entre 2017 e 2022, é possível que tenha ocorrido a influência da pandemia de COVID-19. Além disso, os pesquisadores utilizaram uma dose fixa de ômega-3, o que não permitiu avaliar um possível efeito de dose-resposta. Outros fatores que podem ter influenciado o resultado envolvem o fato de não ter ocorrido controle sobre o uso de mídia (o que é considerado como um moderador relevante de depressão adolescente) e a chance de outras influências dietéticas terem ocorrido.
BRAIN 2025: Depressão e suicídio em jovens com transtornos do neurodesenvolvimento
Considerações finais
Considerando esses pontos, os autores concluem em seu trabalho que o uso adjuvante de ômega-3 entre crianças e adolescentes com Transtorno Depressivo Maior de moderado a grave não apresentou benefícios quando comparado ao placebo, nem reduziu o uso de antidepressivos ou a ideação suicida. Entretanto, seria interessante a realização de novos trabalhos que considerassem outros fatores relacionados, como o uso de mídias sociais ou a avaliação de subgrupos específicos.
Autoria

Paula Benevenuto Hartmann
Médica pela Universidade Federal Fluminense (UFF) ⦁ Psiquiatra pelo Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF ⦁ Mestranda em Psiquiatria e Saúde Mental pela Universidade do Porto, Portugal.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.