As novas substâncias psicoativas são compostos sintéticos desenvolvidos para mimetizar os efeitos de drogas ilícitas tradicionais, mas com modificações estruturais que frequentemente permitem escapar da regulação legal. Do ponto de vista clínico, essas substâncias não constituem um grupo homogêneo. Entre as principais classes estão os canabinoides sintéticos, como “Spice”, “K2” e “Black Mamba”; as catinonas sintéticas, conhecidas como “sais de banho”; e os derivados da fenetilamina, incluindo NBOMe e compostos 2C.
Os canabinoides sintéticos atuam como agonistas potentes dos receptores canabinoides, com afinidade muitas vezes superior à do THC. Diferentemente da cannabis natural, não contam com a presença do canabidiol, o que pode contribuir para maior toxicidade. As catinonas sintéticas atuam principalmente sobre a recaptação de monoaminas, podendo causar desde euforia até toxicidade simpaticomimética grave. Já os derivados da fenetilamina têm ação sobre receptores serotoninérgicos e preocupam pela estreita distância entre doses psicoativas e doses potencialmente letais.
A importância médica dessas substâncias vai além dos quadros de intoxicação aguda. O impacto clínico dessas substâncias ultrapassa a intoxicação aguda. Há evidências crescentes de complicações psiquiátricas persistentes, diferentes daquelas observadas com drogas tradicionais de abuso. Relatos iniciais já documentavam episódios psicóticos prolongados, inclusive em indivíduos sem histórico psiquiátrico prévio.
A acessibilidade dessas substâncias também favorece o uso em populações vulneráveis, incluindo adolescentes e pessoas em situação de rua. Ao mesmo tempo, a evolução para formulações cada vez mais perigosas torna o cenário ainda mais preocupante. Para o médico, há um desafio adicional importante: a triagem toxicológica padrão falha em detectar a maioria desses compostos.
As decisões terapêuticas também são difíceis, pois ainda há ausência de protocolos específicos baseados em evidências. Na prática, muitas condutas acabam sendo extrapoladas do tratamento de transtornos induzidos por substâncias tradicionais, apesar de as novas substâncias psicoativas apresentarem características clínicas próprias.
Como ainda há lacunas sobre os efeitos de longo prazo dessas substâncias, Ricci V. et al conduziram uma revisão sistemática da literatura sobre este assunto. Seu artigo, base para este material, foi publicado em fevereiro de 2026, na revista Psychiatry Research.

Métodos
Os autores seguiram a diretriz PRISMA, tendo realizado suas buscas em 6 bases de dados (PubMed/MEDLINE, Embase, PsycINFO, Web of Science, Cochrane Library e CINAHL) entre janeiro de 2005 e agosto de 2025.
Também foi avaliada literatura cinzenta, com inclusão apenas de materiais considerados de qualidade moderada a alta após aplicação da verificação AACODS. Foram incluídos estudos longitudinais com acompanhamento de pelo menos seis meses para desfechos psiquiátricos, além de relatos de caso e séries de casos que descrevessem complicações relevantes. Apenas publicações em inglês foram selecionadas.
A seleção dos estudos foi realizada por dois revisores independentes, com participação de um terceiro revisor quando necessário. A qualidade metodológica foi avaliada por meio da Escala Newcastle Ottawa adaptada. As substâncias foram organizadas em três grandes grupos: canabinoides sintéticos, catinonas sintéticas e derivados da fenetilamina.
Resultados
Ao todo, 58 estudos foram avaliados. A literatura analisada revelou um padrão preocupante de toxicidade crescente associada a compostos sintéticos mais novos, frequentemente com gravidade superior à observada em substâncias ilícitas tradicionais.
Para fins da revisão, os sintomas psiquiátricos foram considerados persistentes quando permaneciam detectáveis em acompanhamento igual ou superior a seis meses. Sintomas com duração inferior a seis semanas foram classificados como agudos, enquanto aqueles com duração entre seis semanas e seis meses foram considerados subagudos.
De forma geral, os achados indicaram três pontos centrais: maior toxicidade com gerações mais novas de compostos sintéticos, presença de sequelas psiquiátricas prolongadas que podem exceder as complicações associadas a drogas tradicionais e insuficiência dos protocolos atuais de detecção e tratamento.
Discussão: uso de NSP e canabinoides sintéticos
De maneira geral, as novas substâncias psicoativas, especialmente os canabinoides sintéticos, vêm apresentando uma progressão para fórmulas novas com frequência, com aumento no perfil de toxicidade e gravidade.
As consequências psiquiátricas dos canabinoides sintéticos parecem qualitativamente diferentes daquelas observadas com a cannabis natural. Usuários dessas substâncias apresentaram hospitalizações significativamente mais longas, episódios psicóticos prolongados, persistindo por mais de cinco meses, déficits cognitivos importantes e alterações estruturais cerebrais em pesquisas com adolescentes.
Essa maior gravidade pode ser compreendida a partir do próprio mecanismo farmacológico. Os canabinoides sintéticos apresentam “superagonismo” do receptor CB1 e afinidade de ligação muitas vezes maior que a do THC, levando a uma ativação excessiva desse receptor. Além disso, esses compostos não contêm canabidiol. Na cannabis natural, o canabidiol exerce ações moduladoras, ansiolíticas, antipsicóticas e potencialmente neuroprotetoras ao antagonizar a ativação do receptor CB1. Assim, a combinação de hiperativação canabinoide sem essa modulação ajuda a explicar os episódios psicóticos prolongados, os déficits cognitivos graves e as complicações neurológicas descritas.
As catinonas sintéticas também apresentam risco relevante, principalmente pela toxicidade simpaticomimética grave e pelas taxas muito elevadas de rabdomiólise. Os compostos NBOMe, por sua vez, demonstram toxicidade alarmante, com taxas de fatalidade de 15% e admissão em UTI de 40% em casos confirmados analiticamente.
Leia também: Rabdomiólise pediátrica: etiologias, manejo e desfechos
No tratamento, a revisão mostra que as abordagens atuais ainda se baseiam, em grande parte, em protocolos utilizados para transtornos induzidos por substâncias tradicionais. No entanto, as apresentações psiquiátricas prolongadas associadas aos canabinoides sintéticos sugerem que a psicose induzida por essas substâncias pode exigir tratamento antipsicótico por tempo maior do que o habitualmente considerado em outros quadros induzidos por drogas. Antipsicóticos de segunda geração, como risperidona e aripiprazol, foram descritos como efetivos e sugeridos como possíveis agentes de primeira linha.
Outro ponto importante é o reconhecimento de apresentações catatônicas. Foram descritos casos de catatonia em pacientes sem histórico psiquiátrico após uso de canabinoides sintéticos, com manejo bem-sucedido incluindo aripiprazol e ácido valproico como adjuvantes aos benzodiazepínicos. Em pacientes com alteração do estado mental após uso de drogas sintéticas, especialmente em contexto de emergência, a suspeita de catatonia deve ser mantida.
Nas exposições a catinonas sintéticas, as complicações musculares exigem maior monitoramento. Os casos descritos demandaram cuidados de suporte com benzodiazepínicos, ventilação mecânica e acompanhamento em UTI, ressaltando a importância de ressuscitação agressiva com fluidos e consulta precoce à nefrologia quando houver suspeita de rabdomiólise ou comprometimento renal.
A confirmação analítica permanece um desafio importante. Em um dos estudos, canabinoides sintéticos foram identificados por espectrometria de massa em 18 pacientes, correspondendo a 10% da amostra, mas apenas metade desses pacientes havia relatado o uso.
As evidências também mostram padrões de vulnerabilidade que exigem atenção clínica direcionada. Adolescentes apresentaram complicações psiquiátricas desproporcionalmente graves e maior probabilidade de comportamentos de risco em múltiplos domínios quando comparados a usuários apenas de maconha. Pessoas em situação de rua também mostraram taxas elevadas de uso de novas substâncias psicoativas.
As motivações para o uso podem diferir daquelas observadas com drogas tradicionais. Em uma pesquisa, 71% dos pacientes em tratamento residencial relataram usar canabinoides sintéticos para evitar testes de drogas. Esse dado tem implicações importantes para sistemas de justiça criminal, programas de tratamento e políticas no local de trabalho, pois sugere que determinadas estratégias de testagem podem favorecer indiretamente o uso de substâncias mais perigosas e menos detectáveis.
No campo da saúde pública, a natureza global dos mercados de novas substâncias psicoativas exige respostas coordenadas e sistemas de vigilância aprimorados. A rápida evolução química desses compostos também dificulta respostas regulatórias. A observação de que controles legais no Reino Unido não reduziram o crescimento das consultas nem a gravidade da toxicidade sugere que abordagens baseadas apenas na proibição de substâncias individuais podem ser insuficientes. Medidas de controle mais amplas podem ser necessárias, desde que equilibradas com a necessidade de pesquisa legítima.
Por fim, a revisão chama atenção para lacunas de conhecimento entre profissionais de saúde. Programas de educação médica devem incorporar treinamento sobre reconhecimento, manejo e encaminhamento de casos relacionados a novas substâncias psicoativas.
Saiba mais: Anvisa publica resolução e altera prescrição de produtos de Cannabis medicinal
Limitações
A revisão apresenta limitações relevantes. A qualidade das evidências variou de forma importante. Menos da metade dos estudos alcançaram classificação de alta qualidade, o que limita a força das conclusões.
Também há possibilidade de viés de publicação, uma vez que relatos de desfechos graves tendem a ser mais frequentes, enquanto casos leves podem ser menos representados.
A ausência de medidas padronizadas de desfecho entre os estudos também limita a comparação e torna a síntese mais difícil. Além disso, há escassez de estudos de acompanhamento de longo prazo, já que a maior parte acompanhou os pacientes por apenas seis a doze meses.
Outro ponto é o viés geográfico em direção a populações ocidentais, o que restringe a generalização dos achados. Diferenças culturais e de mercado podem influenciar tanto os padrões de uso quanto as apresentações clínicas. A rápida evolução das novas substâncias psicoativas também faz com que achados sobre compostos específicos possam se tornar rapidamente desatualizados. Além disso, o uso de múltiplas substâncias dificulta a atribuição causal, pois muitos casos envolvem exposição a mais de um composto.
Conclusão: NSP e canabinoides sintéticos consequências
Os canabinoides sintéticos e as novas substâncias psicoativas relacionadas apresentam riscos psiquiátricos e neurológicos aumentados em comparação com drogas tradicionais de abuso. As evidências mostram que os canabinoides sintéticos podem causar hospitalizações mais longas, sintomas psicóticos mais graves, déficits cognitivos significativos e complicações neurológicas ameaçadoras à vida. Para a prática médica, isso reforça a necessidade de manter alta suspeição para o uso de novas substâncias psicoativas em pacientes com psicose, agitação, catatonia ou complicações clínicas inexplicadas. Os protocolos de tratamento devem considerar que a psicose induzida por canabinoides sintéticos pode ser mais prolongada e mais grave do que a psicose induzida por cannabis tradicional, exigindo potencialmente tratamento antipsicótico estendido e acompanhamento próximo. Em termos de saúde pública, há maior necessidade de vigilância, análise e educação aos profissionais de saúde, além de estratégias de prevenção adequadas focando principalmente na população com maior risco de uso.
Autoria

Paula Benevenuto Hartmann
Médica pela Universidade Federal Fluminense (UFF) ⦁ Psiquiatra pelo Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF ⦁ Mestranda em Psiquiatria e Saúde Mental pela Universidade do Porto, Portugal.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.