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Psiquiatria20 abril 2026

Canabinoides para o tratamento de transtornos mentais e por uso de substâncias 

Transtornos mentais e por uso de substâncias estão entre os principais motivos pelos quais o uso medicinal de canabinoides foi aprovado
Por Tayne Miranda

O uso de canabis medicinal tem se disseminado como tratamento alternativo para transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias (TUS). Apesar disso, diversas revisões sistemáticas conduzidas nos últimos dez anos concluíram que há evidência limitada ou inconsistente quanto à eficácia dos canabinoides para desfechos em transtornos mentais e TUS. Frente ao aumento recente no uso de canabinoides para o tratamento de transtornos mentais e TUS, faz-se necessário examinar o estado atual das evidências. Assim, a revisão sistemática e metanálise conduzida por Jack Wilson e colaboradores buscou avaliar a qualidade das evidências provenientes de ensaios clínicos randomizados sobre a eficácia e a segurança dos canabinoides no tratamento de quaisquer transtornos mentais e TUS.  

Método 

Foram incluídos ensaios clínicos randomizados (RCTs), revisados por pares, que avaliaram a eficácia de canabinoides de origem vegetal e farmacêutica no tratamento de transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias (TUS) em participantes de qualquer idade e em qualquer contexto disponibilizados seguintes bases de dados: Ovid MEDLINE, PsycINFO, Cochrane Central Register of Controlled Clinical Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews e Embase e publicados entre 1 de janeiro de 1980 e 13 de maio de 2025, sem restrição de idioma. Estudos em andamento ou não publicados foram pesquisados no ClinicalTrials.gov, no EU Clinical Trials Register e no Australian and New Zealand Clinical Trials Registry. Também foi realizada uma busca manual nas listas de referências e em revisões sistemáticas relevantes para identificar artigos adicionais, além de consulta a especialistas da área para localizar estudos não encontrados nas buscas eletrônicas. 

Os desfechos primários foram remissão do transtorno mental ou TUS principal e mudanças nos sintomas. Foram analisados eventos adversos de todas as causas, eventos adversos graves e desistências dos estudos.  

Resultados 

54 estudos foram incluídos, totalizando 2.477 participantes (1.713 [69%] homens e 764 [31%] mulheres. 24 (44%) dos 54 estudos foram classificados como de alto risco de viés, 20 (37%) levantaram algumas preocupações e dez (18%) apresentaram baixo risco. Em relação ao viés relacionado a conflitos de interesse, 27 (50%) estudos foram classificados como de baixo risco, 16 (30%) apresentaram algumas preocupações e 11 (20%) foram considerados de alto risco, principalmente devido ao envolvimento da indústria e relações financeiras dos autores, além de papéis pouco claros dos patrocinadores no desenho e relato dos estudos. Abaixo, na Figura 1, há um resumo das meta-análises sobre a eficácia dos canabinoides no tratamento de transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias — desfechos primários e na Figura 2, um resumo da meta-análise sobre a segurança dos canabinoides para o tratamento de transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias, ambos adaptados das figuras originais do artigo.  

Figura 1 – Resumo das meta-análises sobre a eficácia dos canabinoides no tratamento de transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias – desfechos primários 

*Para abstinência de cannabis está apresentado a razão de chances (odds ratio); o resultado não é significativo. 

Figura 2 – Resumo da meta-análise sobre a segurança dos canabinoides para o tratamento de transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias 

Transtornos mentais não incluídos na metanálise  

Dois estudos (35 participantes) examinaram a eficácia dos canabinoides em pessoas com anorexia nervosa. A análise qualitativa não revelou diferença significativa no peso médio ou na atividade física diária média entre os grupos de tratamento e comparação. Nenhum dos estudos forneceu dados suficientes para relatar síndromes de abstinência ou eventos adversos. 

Dois estudos (64 participantes) examinaram a eficácia dos canabinoides em pessoas com TOC. A análise qualitativa revelou que não houve diferença significativa nos comportamentos repetitivos focados no corpo, na escoriação da pele ou nos sintomas gerais de TOC entre os grupos de canabinoides e placebo. Um estudo relatou eventos adversos e desistências do estudo. Houve 16 eventos adversos de todas as causas no grupo de canabinoides (n=25) em comparação com sete no grupo controle (n=25) e 11 participantes desistiram do grupo de canabinoides em comparação com nove do grupo placebo. 

Um estudo examinou a eficácia dos canabinoides em comparação com o controle para TDAH (30 participantes), transtorno bipolar 72 (35 participantes) e transtorno por uso de tabaco (24 participantes). Nenhuma diferença significativa foi encontrada para qualquer desfecho nos referidos transtornos. Não havia dados suficientes disponíveis para analisar eventos adversos ou desistências do estudo.  

Análises de subgrupo e análise de sensibilidade  

Em relação ao transtorno por uso de cannabis, as análises de subgrupo revelaram que o efeito foi significativo para estudos que administraram formulações farmacêuticas combinadas de canabidiol e THC (nabiximols) em comparação com placebo (SMD –0·29, IC 95% –0·57 a –0·02), mas não em estudos em que THC ou canabidiol foram administrados isoladamente. A análise de sensibilidade mostrou que, ao remover estudos com alto risco de viés, o efeito geral sobre os sintomas de abstinência deixou de ser significativo (–0·84, –1·75 a 0·06). Nos transtornos de tiques ou síndrome de Tourette a análise de subgrupo mostrou que houve melhora significativa apenas com combinações de canabidiol e THC (–0·68, –1·03 a –0·34), e não com canabidiol isolado (–0·24, –1·55 a 1·07) ou THC isolado (–0·47, –1·17 a 0·22). Não houve efeito significativo sobre impulsos premonitórios (–0·20, –0·70 a 0·31). 

No total, 28 estudos permitiram meta-análise de eventos adversos. Houve maior probabilidade no grupo canabinoide (OR 1·75, IC 95% 1·25–2·46). Esse efeito foi significativo para canabidiol isolado (1·66, 1·01–2·72) e combinações com THC (2·60, 1·11–6·08), mas não para THC isolado (1·41, 0·96–2·07). Estima-se um evento adverso adicional a cada sete participantes tratados (NNH: 7; IC 95% 5·4–10·8).  

Discussão 

Não foi encontrado benefício dos canabinoides para transtorno por uso de opioides, transtorno por uso de tabaco, transtorno por uso de cocaína, transtorno bipolar, ansiedade, TDAH, transtornos psicóticos, TEPT, TOC ou anorexia nervosa. Os canabinoides foram associados a uma redução dos sintomas de abstinência e do uso de cannabis entre indivíduos com transtorno por uso de cannabis, bem como a uma redução de traços autísticos em indivíduos com transtorno do espectro autista (evidência de muito baixa certeza, de acordo com o sistema GRADE; ambos os estudos que contribuíram para esse desfecho apresentaram alto risco de viés). Também foi observada redução nos sintomas de insônia e alguma evidência de melhora no tempo de sono. Identificou-se redução na gravidade de tiques entre aqueles que receberam canabinoides, porém apenas nos que utilizaram uma combinação de canabidiol e THC. Os participantes que receberam canabinoides apresentaram significativamente mais eventos adversos em relação ao placebo, mas sem diferença em relação a eventos adversos graves ou desistência dos estudos, com um número necessário para causar dano de 7. Vale destacar a baixa qualidade das evidências disponíveis, bem como a ausência de ensaios clínicos randomizados avaliando cannabis para o tratamento da depressão. 

A ideia de que canabinoides possuem um baixo risco tem sido utilizada para justificar a expansão do seu uso, o que é parcialmente endossado pela revisão, já que não houve maior risco de eventos adversos graves. No entanto, é importante notar que a maioria dos estudos incluídos utilizou canabinoides registrados, como o Sativex, ao invés de produtos não registrados com alto teor de THC, que são comumente disponíveis em diversos mercados. Esses produtos podem aumentar o risco de desenvolvimento de transtorno por uso de cannabis, entre outros danos de longo prazo.  

A pouca evidência de eficácia dos canabinoides no tratamento dos transtornos mentais torna extremamente preocupante a ampla disseminação do seu uso, uma vez que ele pode atrasar ou substituir o uso de terapias com eficácia comprovada, como as terapias cognitivo-comportamentais, que apresentam grandes tamanhos de efeito no tratamento de transtornos depressivos e de ansiedade. Os autores frisam a necessidade de maior regulação no uso de canabinoides como medicamentos, especialmente nos contextos em que profissionais de saúde são financeiramente incentivados a recomendar esses produtos. 

Ainda que os resultados em relação ao transtorno por uso de cannabis, transtorno do espectro autista, insônia e transtornos de tiques ou síndrome de Tourette sejam encorajadores diante da escassez de opções farmacológicas eficazes e seguras para essas condições, são necessárias mais investigações com desenhos de estudo aprimorados e amostras maiores e mais representativas. 

É importante ainda compreender que apenas um número limitado de produtos e dosagens foi avaliado quanto à eficácia e segurança e que somente esses produtos, que foram devidamente testados, devem ser utilizados de forma medicinal.   

Limitações 

  • Desfechos no seguimento mais longo foram priorizados, uma vez que são clinicamente mais relevantes e a combinação de múltiplos pontos temporais para cada estudo pode aumentar a influência de um único estudo na análise geral; 
  • A análise de subgrupos de acordo com o tipo de canabinoide foi limitada pelo pequeno número de estudos e pelo tamanho reduzido das amostras; 
  • Pode haver diferenças de gênero ou sexo na eficácia e segurança dos canabinoides, mas essa análise não foi explicitada pela maioria dos estudos; 
  • Dados observacionais não foram incluídos, uma vez que esses estudos são mais suscetíveis a vieses e não permitem estabelecer uma relação causal.

Impactos para a Prática Clínica 

  • As evidências de benefícios dos canabinoides para o tratamento de transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias na maioria das condições são fracas; 
  • Há alguma evidência que apoia o uso de canabinoides (geralmente combinações de canabidiol e THC) no transtorno por uso de cannabis, insônia, transtornos de tiques ou síndrome de Tourette e transtorno do espectro autista, porém a qualidade da evidência é baixa; 
  • É preocupante que o uso desses tratamentos esteja atrasando ou substituindo o uso de terapias comprovadamente mais eficazes; 
  • De modo geral, considerando a escassez de evidências de eficácia e o maior risco de eventos adversos gerais, o uso rotineiro desses medicamentos para transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias raramente se justifica.

Autoria

Foto de Tayne Miranda

Tayne Miranda

Editora médica de Psiquiatria da Afya ⦁ Residência em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo (USP) ⦁ Mestranda em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) ⦁ Médica pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) ⦁ Psiquiatra do PROADI-SUS pelo Hospital Israelita Albert Einstein ⦁ Foi Psiquiatra Assistente do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo

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Referências bibliográficas

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