
Distúrbios da interação intestino-cérebro e o papel dos probióticos
Os distúrbios da interação intestino-cérebro (DGBIs) relacionados à dor abdominal, anteriormente denominados distúrbios gastrointestinais funcionais, são condições frequentes na população pediátrica. Caracterizam-se por dor abdominal recorrente ou crônica sem uma causa orgânica identificável que explique adequadamente os sintomas. Entre os principais diagnósticos estão a síndrome do intestino irritável, a dor abdominal funcional não especificada, a dispepsia funcional e a enxaqueca abdominal.
Diante disso, cabe destacar que a participação do eixo intestino-cérebro e possíveis alterações da microbiota intestinal na fisiopatologia da dor abdominal têm despertado interesse no uso de probióticos como estratégia terapêutica. Apesar de amplamente utilizados na prática clínica, os resultados dos estudos são heterogêneos, especialmente em relação às cepas empregadas, às doses, à duração do tratamento e aos desfechos avaliados.
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Nesse contexto, o estudo de Balasan et al., publicado em julho de 2026 no European Journal of Pediatrics, teve como objetivo avaliar a eficácia e a segurança da suplementação com probióticos, em comparação com placebo, em crianças e adolescentes com DGBIs.
Como o estudo avaliou os probióticos em crianças e adolescentes
Trata-se de uma revisão sistemática com metanálise e metanálise em rede. Para isso, foram analisados estudos em inglês publicados em bases de dados como PubMed, Embase, Web of Science e Scopus, desde o início de cada base até abril de 2026.
Foram incluídos ensaios clínicos randomizados que avaliaram pacientes menores de 18 anos com distúrbios gastrointestinais funcionais, diagnosticados segundo os critérios de Roma II, III ou IV, incluindo síndrome do intestino irritável, dor abdominal funcional não especificada, dispepsia funcional e enxaqueca abdominal. Os estudos analisaram a suplementação com probióticos ou simbióticos, sendo priorizados aqueles que compararam essas intervenções com placebo, definido como uma preparação sem microrganismos probióticos.
Foram excluídos da análise estudos observacionais, revisões de prontuários, séries de casos e aqueles que abordassem pacientes com constipação funcional. A alteração da intensidade da dor abdominal foi considerada o desfecho primário.
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Qual foi o efeito dos probióticos sobre a dor abdominal?
Ao todo, foram selecionados 21 estudos publicados entre 2005 e 2025, com 1.899 participantes que completaram o tratamento. A maioria dos participantes tinha idade entre 4 e 18 anos. A duração das intervenções variou entre os estudos, e a maioria comparou probióticos com placebo.
Em 15 estudos, foi relatada redução da intensidade da dor abdominal com o uso de probióticos. A metanálise evidenciou que os probióticos promoveram redução modesta da intensidade da dor abdominal, com diferença média de −0,80 (IC 95%: −1,45 a −0,15).
Lactobacillus rhamnosus GG e redução da intensidade da dor
Para o Lactobacillus rhamnosus GG, a redução foi maior, com diferença média de −1,15 (IC 95%: −1,63 a −0,68). Entretanto, houve elevada heterogeneidade entre os estudos (I² = 83,4%), o que limita a interpretação de um efeito uniforme.
Na metanálise em rede, também foi observada redução dos episódios de dor com L. rhamnosus GG, L. reuteri e simbióticos em comparação com placebo. Novamente, porém, a heterogeneidade permaneceu elevada.
Resolução dos sintomas e segurança
Além disso, um dos principais achados clínicos foi a maior taxa de resolução completa da dor ou dos sintomas. Em comparação com placebo, essa resposta ocorreu em 35,3% dos pacientes que receberam probióticos versus 22,8% daqueles que receberam placebo, correspondendo a um NNT de 6,98 (IC 95%: 3,97–29,04).
Entretanto, quando o sucesso terapêutico foi definido como melhora dos sintomas segundo um ponto de corte estabelecido pelos próprios estudos, não houve diferença significativa entre probióticos e placebo.
De modo geral, os probióticos apresentaram bom perfil de segurança, sem registro de eventos adversos graves ou que levassem à interrupção do tratamento nos estudos analisados. Quando presentes, os efeitos foram predominantemente leves e autolimitados, como vômitos, náuseas, diarreia, distensão ou desconforto abdominal, ocorrendo, em alguns casos, também nos grupos placebo. Esses achados reforçam a boa tolerabilidade das cepas avaliadas em crianças e adolescentes com distúrbios da interação intestino-cérebro relacionados à dor abdominal.
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Como interpretar os achados do estudo?
Embora os resultados sejam estatisticamente favoráveis, os próprios autores destacam que o benefício clínico parece modesto.
Uma possível explicação para o benefício apresentado está nos diferentes mecanismos atribuídos aos probióticos, como modulação da microbiota, fortalecimento da barreira intestinal, regulação da resposta imune e redução da hipersensibilidade visceral por meio do eixo intestino-cérebro.
Entre as cepas avaliadas, o Lactobacillus rhamnosus GG apresentou o efeito mais consistente sobre a intensidade da dor, tanto nas comparações diretas quanto na metanálise em rede. Esse achado é biologicamente plausível, considerando os efeitos descritos para essa cepa sobre a barreira intestinal e a resposta imune.
O que os resultados significam para a prática?
Em síntese, os achados indicam que os probióticos podem contribuir para o controle dos sintomas em crianças com distúrbios da interação intestino-cérebro relacionados à dor abdominal, embora o benefício seja modesto. O perfil de segurança foi favorável, sustentando seu uso como estratégia complementar ao tratamento.
A heterogeneidade entre cepas, formulações, doses e duração das intervenções ainda impede definir qual estratégia é mais eficaz. Estudos maiores e com protocolos padronizados poderão esclarecer quais pacientes e quais formulações apresentam maior benefício.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica na Afya. Formada em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com residência médica em Pediatria pela mesma instituição (2026).
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