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Pediatria14 fevereiro 2025

Obesidade infantil e agonistas do receptor GLP-1: um marco na terapia? 

Editorial publicado no NEJM tratou do uso de agonistas de GLP-1 como uma opção no tratamento da obesidade infantil
Por Jôbert Neves

A obesidade infantil tem aumentado continuamente em todo o mundo, com uma prevalência de 19,7% entre crianças e adolescentes de 2 a 19 anos nos Estados Unidos. Esse cenário está associado a riscos significativos à saúde, incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e diversos tipos de câncer. Apesar dos esforços para incentivar uma alimentação mais saudável e maior atividade física, as estratégias eficazes para o controle do peso ainda são limitadas. 

Recentemente, os agonistas do receptor do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1) surgiram como uma opção promissora no tratamento da obesidade. Inicialmente desenvolvidos para tratar o diabetes tipo 2, esses medicamentos atuam diminuindo o esvaziamento gástrico, reduzindo o apetite e aumentando a saciedade por meio de efeitos no sistema nervoso central. Um editorial recém-publicado no The New England Journal of Medicine (NEJM) explorou o papel dos agonistas do receptor GLP-1, especialmente a liraglutida, no manejo da obesidade infantil, veja os principais pontos abordados:  

Principais descobertas e discussão 

Agonistas do receptor GLP-1: mecanismo e eficácia 

  • Incretinas como GLP-1 são hormônios liberados em resposta à ingestão de alimentos, estimulando a secreção de insulina e inibindo a produção de glucagon. No entanto, o GLP-1 tem uma meia-vida curta, pois é rapidamente degradado pela dipeptidil peptidase-4 (DPP-4). 
  • Para contornar esse problema, foram desenvolvidos agonistas do receptor GLP-1, como a liraglutida, que têm demonstrado grande eficácia no controle do peso corporal.  

Ensaios clínicos em adolescentes e crianças 

  • Um ensaio clínico randomizado e controlado em adolescentes (12-17 anos) mostrou que a liraglutida reduziu significativamente o escore padronizado de IMC ao longo de um ano. 
  • O estudo SCALE-Kids, realizado com crianças de 6 a 12 anos, revelou uma redução de 0,4 desvios padrão no IMC em comparação com placebo. 
  • No entanto, 80% das crianças que receberam liraglutida relataram efeitos colaterais gastrointestinais, principalmente náuseas e vômitos, durante o período de ajuste da dose. 

Leia também: Constipação induzida por medicamentos análogos de GLP1

Preocupações e limitações 

  • Alterações na composição corporal não foram avaliadas no estudo SCALE-Kids, o que dificulta saber se a perda de peso ocorreu devido à redução de gordura ou perda de massa muscular. 
  • Desigualdades socioeconômicas e étnicas: Poucas crianças de grupos sub-representados (por exemplo, apenas 6 crianças negras) participaram do estudo, dificultando a extrapolação dos resultados para essas populações. 
  • O estudo observou um efeito rebote no IMC após a interrupção do tratamento, sugerindo que pode ser necessário uso contínuo da medicação para evitar a recuperação do peso. 

Perspectivas futuras 

  • Estudos de longo prazo são essenciais para avaliar os efeitos dos agonistas do receptor GLP-1 no crescimento, puberdade e saúde metabólica das crianças. 
  • Pesquisas em andamento estão investigando formulações injetáveis de administração semanal e agonistas do receptor GLP-1 orais para crianças e adolescentes com obesidade e diabetes tipo 2. 
  • Ensaios futuros devem comparar os agonistas do receptor GLP-1 com outras estratégias para obesidade, incluindo mudanças no estilo de vida e cirurgia bariátrica. 

Conclusão 

A introdução dos agonistas do receptor GLP-1 como opção terapêutica para a obesidade infantil representa um avanço importante na abordagem do excesso de peso em crianças e adolescentes. A liraglutida demonstrou ser eficaz na redução do IMC, mas ainda existem preocupações sobre efeitos colaterais, segurança a longo prazo e necessidade de uso contínuo. Pesquisas futuras são essenciais para esclarecer o papel desses medicamentos e seus impactos na saúde das crianças com obesidade. 

O endocrinologista e nutrólogo pediátrico têm papel crucial no manejo destes pacientes assim como na interpretação profunda dos estudos científicos recém-publicados, avaliando minuciosamente a validade externa dos dados obtidos, não sendo apenas conduzidos pela pressão da indústria e, até mesmo, de seus pacientes e ou familiares.

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Referências bibliográficas

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