O levetiracetam é um fármaco anticonvulsivante de segunda geração que tem sido amplamente utilizado. O medicamento apresenta farmacocinética favorável, múltiplas formulações, baixo potencial de interação e amplas indicações regulatórias, incluindo o uso na epilepsia em pacientes pediátricos. Presume-se que seu mecanismo de ação envolva a ligação à proteína SV2A e a modulação da liberação de vesículas sinápticas. No entanto, sua ação anticonvulsivante ainda não é totalmente compreendida.
É importante lembrar que o levetiracetam está incluído na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS) para crianças. Contudo, ensaios clínicos randomizados (ECR) não demonstraram consistentemente superioridade em relação a outros fármacos anticonvulsivantes estabelecidos, como ácido valproico, lamotrigina ou carbamazepina. Inclusive, existe escassez de evidências de estudos comparativos diretos em pediatria.
Uma revisão sistemática e meta-análise teve como objetivo avaliar a eficácia do levetiracetam na epilepsia pediátrica (EP). Os resultados foram publicados no jornal Neurology.
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Como a revisão sistemática foi conduzida
Pesquisadores da Itália e da Alemanha conduziram uma busca sistemática nas bases PubMed/MEDLINE e Embase de artigos publicados no período de 1º de janeiro de 2000 a 6 de agosto de 2025. Foram incluídos ECR que avaliavam a eficácia do levetiracetam em pacientes pediátricos com idade igual ou inferior a 16 anos, com diagnóstico de epilepsia, e que relataram ausência de crises ou redução ≥ 50% em sua frequência.
Também foram considerados estudos com faixas etárias mistas, dos quais foram extraídos dados específicos da população pediátrica sempre que disponíveis, justamente devido ao número limitado de pesquisas exclusivamente pediátricas. Caso contrário, os pesquisadores utilizaram os resultados agregados da população mista.
Publicações focadas exclusivamente em estado epiléptico, crises neonatais e crises sintomáticas agudas foram excluídas.
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As comparações incluíram levetiracetam versus placebo ou outros medicamentos anticonvulsivantes (MACs) ativos, em monoterapia ou terapia adjuvante. Os desfechos primários foram ausência de crises e taxa de resposta no desfecho primário do estudo ou, caso não especificado, no acompanhamento de maior duração relatado.
Benefício frente ao placebo foi mais evidente como terapia adjuvante
A análise incluiu 25 ECR, com um total de 4.070 participantes. Vinte e três desses ECR contribuíram para as metanálises combinadas.
Considerando os 25 estudos, a média de idade dos pacientes variou de 0,4 a 39,3 anos, refletindo ECR realizados apenas com pacientes pediátricos e outros com faixas etárias mistas. Participantes do sexo feminino representaram 43,8% da amostra.
Em estudos controlados por placebo ou ausência de tratamento, principalmente estudos de terapia adjuvante, o levetiracetam mostrou-se associado a maiores taxas de:
- ausência de crises: diferença de risco (DR) de 11,0%; intervalo de confiança de 95% (IC 95%) de 5,3% a 16,7%;
- resposta ao tratamento: DR de 24,3%; IC 95% de 19,1% a 29,4%.
Especificamente, na epilepsia focal farmacorresistente, a DR combinada foi:
- ausência de crises: 11,3%; IC 95% de 0,1% a 22,5%;
- resposta ao tratamento: 22,0%; IC 95% de 15,2% a 28,8%.
Na epilepsia generalizada idiopática, o levetiracetam apresentou DR de:
- ausência de crises: 12,2%; IC 95% de 6,4% a 18,0%;
- resposta ao tratamento: 28,0%; IC 95% de 18,4% a 37,6%.
Comparação com anticonvulsivantes ativos não mostrou vantagem consistente
Em estudos controlados com comparador ativo, o levetiracetam não apresentou efeito relevante na epilepsia focal/SeLECTS (self-limited epilepsy with centrotemporal spikes) para ausência de crises (DR de -4,1%), nem na epilepsia focal recém-diagnosticada (DR de 0,2% e 5,9%).
No subgrupo de epilepsia mista, o efeito foi significativamente negativo para ambos os desfechos, indicando desvantagem do LEV em comparação com o comparador ativo:
- ausência de crises: DR de -5,9%;
- resposta ao tratamento: DR de -30,9%.
Em estudos controlados por comparador ativo, principalmente estudos de comparação direta em monoterapia, o levetiracetam não apresentou vantagem geral em relação aos comparadores ativos quanto à:
- ausência de crises: DR de 2,4%; IC 95% de -5,6% a 0,7%;
- resposta ao tratamento: DR de 7,4%; IC 95% de -23,0% a 8,1%.
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Limitações reforçam cautela na interpretação dos achados
Um alto risco de viés foi observado em 14 estudos. Um benefício do levetiracetam em relação ao placebo foi confirmado por análises de sensibilidade, mas houve desvantagem significativa em relação aos comparadores ativos nos estudos com baixo risco de viés.
Por fim, os pesquisadores descreveram que os achados dos estudos realizados somente com pacientes pediátricos foram consistentes com os resultados gerais: 16 ECR, totalizando 1.380 participantes.
Balestrini e colaboradores concluíram que, particularmente como adjuvante, o levetiracetam parece ser benéfico quando comparado ao placebo. No entanto, não supera os anticonvulsivantes já estabelecidos no tratamento da EP de modo consistente. Inclusive, pode até ser menos eficaz em subgrupos específicos quando se consideram evidências de maior qualidade.
Os pesquisadores destacaram que a interpretação dos resultados é limitada por importante heterogeneidade, risco frequente de viés, períodos variáveis de acompanhamento, vieses de publicação e escassez de dados comparativos exclusivos em crianças e adolescentes.
Dessa forma, o levetiracetam deve ser considerado uma opção terapêutica. No entanto, é necessário levar em consideração as peculiaridades do paciente e seu quadro clínico, em vez de se ter uma preferência automática por qualquer medicamento específico.
Mensagem prática para a escolha do anticonvulsivante
Observo que esse artigo argumenta contra usar o levetiracetam como escolha automática de primeira linha para a EP apenas por ser uma opção mais familiar, de fácil utilização e geralmente bem tolerada. Sim, o medicamento continua sendo uma opção valiosa, principalmente como adjuvante e quando as vantagens farmacocinéticas se aplicam ao caso.
Porém, o que considero mais interessante para a prática é que a escolha do anticonvulsivante deve ser específica para a síndrome e também baseada em evidências. Sendo assim, devemos manter a preferência por anticonvulsivantes já estabelecidos em subgrupos nos quais a eficácia comparativa é mais robusta.
Acredito também que o estudo reforça que os pediatras devem considerar os efeitos adversos no comportamento e as características individuais de cada paciente, em vez de presumir que um medicamento mais novo significa que seja, necessariamente, melhor.
Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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