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Pediatria7 julho 2026

Fórmula parcialmente hidrolisada e prevenção de alergia infantil

Estudo avalia se fórmula parcialmente hidrolisada nos primeiros 6 meses reduz dermatite atópica e alergia alimentar até os 5 anos.
Por Jôbert Neves

A crescente prevalência das doenças alérgicas na infância, especialmente dermatite atópica e alergia alimentar, reforça a importância de estratégias preventivas precoces. Nesse cenário, intervenções nutricionais nos primeiros meses de vida têm sido amplamente investigadas, embora com resultados historicamente inconsistentes. 

O estudo conduzido por Sekkidou et al. (2026), publicado no Pediatric Allergy and Immunology, traz novos dados relevantes ao avaliar o impacto de uma fórmula parcialmente hidrolisada (pHF) utilizada nos primeiros 6 meses de vida sobre o risco de doenças alérgicas até os 5 anos de idade. 

Saiba mais: AAP 2025 – Evidências para prevenção de alergias alimentares 

fórmula hidrolisada e prevenção de alergia infantil

Por que discutir fórmulas parcialmente hidrolisadas? 

A hipótese biológica por trás das pHF baseia-se na redução da antigenicidade das proteínas do leite de vaca por hidrólise parcial, gerando peptídeos de menor peso molecular. Essa modificação poderia favorecer o desenvolvimento de tolerância imunológica precoce, com potencial impacto na chamada marcha atópica, caracterizada pela progressão de dermatite atópica para alergias alimentares, rinite e asma. 

No entanto, estudos prévios mostraram resultados heterogêneos, e diretrizes recentes passaram a não recomendar rotineiramente o uso de pHF para prevenção de alergia, sobretudo pela baixa qualidade das evidências disponíveis. 

Como o estudo avaliou crianças de alto risco 

O trabalho deriva do Allergy Reduction Trial (A.R.T.), um estudo multicêntrico, randomizado e duplo-cego, com seguimento até 5 anos de idade em crianças com alto risco para alergia, definido por história familiar positiva. 

O desenho incluiu três grupos: 

  • Aleitamento materno exclusivo, em grupo observacional; 
  • Fórmula padrão, com proteína intacta; 
  • Fórmula parcialmente hidrolisada (pHF), isolada ou em alimentação mista. 

O objetivo foi avaliar se o efeito observado nos primeiros 6 meses, com redução de dermatite atópica, se manteria ao longo da infância e se se estenderia para outros desfechos alérgicos. 

Principais resultados até os 5 anos 

Redução global de manifestações alérgicas 

Entre o nascimento e os 5 anos, o grupo que recebeu pHF apresentou: 

  • Menor risco de qualquer manifestação alérgica; 
  • 32,7% vs. 51,7% (pHF vs. fórmula padrão); 
  • RR 0,73, com redução relativa de 27%; 
  • p = 0,02, embora o resultado tenha sido menos robusto que para alergia alimentar. 

Dermatite atópica: efeito observado desde os primeiros meses 

  • Redução de 42% no risco cumulativo até 5 anos; 
  • 22,1% vs. 38,5%; 
  • p = 0,003, principalmente nos primeiros meses de vida. 

Saiba mais: Guideline AAD 2026 – Dermatite atópica em menores de 18 anos 

  1. Alergia alimentar: achado mais expressivo do estudo 
  • Redução de 47% no risco global até 5 anos (p = 0,03); 
  • Redução ainda mais marcada entre 1 e 5 anos: 
  • 1,5% vs. 12,4%; 
  • 87% de redução relativa (p = 0,007); 
  • Principal resultado do estudo, com significância estatística consistente. 

Esse é um dos achados mais robustos, embora baseado em número relativamente pequeno de casos. 

Saiba mais: Alergênicos na introdução alimentar: evidências, segurança e prática 

  1. Asma e rinite alérgica não tiveram diferença significativa 
  • Sem diferença significativa até os 5 anos; 

Sem significância estatística (p > 0,05), o que é esperado, já que manifestações respiratórias da marcha atópica tendem a surgir mais tardiamente. 

O que considerar na prática pediátrica 

O estudo de Sekkidou et al. (2026) contribui de forma relevante ao mostrar que intervenções nutricionais nos primeiros meses de vida podem ter impacto duradouro sobre desfechos alérgicos, especialmente dermatite atópica e alergia alimentar. 

Para o pediatra geral, a principal mensagem não é substituir condutas estabelecidas, mas incorporar uma visão mais refinada: 

  • O período neonatal é crítico para o desenvolvimento imunológico; 
  • A nutrição precoce pode modular o risco de alergia; 
  • Decisões devem ser individualizadas, especialmente em crianças de risco. 

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

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