A crescente prevalência das doenças alérgicas na infância, especialmente dermatite atópica e alergia alimentar, reforça a importância de estratégias preventivas precoces. Nesse cenário, intervenções nutricionais nos primeiros meses de vida têm sido amplamente investigadas, embora com resultados historicamente inconsistentes.
O estudo conduzido por Sekkidou et al. (2026), publicado no Pediatric Allergy and Immunology, traz novos dados relevantes ao avaliar o impacto de uma fórmula parcialmente hidrolisada (pHF) utilizada nos primeiros 6 meses de vida sobre o risco de doenças alérgicas até os 5 anos de idade.
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Por que discutir fórmulas parcialmente hidrolisadas?
A hipótese biológica por trás das pHF baseia-se na redução da antigenicidade das proteínas do leite de vaca por hidrólise parcial, gerando peptídeos de menor peso molecular. Essa modificação poderia favorecer o desenvolvimento de tolerância imunológica precoce, com potencial impacto na chamada marcha atópica, caracterizada pela progressão de dermatite atópica para alergias alimentares, rinite e asma.
No entanto, estudos prévios mostraram resultados heterogêneos, e diretrizes recentes passaram a não recomendar rotineiramente o uso de pHF para prevenção de alergia, sobretudo pela baixa qualidade das evidências disponíveis.
Como o estudo avaliou crianças de alto risco
O trabalho deriva do Allergy Reduction Trial (A.R.T.), um estudo multicêntrico, randomizado e duplo-cego, com seguimento até 5 anos de idade em crianças com alto risco para alergia, definido por história familiar positiva.
O desenho incluiu três grupos:
- Aleitamento materno exclusivo, em grupo observacional;
- Fórmula padrão, com proteína intacta;
- Fórmula parcialmente hidrolisada (pHF), isolada ou em alimentação mista.
O objetivo foi avaliar se o efeito observado nos primeiros 6 meses, com redução de dermatite atópica, se manteria ao longo da infância e se se estenderia para outros desfechos alérgicos.
Principais resultados até os 5 anos
Redução global de manifestações alérgicas
Entre o nascimento e os 5 anos, o grupo que recebeu pHF apresentou:
- Menor risco de qualquer manifestação alérgica;
- 32,7% vs. 51,7% (pHF vs. fórmula padrão);
- RR 0,73, com redução relativa de 27%;
- p = 0,02, embora o resultado tenha sido menos robusto que para alergia alimentar.
Dermatite atópica: efeito observado desde os primeiros meses
- Redução de 42% no risco cumulativo até 5 anos;
- 22,1% vs. 38,5%;
- p = 0,003, principalmente nos primeiros meses de vida.
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- Alergia alimentar: achado mais expressivo do estudo
- Redução de 47% no risco global até 5 anos (p = 0,03);
- Redução ainda mais marcada entre 1 e 5 anos:
- 1,5% vs. 12,4%;
- 87% de redução relativa (p = 0,007);
- Principal resultado do estudo, com significância estatística consistente.
Esse é um dos achados mais robustos, embora baseado em número relativamente pequeno de casos.
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- Asma e rinite alérgica não tiveram diferença significativa
- Sem diferença significativa até os 5 anos;
Sem significância estatística (p > 0,05), o que é esperado, já que manifestações respiratórias da marcha atópica tendem a surgir mais tardiamente.
O que considerar na prática pediátrica
O estudo de Sekkidou et al. (2026) contribui de forma relevante ao mostrar que intervenções nutricionais nos primeiros meses de vida podem ter impacto duradouro sobre desfechos alérgicos, especialmente dermatite atópica e alergia alimentar.
Para o pediatra geral, a principal mensagem não é substituir condutas estabelecidas, mas incorporar uma visão mais refinada:
- O período neonatal é crítico para o desenvolvimento imunológico;
- A nutrição precoce pode modular o risco de alergia;
- Decisões devem ser individualizadas, especialmente em crianças de risco.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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