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Pediatria15 março 2026

Estudo italiano compara o uso do nirsevimabe em internações por bronquiolite

Estudo analisou se o nirsevimabe pode reduzir hospitalizações relacionadas à bronquiolite, diminuindo as taxas de positividade para o VSR

A bronquiolite sempre foi a principal causa de hospitalização em lactentes em países de alta renda, seguindo um padrão sazonal, principalmente, do vírus sincicial respiratório (VSR). Durante a pandemia de covid-19, houve, inicialmente, uma queda acentuada dos casos de bronquiolite, com subsequente aumento da gravidade em 2022-2023 e normalização da sazonalidade em 2023-2024. Nesse contexto, o nirsevimabe oferece uma alternativa promissora ao palivizumabe devido à sua administração sazonal em dose única e à sua indicação mais ampla. O nirsevimabe é um anticorpo monoclonal de longa duração que tem como alvo a proteína F de pré-fusão do VSR. 

Na Itália, o nirsevimabe foi aprovado em 2024 para ser administrado em todos os lactentes na primeira temporada de VSR (havendo critérios adicionais de elegibilidade para bebês de alto risco na sua segunda temporada). Antes dessa aprovação, ele já havia demonstrado eficácia na Espanha e na região italiana do Vale de Aosta, onde os pacientes que o receberam não evoluíram com internação hospitalar. 

Um estudo publicado na Pediatric Pulmonology avaliou o impacto do nirsevimabe durante o inverno de 2024-2025 na Itália, partindo da hipótese de que sua introdução reduziria as hospitalizações relacionadas à bronquiolite, diminuindo as taxas de positividade para o VSR e atenuando a gravidade da doença. 

Infant getting breathing treatment from mother while suffering from illness

Metodologia 

Ghirardo e colaboradores conduziram um estudo comparativo retrospectivo multicêntrico que avaliou o impacto da imunoprofilaxia com nirsevimabe contra o VSR nas internações relacionadas à bronquiolite durante a temporada de inverno de 2024-2025. Foram incluídos dados de nove hospitais italianos distribuídos geograficamente por toda a Itália.  

De forma retrospectiva, os dados foram extraídos de prontuários clínicos, incluindo registros eletrônicos e em papel, de todos os lactentes com menos de um ano de vida internados nos hospitais do estudo no período entre 1º de setembro e 31 de março de cada ano, a partir de 2019, período denominado “temporada de inverno”. Foram elegíveis e incluídos todos e somente os pacientes consecutivos com prontuários que registrassem diagnóstico de bronquiolite na alta hospitalar. Dados faltantes eram excluídos. 

O desfecho primário foi o número de hospitalizações por bronquiolite entre 1º de setembro e 31 de março da temporada de 2024-2025, em comparação com os quatro anos anteriores. Os desfechos secundários incluíram medidas de gravidade entre pacientes que receberam o nirsevimabe e aqueles que não receberam, em termos de tempo de internação no hospital e em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP), bem como a necessidade de suporte respiratório. 

Saiba mais: CNAF em crianças internadas com bronquiolite

Resultados 

Durante a temporada de inverno de 2024-2025, 438 lactentes foram internados por bronquiolite nos nove hospitais do estudo. Em comparação, houve 832 internações no mesmo período em 2023-2024, 1161 em 2022-2023, 700 em 2021-2022, 43 em 2020-2021 e 512 em 2019-2020. Dessa forma, houve uma redução substancial de 48% nas internações por bronquiolite em comparação com a temporada anterior (438 vs. 832 internações). Entre os lactentes hospitalizados, apenas 23% haviam recebido imunoprofilaxia. Entre 100 pacientes hospitalizados por bronquiolite que receberam imunoprofilaxia, 48 (48%) testaram positivo para VSR por PCR. A positividade para o VSR diminuiu significativamente entre os pacientes imunizados (48%) em comparação com os não imunizados (73%, p < 0,0001), com menos coinfecções relacionadas ao VSR. 

A prevalência de imunoprofilaxia com nirsevimabe variou significativamente por região (p = 0,001), de 52 em 146 pacientes hospitalizados (36%) no Ospedale Maggiore Policlinico e no Buzzi Children’s Hospital a 22 em 199 (11%) no Bambino Gesù Children’s Hospital IRCCS. 

Durante o inverno de 2024-2025, 98% dos lactentes internados foram testados para vírus respiratórios, com 69% de positividade para o VSR (percentual inferior ao observado nos períodos imediatamente anteriores à pandemia e durante a retomada da pandemia, mas superior ao de 2020-2021). O uso de painéis de PCR permaneceu elevado ao longo das temporadas, e o rinovírus foi o agente viral mais frequentemente detectado, juntamente com o VSR, com taxas significativamente maiores em 2020-2021 e 2024-2025; o enterovírus aumentou apenas em 2024-2025, o adenovírus apresentou um leve aumento em 2023-2024 e o coronavírus foi menos frequente em 2019-2021. A temporada de 2020-2021 apresentou uma proporção maior de testes virais negativos, e as taxas gerais de coinfecção foram significativamente maiores no período pós-pandemia. 

É interessante também destacar que, ao longo dessas seis temporadas, houve 24.429 dias de hospitalização e 4.100 dias de UTIP para o cuidado de lactentes com bronquiolite. O tempo total de internação hospitalar foi significativamente menor durante as temporadas 2024-2025 e 2020-2021 (p = 0,00002). A necessidade de UTIP também foi significativamente menor na temporada 2024-2025 (p = 0,0019), embora o tempo de internação na UTIP não tenha apresentado diferença significativa. Além disso, a necessidade de suporte respiratório foi significativamente menor durante as temporadas 2019-2020 e 2020-2021 em comparação com as outras, sendo a duração do suporte respiratório significativamente menor na temporada de 2020-2021 (p < 0,00001). 

Conclusão 

O estudo mostrou que, durante a temporada de inverno de 2024-2025 na Itália, houve uma redução significativa nas internações por bronquiolite em lactentes. Além disso, em média, o curso da doença mostrou-se mais brando, com diminuição relevante no número de casos muito graves. Por fim, o panorama virológico sofreu mudança expressiva, com o RSV desempenhando papel muito menos proeminente, isoladamente ou em coinfecções. Dessa forma, diante da ausência de outras explicações evidentes e do aumento concomitante de outros vírus, como rinovírus e enterovírus, esses achados sugerem fortemente o impacto do nirsevimabe.  

Comentário 

No Brasil, o nirsevimabe está disponível no Sistema Único de Saúde desde fevereiro de 2026 para bebês prematuros que nasceram com até 36 semanas e 6 dias de idade gestacional que tenham até 5 meses e 29 dias de vida. 

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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