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Pediatria27 junho 2026

ESPGHAN 2026: Roma V pediátrico e mudanças na prática clínica

Discussão sobre Roma V aborda como os DGBIs pediátricos podem ser reorganizados na prática clínica atual hoje.
Por Jôbert Neves

Durante discussões recentes apresentadas na reunião anual da European Society for Paediatric GastroenterologyHepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), um ponto central ficou claro: a evolução dos distúrbios da interação intestino-cérebro (DGBIs) não é apenas conceitual, mas tem implicações diretas na forma como diagnosticamos e conduzimos esses pacientes na prática clínica. 

A transição do conceito de distúrbios gastrointestinais funcionais para DGBIs, agora consolidada no Roma V, reflete uma mudança estrutural na compreensão dessas condições, que passam a ser vistas como resultado de interações complexas entre mecanismos fisiopatológicos e fatores psicossociais. 

Saiba mais: Dispepsia funcional no Roma V: fisiopatologia duodenal e terapia personalizada 

Impacto clínico além dos sintomas gastrointestinais 

Apesar de historicamente considerados benignos, os DGBIs apresentam impacto clínico relevante e, em muitos casos, duradouro. Crianças afetadas apresentam maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e outros transtornos psiquiátricos ao longo do tempo, além de maior frequência de queixas somáticas persistentes. 

Saiba mais: Nova diretriz para SII e Dor Abdominal Funcional na pediatria 

Fisiopatologia como base do novo modelo 

O entendimento atual dos DGBIs se apoia em um modelo multifatorial. Esses distúrbios resultam da interação entre alterações de motilidade gastrointestinal, hipersensibilidade visceral, disfunção de barreira mucosa e resposta imune, alterações da microbiota intestinal e mudanças no processamento central da dor. 

Critérios de Roma e padronização diagnóstica 

Os critérios de Roma foram essenciais para essa transformação. Inicialmente desenvolvidos como ferramentas de pesquisa, passaram progressivamente a guiar a prática clínica, permitindo melhor caracterização dos pacientes e maior consistência diagnóstica. 

Além disso, contribuíram para a validação do diagnóstico junto aos pacientes e famílias, reduzindo o estigma frequentemente associado a essas condições e facilitando a comunicação clínica. 

Saiba mais: WCPGHAN 2024: Update dos critérios para distúrbios da Interação Intestino-Cérebro 

Roma V reorganiza o raciocínio clínico 

A atualização mais recente, o Roma V, representa um avanço importante ao reorganizar o modelo diagnóstico com base mais clara em fisiopatologia e topografia anatômica do trato gastrointestinal. 

Os critérios foram revisados, com modificações e introdução de novas definições, refletindo o acúmulo de evidências mais recentes. Um ponto relevante foi a tentativa de harmonizar critérios pediátricos e adultos sempre que possível, reforçando a continuidade dessas condições ao longo da vida. 

Classificação mais alinhada ao raciocínio clínico 

No Roma V, os DGBIs passam a ser organizados de acordo com regiões do trato gastrointestinal, incluindo trato superior, trato inferior e biliar, distúrbios relacionados à dor abdominal, distúrbios anorretais e condições associadas ao desconforto. 

Essa organização torna o raciocínio clínico mais intuitivo, permitindo que o diagnóstico seja guiado a partir do principal sintoma e sua localização predominante, facilitando a aplicação dos critérios na prática. 

Um dos avanços mais relevantes do Roma V é o alinhamento entre pediatria e adultos. Esse ponto é particularmente importante considerando que muitos DGBIs se iniciam na infância e persistem ao longo da vida. 

Essa abordagem favorece maior continuidade do cuidado e reduz inconsistências na transição entre diferentes fases do acompanhamento. 

Além disso, o Roma V amplia o escopo ao incorporar a experiência do paciente e fatores sociais, reconhecendo que o impacto dessas condições vai além dos sintomas. 

O que pode mudar na prática clínica? 

A principal mudança é a possibilidade de um diagnóstico mais seguro, baseado em critérios positivos, com menor dependência de investigação extensa para exclusão de doença orgânica. 

Isso permite uma abordagem mais precoce e direcionada, melhora a comunicação com famílias e amplia as estratégias terapêuticas, que passam a incluir não apenas intervenções farmacológicas, mas também abordagens voltadas ao eixo cérebro-intestino. 

Mensagem prática para o pediatra 

O Roma V consolida uma mudança definitiva na forma de entender os DGBIs. Essas condições deixam de ser interpretadas como ausência de doença e passam a ser reconhecidas como entidades com base fisiopatológica definida, critérios diagnósticos estruturados e impacto clínico significativo. 

Em um cenário de alta prevalência, o desafio deixa de ser apenas excluir doenças orgânicas e passa a ser reconhecer corretamente esses quadros e manejá-los de forma adequada desde o início. 

Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

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