A publicação do Consenso de Roma V em 2026 consolida uma mudança de paradigma fundamental na gastroenterologia: a transição definitiva do conceito das previamente denominadas “doenças funcionais” para os Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro (DIIC). Esta evolução não é meramente semântica; ela reflete a compreensão de que transtornos como a Dispepsia Funcional decorrem de um desarranjo complexo na comunicação entre o sistema nervoso entérico e o central. O novo consenso abandona a visão da Dispepsia Funcional como um diagnóstico de exclusão puramente psicossomático, estabelecendo-a como uma patologia com substrato biológico definido, onde a microinflamação duodenal e a hipersensibilidade mediada pelo eixo cérebro-intestino ocupam o papel central na gênese dos sintomas.

Fisiopatologia: do duodeno ao eixo cérebro-intestino
Causas e mecanismos: A inflamação de baixo grau
Distúrbios da acomodação gástrica são extremamente relevantes, resposta neurológica anormal ao estresse e efeitos tardios de agentes infecciosos são aspectos fundamentais que continuam muito pertinentes. Contudo, a fronteira do conhecimento no Roma V destaca a disfunção duodenal como um dos grandes fatores fisiopatológicos da doença. O mecanismo primordial envolve uma inflamação de baixo grau, caracterizada por eosinofilia duodenal e ativação mastocitária. Esta resposta imune local promove a quebra da barreira mucosa, resultando em um aumento da permeabilidade epitelial (leaky gut). A passagem de antígenos luminais e ácidos biliares para a submucosa estimula terminações nervosas aferentes, desencadeando um estado de ativação imunológica crônica que altera a motilidade e a sensibilidade gastroduodenal.
Hipersensibilidade e disbiose
Observa-se a hipersensibilidade visceral, onde estímulos fisiológicos, como a distensão gástrica pós-prandial, são interpretados como dor ou desconforto intenso. Adicionalmente, a falha na acomodação gástrica — a incapacidade do fundo gástrico de relaxar para receber o bolo alimentar — contribui diretamente para a saciedade precoce. O Roma V também enfatiza o papel da disbiose gastroduodenal, sugerindo que alterações na microbiota local podem perpetuar a inflamação e modular a produção de metabólitos que interferem na sinalização serotoninérgica entérica.
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Critérios diagnósticos e classificação fenotípica
Para o diagnóstico de Dispepsia Funcional segundo o Roma V, o paciente deve apresentar sintomas que iniciaram há pelo menos 6 meses, estando ativos nos últimos 3 meses, sem evidência de doença estrutural na endoscopia. A classificação continua dividida em dois fenótipos principais:
- Síndrome do Desconforto Pós-Prandial (SDP): Caracterizada por plenitude pós-prandial incomodativa ou saciedade precoce que impede a finalização de uma refeição regular, ocorrendo pelo menos 3 dias por semana;
- Síndrome da Dor Epigástrica (SDE): Caracterizada por dor ou queimação epigástrica incomodativa, ocorrendo pelo menos 1 dia por semana. A dor não deve ser generalizada ou localizada em outras regiões abdominais e não deve ser aliviada exclusivamente pela evacuação.
Investigação diagnóstica e interpretação de exames
Avaliação laboratorial
A pesquisa de Helicobacter pylori (H. pylori) por teste não invasivo ou biópsias gástricas (abaixo) é um dos pontos fundamentais na abordagem inicial.
Além disso, exames complementares como hemograma completo (pesquisa de anemia e eosinofilia sistêmica), glicemia de jejum e marcadores inflamatório. Em pacientes com predominância de diarreia ou perda ponderal, a triagem para doença celíaca via anticorpo antitransglutaminase IgA é mandatória.
No Brasil, deve-se considerar as parasitoses intestinais entre os diferenciais, solicitando-se o exame parasitológico de fezes (EPF), preferencialmente três amostras colhidas em dias alternados, ou mesmo tratando de forma empírica casos de alta suspeição, em especial os quadros com plenitude pós-prandial e distensão abdominal marcantes.
Avaliação endoscópica e de imagem
A Endoscopia Digestiva Alta (EDA) é o padrão-ouro para excluir úlceras, esofagite erosiva e neoplasias. O Roma V recomenda a endoscopia para todos os pacientes acima de 45-50 anos ou na presença de sinais de alarme (disfagia, vômitos persistentes, perda de peso superior a 10% ou história familiar de câncer gástrico). A ultrassonografia de abdome superior está reservada para cenários em que a dor tem características de origem biliar ou pancreática.
Histopatologia
Uma vez indicada a endoscopia, a biópsia gástrica para pesquisa de H. pylori é essencial. O diferencial do Roma V é a recomendação de biópsias duodenais em casos refratários para quantificar a infiltração eosinofílica, o que pode direcionar terapias experimentais com estabilizadores de mastócitos ou dietas específicas.
Conduta terapêutica
O tratamento da dispepsia funcional deve ser guiado pelo fenótipo predominante e pela presença de infecção. A abordagem geral segue uma hierarquia de evidências:
- Erradicação do pylori: Primeira linha para todos os pacientes positivos, independentemente do fenótipo. Se a erradicação da bactéria resultar em resolução sustentada dos sintomas, o quadro é classificado como “Dispepsia associada ao H. pylori“;
- Inibidores de Bomba de Prótons (IBP): Demonstram maior eficácia na Síndrome da Dor Epigástrica (SDE). Devem ser utilizados na menor dose eficaz por um período de 4 a 8 semanas;
- Procinéticos: São a escolha preferencial para a Síndrome do Desconforto Pós-Prandial (SDP), auxiliando no esvaziamento gástrico e na coordenação antroduodenal;
- Neuromoduladores: Indicados como terapia segunda linha ou para casos com forte componente de hipersensibilidade. Antidepressivos tricíclicos (como a amitriptilina e a nortriptilina) em doses baixas são eficazes na dor, enquanto a mirtazapina é útil em pacientes com SDP e perda de peso associada. Medicações mais específicas, como a buspirona, também podem exercer efeitos favoráveis e casos selecionados, usualmente em contexto especializado;
- Dieta: Há poucas evidências consistentes que apoiem a dieta como terapia específica eficaz na Dispepsia Funcional, mas é razoável se recomendar um maior fracionamento das refeições, bem como a redução do consumo de alimentos com alto teor de gordura e carboidratos fermentáveis;
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Prognóstico
A Dispepsia Funcional é uma condição crônica com curso clínico flutuante. O prognóstico a longo prazo é excelente quanto à sobrevida, sem aumento do risco de malignidade gástrica. No entanto, a qualidade de vida pode ser amplamente impactada. O sucesso terapêutico depende da formação de um bom vínculo médico-paciente, com plena capacitação do paciente acerca da natureza do problema e assertividade na resposta às oscilações características da doença. Cerca de 20-30% dos pacientes apresentam remissão espontânea, enquanto o restante requer acompanhamento contínuo para controle sintomático apropriado.
Resumindo
- A DF é agora classificada como um Distúrbio da Interação Intestino-Cérebro (DIIC).
- A eosinofilia duodenal e a permeabilidade aumentada são os novos alvos da compreensão fisiopatológica.
- O diagnóstico baseia-se nos critérios de Roma V, dividindo-se em SDP (desconforto) e SDE (dor).
- A erradicação do pylori é o passo inicial obrigatório em pacientes infectados.
- O tratamento medicamentoso deve ser fenotípico: IBPs para dor e pró-cinéticos para plenitude.
- Neuromoduladores são ferramentas essenciais para a modulação da hipersensibilidade visceral em casos refratários.
Autoria

Filipe Fernandes Justus
Conteudista de Gastroenterologia do Whitebook e Portal Afya. Médico especializado em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo HC-FMUSP. Atua em ensino médico e assistência ambulatorial e hospitalar.
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