A constipação funcional é uma das condições mais frequentes na pediatria, com impacto significativo na qualidade de vida e alto uso de recursos de saúde. Apesar disso, o manejo ainda é heterogêneo, muitas vezes com tratamento insuficiente ou interrupção precoce.
Na aula apresentada na reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), dedicada às novas diretrizes ESPGHAN/NASPGHAN, o foco foi organizar o cuidado e reduzir a variabilidade na prática clínica.
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Diagnóstico permanece baseado na avaliação clínica
O diagnóstico permanece baseado nos critérios de Roma V, com necessidade de pelo menos dois sintomas no último mês, como baixa frequência evacuatória, retenção fecal, evacuações dolorosas ou massa fecal retal.
Na prática, a anamnese e o exame físico continuam sendo suficientes na maioria dos casos, com investigação adicional apenas em situações de alerta.
Tratamento em etapas orienta o manejo
A organização do tratamento em fases continua sendo central: primeiro, tratar a impactação quando presente; na sequência, iniciar a manutenção com PEG; e, então, ajustar progressivamente conforme a resposta clínica. Mais do que a escolha da medicação, o sucesso depende de dose adequada, tempo de uso suficiente e acompanhamento contínuo.
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PEG segue como base da evidência apresentada
A revisão sistemática apresentada, com mais de 7 mil pacientes, reforça que o polietilenoglicol continua sendo o tratamento com maior evidência e melhor consistência de resposta.
Outras opções, como lactulose ou hidróxido de magnésio, permanecem alternativas, mas com menor robustez.
Terapias recentes exigem leitura cautelosa
Um dos pontos mais relevantes foi a análise crítica das terapias mais recentes. Estudos com prucaloprida e lubiprostona não mostraram benefício consistente em pediatria, sem diferença significativa em relação ao placebo.
Por outro lado, dados mais recentes com linaclotida mostram resultados mais promissores, com aumento na frequência evacuatória em crianças entre 6 e 17 anos. Ainda assim, o uso dessas terapias deve ser considerado com cautela, geralmente em cenários selecionados e após falha das estratégias tradicionais.
Estratégias avançadas dependem de seleção adequada
A neuromodulação sacral surge como uma opção em casos muito selecionados, principalmente em constipação de trânsito lento e refratária. Os estudos ainda são limitados em pediatria, mas sugerem benefícios em subgrupos específicos após avaliação funcional detalhada.
Irrigação transanal: eficaz, mas dependente de adesão
A irrigação transanal é uma estratégia importante em pacientes mais graves, especialmente quando há associação com incontinência. No entanto, a adesão continua sendo o principal desafio. Fatores logísticos, desconforto e barreiras comportamentais impactam diretamente os resultados. Quando bem implementada, pode trazer melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida.
Quando reconsiderar o diagnóstico funcional?
Em lactentes e casos muito refratários, as diretrizes reforçam a importância de reconsiderar o diagnóstico. Situações como doença de Hirschsprung ou distúrbios de evacuação devem ser investigadas com exames como biópsia retal, manometria anorretal ou estudos de trânsito. Esse ponto é fundamental para evitar atraso no diagnóstico de causas orgânicas.
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O que muda na prática clínica?
A principal mudança não está na introdução de novas drogas, mas na forma de conduzir o paciente: estruturar o tratamento em etapas, evitar escalonamento precoce sem adequada otimização, valorizar a adesão como fator central e ampliar a investigação nos casos refratários.
Mensagem prática
A aula do ESPGHAN 2026 reforça alguns pontos centrais para a prática: o uso combinado de laxativos pode ser necessário em determinados pacientes; a linaclotida pode ter papel em casos refratários selecionados; a toxina botulínica apresenta resultados promissores em cenários específicos; e as intervenções cirúrgicas devem ser reservadas para situações muito bem selecionadas. Ainda assim, a principal mensagem permanece simples: o sucesso no tratamento da constipação infantil depende menos da introdução de novas terapias e mais da aplicação consistente de um manejo estruturado.
Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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