A acalasia esofágica é uma doença rara na infância, mas com impacto clínico relevante, principalmente pelo diagnóstico tardio e pelas consequências nutricionais ao longo do crescimento.
Na atualização apresentada no ESPGHAN 2026, o foco foi além das opções terapêuticas isoladas. A discussão trouxe uma mudança conceitual importante: organizar o cuidado de forma estruturada em um cenário de baixa evidência e alta complexidade.
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Diagnóstico da acalasia pediátrica exige confirmação adequada
O diagnóstico deve seguir uma abordagem organizada. O esofagograma contrastado é o exame inicial de escolha em crianças com disfagia, mas não confirma o diagnóstico isoladamente. A confirmação deve ser feita com manometria esofágica de alta resolução, que continua sendo o padrão-ouro.
A endoscopia atua principalmente na exclusão de causas estruturais. Ferramentas como o escore de Eckardt podem auxiliar na avaliação clínica e no seguimento, embora não tenham sido desenvolvidas especificamente para crianças.
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Tratamento busca respostas mais duradouras
As diretrizes deixam claro que não há papel para farmacoterapia como tratamento primário e que a toxina botulínica não deve ser utilizada como primeira linha, devido ao seu efeito transitório.
As principais opções terapêuticas incluem a miotomia endoscópica (POEM), a miotomia cirúrgica, como a Heller minimamente invasiva, e a dilatação pneumática. Entre essas, a miotomia é considerada o tratamento de referência em pediatria por oferecer maior durabilidade de resposta, enquanto a dilatação permanece como alternativa eficaz, embora associada a maior probabilidade de necessidade de reintervenção.
Refluxo após miotomia exige monitoramento sistemático
Um dos pontos mais relevantes da atualização foi a atenção ao refluxo gastroesofágico após miotomia, especialmente após POEM. O refluxo é frequente e deve ser monitorado de forma sistemática. Na maioria dos casos, pode ser manejado com inibidores de bomba de prótons.
Procedimentos antirrefluxo podem ser considerados em situações selecionadas, embora exista preocupação com impacto na motilidade esofágica. Não há indicação de rastreamento rotineiro de complicações pulmonares com tomografia.
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Seguimento deve considerar a transição para o cuidado adulto
A acalasia pediátrica deve ser encarada como uma condição crônica, exigindo acompanhamento contínuo.
O seguimento deve incluir monitorização de crescimento, avaliação de sintomas de refluxo, rastreamento de esofagite e possíveis complicações respiratórias. A abordagem ideal é multidisciplinar e estruturada. Além disso, recomenda-se a realização de pelo menos uma endoscopia antes da transição para o cuidado adulto, que deve ser planejada de forma organizada.
Questões em aberto reforçam a necessidade de padronização
Apesar do avanço na organização do cuidado, várias questões permanecem abertas. Ainda não está definido qual é a melhor estratégia terapêutica entre POEM, Heller ou dilatação em crianças. Há divergências sobre a necessidade de fundoplicatura associada à miotomia e sobre o comprimento ideal da intervenção.
Outros pontos incluem o papel do EndoFLIP, estratégias de manejo da recidiva e os desfechos de longo prazo do refluxo após tratamento.
O consenso pediátrico internacional como principal avanço
O grande diferencial dessa atualização é que, pela primeira vez, há um consenso internacional pediátrico estruturado, desenvolvido por especialistas de múltiplos centros. Além disso, a acalasia pediátrica passa a ser reconhecida formalmente como uma condição crônica que exige seguimento estruturado e transição para o cuidado adulto.
Aplicabilidade no Brasil depende do acesso a centros especializados
No Brasil, o principal desafio é o acesso a centros com expertise em motilidade esofágica e terapias avançadas. A disponibilidade de manometria de alta resolução e POEM ainda é limitada, o que reforça a importância de reconhecer precocemente os casos suspeitos e encaminhar adequadamente. Nesse cenário, o timing do diagnóstico e o encaminhamento correto podem ter mais impacto do que a própria técnica utilizada.
Mensagem prática
O ESPGHAN 2026 traz uma inflexão importante na forma de encarar a acalasia pediátrica: mais do que comparar técnicas, o foco passa a ser a organização e a padronização do cuidado em uma doença rara e complexa.
Na prática, isso se traduz em diagnóstico precoce, confirmação com métodos adequados, escolha de intervenções duradouras, monitoramento sistemático de complicações — especialmente o refluxo — e garantia de seguimento estruturado ao longo da vida. O verdadeiro avanço, portanto, não está apenas na técnica, mas na qualidade e na consistência do cuidado oferecido.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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