Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria6 agosto 2026

Educação em saúde para ITU pediátrica: síntese das melhores evidências

Síntese reúne 42 orientações para diagnóstico, coleta de urina, tratamento, prevenção e acompanhamento da ITU pediátrica
Por Roberta Castro

A infecção do trato urinário (ITU) é uma condição pediátrica comum. Se não for adequadamente prevenida e manejada, pode levar a complicações renais graves em longo prazo. Os pais desempenham papel central nos cuidados domiciliares; por isso, educá-los de forma eficaz é essencial para reduzir o risco de infecções iniciais e recorrentes.

Pesquisadores chineses publicaram, na Frontiers in Public Health, um resumo das melhores recomendações disponíveis ao longo de todo o curso da doença. O artigo “Summary of best evidence on health education for pediatric urinary tract infections” oferece uma estrutura abrangente e centrada no cuidador, com o objetivo de auxiliar profissionais de saúde a fornecer orientações consistentes e baseadas em evidências para a prevenção e o manejo da ITU em pacientes pediátricos.

Saiba mais: Infecção urinária na emergência: quando suspeitar?

Educação em saúde para ITU pediátrica: síntese das melhores evidências

Como as evidências sobre educação em saúde foram selecionadas

O estudo seguiu o modelo de recursos de evidência “6S”. A partir desse modelo, os pesquisadores conduziram uma busca de cima para baixo (top-down) em bases, bibliotecas de diretrizes e fontes de apoio à decisão clínica, incluindo AAP, BMJ Best Practice, CMA, CNKI, CINAHL, Cochrane Library, EMbase, EAU, GIN, MedLive, NGC, NICE, New Zealand Ministry of Health Guidance Library, Ovid MEDLINE, PubMed, RNAO, SinoMed, UpToDate, VIP, Wanfang Data e Web of Science.

Critérios de inclusão

  • Decisões clínicas, diretrizes, resumos de evidências, revisões sistemáticas, metanálises ou consensos de especialistas sobre educação em saúde para ITU pediátrica;
  • versão mais recente das diretrizes;
  • versões preliminares ou experimentais quando diretrizes formais não estivessem disponíveis;
  • publicações em inglês ou chinês.

Critérios de exclusão

  • indisponibilidade do texto completo;
  • interpretações de diretrizes, traduções diretas ou publicações duplicadas.

Foram buscados dados publicados desde a criação das bases até 31 de outubro de 2025. A literatura recuperada foi selecionada e avaliada, de forma independente, por dois revisores. Por fim, as evidências foram extraídas e sintetizadas segundo o sistema de classificação de evidências e recomendações do JBI.

Oito domínios orientam a educação sobre ITU pediátrica

Foram incluídas 14 publicações: cinco diretrizes, quatro decisões clínicas, três consensos de especialistas, um resumo de evidências e uma revisão sistemática. A síntese resultou em 42 declarações distribuídas em oito domínios: conscientização sobre a doença, reconhecimento de sintomas, diagnóstico e avaliação, coleta de amostra de urina, exames de imagem, tratamento e medicação, prevenção de recorrência e orientações de acompanhamento.

Conscientização sobre a doença e sinais de alerta

  • Todas as crianças com febre de origem indeterminada devem ser avaliadas quanto à possibilidade de ITU. Os cuidadores devem ser orientados de que a febre sem causa aparente pode ser o único sinal e deve motivar avaliação médica oportuna, em vez de apenas observação domiciliar.
  • Entre os fatores de risco citados estão anomalias do trato urinário, constipação, disfunção vesico-intestinal, fimose, hospitalização prolongada, ingestão hídrica diária inadequada, sexo feminino em lactentes, prematuridade e procedimentos invasivos. As orientações devem considerar fatores modificáveis, como comportamento miccional, hábitos intestinais, cuidados com a fimose e ingestão de líquidos.
  • Escherichia coli é o patógeno mais comum, responsável por mais de 70% dos casos, seguida por Klebsiella spp., Enterobacter spp. e Proteus spp. A educação deve explicar, em linguagem simples, por que a terapia pode ser ajustada após a urocultura.
  • Infecções graves, como sepse, desidratação, dificuldade para administrar medicamentos em casa, vômitos ou febre persistente por mais de três dias apesar do tratamento padrão são situações que podem indicar hospitalização. Os cuidadores devem receber sinais de alerta claros.
  • A classificação da ITU considera o local da infecção, a frequência de ocorrência, a gravidade e a presença de fatores complicadores. Explicar essa classificação ajuda as famílias a compreender por que a avaliação e o acompanhamento variam entre as crianças.
  • A recorrência ocorre em aproximadamente 30% a 50% das crianças após a primeira ITU. Antes da alta, recomenda-se fornecer um plano de prevenção e acompanhamento por escrito.

Sintomas variam conforme a faixa etária

Os sintomas típicos incluem dor ou dificuldade para urinar, episódios repentinos de enurese, micção frequente, urina com odor forte, urina turva ou presença visível de sangue. Podem ocorrer também febre, calafrios, dor abdominal ou sensibilidade lombar à percussão. Um checklist adequado à faixa etária pode apoiar a orientação sobre quando buscar atendimento.

Em lactentes, os sintomas podem ser atípicos e predominantemente sistêmicos, como déficit de crescimento, diarreia, dificuldade para se alimentar, febre ou hipotermia, icterícia, letargia e vômitos, sem manifestações urinárias específicas. Em menores de 3 meses, a presença ou a ausência de febre não se correlaciona com a gravidade da ITU; por isso, alterações do estado geral devem motivar atendimento precoce.

Diagnóstico e avaliação clínica

A urocultura é apresentada como padrão-ouro para o diagnóstico. Sempre que possível, a urina deve ser coletada antes da administração de antibióticos, com cuidado para evitar contaminação.

  • Crianças com controle esfincteriano, febre e ITU recorrente devem ser avaliadas quanto à disfunção vesico-intestinal.
  • Após o primeiro episódio de ITU febril por patógenos diferentes de Escherichia coli, deve-se avaliar refluxo vesicoureteral (RVU).
  • Em crianças com mais de 1 ano e ITU febril por Escherichia coli, a avaliação para RVU é indicada após o segundo episódio.

Na triagem preliminar, crianças com febre de causa desconhecida acima de 38 °C ou sintomas sugestivos devem passar por avaliação inicial com história clínica, observação de sinais e sintomas e exame físico, complementada por teste rápido de fita urinária.

  • esterase leucocitária e nitrito positivos: alta acurácia diagnóstica;
  • nitrito positivo isoladamente: alta especificidade, mas risco de falso-negativo;
  • esterase leucocitária positiva isoladamente: alta sensibilidade, mas possibilidade de falso-positivo;
  • ambos negativos: geralmente afastam ITU.

Saiba mais: Revisão da European Society for Pediatric Infectious Diseases sobre ITU pediátrica

Coleta de urina exige técnica adequada

As amostras devem ser coletadas ou supervisionadas por equipe treinada. Antes da coleta, deve-se higienizar as mãos, limpar cuidadosamente a região genital com água morna e sabão e secar a área com gaze estéril. A técnica teach-back pode ser utilizada para confirmar a compreensão do cuidador.

Métodos de coleta conforme a idade e o estado clínico

  • Lactentes e crianças pequenas sem controle esfincteriano: preferencialmente cateterismo ou punção vesical suprapúbica. Quando forem necessários métodos não invasivos, utilizar saco coletor de urina e evitar sacos plásticos, algodão, gaze ou absorventes.
  • Pacientes pediátricos febris em mau estado geral: cateterismo ou punção vesical suprapúbica.
  • Crianças com controle esfincteriano: coleta de jato médio após higiene local para triagem; o texto original afirma que o diagnóstico definitivo requer urocultura obtida por cateterismo ou punção suprapúbica.

O texto orienta iniciar a coleta entre 20 e 25 minutos após a alimentação de bebês e crianças pequenas, coordenando os horários para aumentar a chance de sucesso.

As amostras devem ser encaminhadas prontamente. Quando isso não for possível, devem ser armazenadas entre 2 °C e 8 °C ou preservadas com solução de ácido bórico, mantendo viabilidade para cultura por até 24 horas. O horário da coleta e do envio deve ser registrado.

Quando os exames de imagem são indicados

A síntese apresenta a ultrassonografia renal e vesical como exame indicado para rastrear anormalidades estruturais do sistema urinário em pacientes pediátricos com ITU. A finalidade do exame deve ser explicada como triagem de anomalias estruturais, e não como um “teste de gravidade” de rotina para qualquer sintoma.

A cistouretrografia miccional é apresentada como padrão-ouro para o diagnóstico de RVU. Entre as indicações descritas estão o primeiro episódio de ITU febril por bactéria diferente de Escherichia coli, achados ultrassonográficos específicos, o segundo episódio de ITU febril e a avaliação antes de cirurgia antirrefluxo planejada. O exame não é necessário em todos os episódios.

  • Rotina: ultrassonografia renal e vesical de duas a quatro semanas após a primeira ITU;
  • urgência: em lactentes com ITU febril, em até 24 horas, para descartar obstrução do trato urinário;
  • fase aguda: indicada apenas em infecções complicadas ou atípicas, como creatinina elevada, febre persistente por mais de 72 horas de antibioticoterapia adequada, infecção por patógeno diferente de E. coli, oligúria ou sepse.

Tratamento e reavaliação após o diagnóstico

Entre três e cinco dias após o diagnóstico e o início da antibioticoterapia empírica, o estudo recomenda reavaliar a eficácia do tratamento. Os resultados da urocultura devem orientar o ajuste da medicação conforme a suscetibilidade aos antimicrobianos. Se não houver crescimento bacteriano significativo, a terapia empírica deve ser suspensa e outras hipóteses diagnósticas, consideradas.

Diferenciar ITU superior, como pielonefrite, de ITU inferior, como cistite, é fundamental para a seleção do plano terapêutico. A antibioticoterapia empírica deve ser iniciada após a coleta da urocultura, sempre que possível, sem postergar o tratamento quando houver indicação clínica. A escolha inicial considera patógenos comuns e padrões locais de resistência; após a identificação do agente, o esquema deve ser ajustado de acordo com o antibiograma.

Via de administração

  • ITU complicada, com sepse, desidratação grave, vômitos ou dificuldade de adesão: terapia intravenosa, com transição para antibióticos orais quando clinicamente apropriado;
  • ITU não complicada, em criança febril clinicamente estável, que tolera líquidos e medicamentos por via oral e apresenta boa adesão: preferência pela via oral;
  • neonatos: terapia intravenosa durante todo o período de internação.

Duração descrita na síntese

  • ITU febril não complicada: pelo menos sete a dez dias;
  • ITU complicada: pelo menos dez a 14 dias;
  • crianças com mais de 3 meses e ITU inferior: possibilidade de ciclo de cinco dias;
  • neonatos e lactentes menores de 3 meses: tratamento intravenoso por dez a 14 dias.

Os cuidadores devem receber a duração do tratamento por escrito e ser orientados a completar o ciclo, mesmo com melhora dos sintomas, além de comunicar febre persistente, agravamento clínico ou reações adversas.

Saiba mais: Antibioticoterapia de período curto para crianças com infecções do trato urinário

Prevenção de recorrência e cuidados no domicílio

O uso rotineiro de antibióticos para prevenir recorrência após a ITU inicial não é recomendado. A profilaxia pode ser considerada em crianças com RVU moderado a grave, graus III a V, ou infecções febris recorrentes com risco de lesão renal, sempre sob orientação médica.

A disfunção vesico-intestinal é apontada como fator importante na progressão de cicatrizes renais. A identificação e o manejo precoces, incluindo avaliação de constipação, devem integrar as orientações de prevenção. Suplementos alimentares podem ser discutidos apenas como medidas adjuvantes em circunstâncias específicas e não devem substituir acompanhamento ou terapia prescrita.

Higiene, micção e constipação

  • Ensinar higiene delicada do pênis não circuncidado, sem retração forçada do prepúcio, e orientar trocas frequentes de fralda;
  • utilizar diário miccional para registrar horários e volumes de micção, episódios de incontinência, ingestão de líquidos, evacuações e incontinência fecal;
  • programar micções a cada duas ou três horas durante o dia, ensinar postura adequada e micção dupla e garantir acesso a banheiros limpos;
  • identificar e tratar precocemente a constipação, com encaminhamento para manejo padronizado quando persistente;
  • incluir avaliação e suporte nutricional no plano de crianças desnutridas.

O tratamento cirúrgico pode ser considerado em pacientes pediátricos com ITU febril recorrente associada a RVU. Nesses casos, as opções devem ser discutidas por especialistas e não apresentadas como medida preventiva de rotina.

A orientação sobre líquidos e dieta deve ser individualizada. O texto recomenda ingestão adequada de líquidos e, quando pertinente, evitar itens descritos como irritantes vesicais, como cafeína, frutas cítricas, chocolate e corantes alimentares.

Saiba mais: Disfunção vesical e intestinal: uroterapia em crianças e adolescentes

Acompanhamento após a ITU pediátrica

A maioria dos pacientes pediátricos apresenta prognóstico favorável, mas a recorrência é possível. Por isso, as famílias devem receber um cronograma de acompanhamento por escrito, além de orientações sobre conclusão do tratamento, sinais de alerta, prevenção e manejo em longo prazo. A técnica teach-back pode ser utilizada antes da alta.

O acompanhamento descrito inclui avaliações de crescimento e desenvolvimento, hemograma completo, proteína C-reativa e urinálise. A urocultura é indicada na presença de febre ou sintomas de infecção; pacientes assintomáticos não necessitam de monitoramento de rotina. A ultrassonografia renal deve ser repetida conforme a necessidade clínica.

  • Crianças com pielonefrite aguda e/ou RVU: acompanhamento por ultrassonografia renal e vesical após seis meses;
  • exames com radionuclídeos não são necessários de rotina após o primeiro episódio de ITU;
  • crianças com RVU graus IV ou V: cintilografia renal estática com DMSA marcado com tecnécio-99m, pelo menos seis meses após um episódio de ITU febril, para detectar cicatrizes renais.

Mensagem prática

A síntese organiza a educação em saúde para ITU pediátrica desde o reconhecimento dos sintomas até o acompanhamento. Para os profissionais, a principal mensagem é oferecer orientações claras, adequadas à faixa etária e por escrito, confirmar a compreensão dos cuidadores e reforçar sinais de alerta, coleta correta de urina, adesão ao tratamento e prevenção de recorrências.

Autoria

Foto de Roberta Castro

Roberta Castro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Pediatria