No dia 28 de março de 2026, durante o 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado em São Paulo, o Dr. Javier Benedito conduziu uma conferência internacional abordando a infecção do trato urinário (ITU) na infância.
Nesse contexto, destacou que a ITU é uma das principais causas de infecção bacteriana em lactentes, especialmente nos primeiros meses de vida, período em que frequentemente se manifesta de forma inespecífica e com maior risco de evolução grave. Sintomas como febre isolada, irritabilidade, choro inconsolável, distensão abdominal e baixo ganho ponderal são comuns nessa faixa etária em vigência de infecção do trato urinário, exigindo elevado grau de suspeição clínica.
Ademais, acrescentou que, em lactentes menores de 3 meses, a incidência pode atingir 15% a 20%, com maior associação à infecção bacteriana invasiva. Ressaltou também o risco de cicatriz renal após episódios febris, particularmente em crianças menores de 2 anos.

Suspeita clínica conforme a idade
No que concerne à suspeita clínica, pontuou que esta deve ser guiada pela idade. Em lactentes até 2 meses, febre maior ou igual a 38 °C sem foco já é indicação para investigação, especialmente se associada à irritabilidade, letargia ou recusa alimentar. Entre 2 e 12 meses, febre maior ou igual a 38,5 °C sem foco, com sintomas como vômitos ou urina com odor forte, também sugere ITU.
Em crianças maiores, o diagnóstico se torna mais evidente com sintomas urinários, como disúria, urgência e aumento da frequência urinária. A presença de fatores de risco, como prematuridade, ITU prévia, anomalias urinárias e sexo masculino no primeiro ano de vida, também reforça a necessidade de investigação.
Métodos de coleta e confirmação diagnóstica
No que se refere à confirmação diagnóstica, enfatizou-se que a coleta adequada de urina é uma etapa central e determinante. A coleta por saco coletor, apesar de não invasiva e frequentemente preferida pelos cuidadores, apresenta alta taxa de falso-positivos (superior a 90%) e deve ser utilizada apenas como método de triagem para leucocitúria.
Já a punção suprapúbica é considerada o padrão-ouro para obtenção de urina estéril, embora seja um método invasivo e dependente de experiência técnica, com taxa de sucesso variável. Na prática clínica, a cateterização uretral é amplamente utilizada por apresentar alta sensibilidade (95%) e especificidade (99%), além de ser um método relativamente rápido e com boa taxa de sucesso, embora também invasivo e potencialmente desconfortável.
Manejo na emergência pediátrica
Quanto ao manejo, ressaltou que varia conforme a idade e a gravidade: crianças maiores de 2 meses, em bom estado geral, podem ser tratadas ambulatorialmente, enquanto recém-nascidos e lactentes jovens frequentemente requerem abordagem mais cautelosa devido ao maior risco de complicações, como pielonefrite, bacteremia e sepse.
Mensagem Prática
Na emergência pediátrica, a ITU deve ser sempre considerada em lactentes com febre sem foco, especialmente nos menores de 3 meses ou na presença de fatores de risco. Diante de apresentações frequentemente inespecíficas, a decisão de investigar deve ser precoce e baseada na clínica. A coleta adequada de urina é etapa fundamental, sendo decisiva para um diagnóstico confiável e para a condução segura do paciente.