A asma é uma doença respiratória crônica caracterizada pela inflamação das vias aéreas e pela hiperreatividade brônquica, sendo responsável por elevado número de consultas e internações pediátricas.
Nos últimos anos, a vitamina D passou a ser investigada não apenas por sua atuação no metabolismo ósseo, mas também por seu possível efeito imunomodulador. Evidências recentes sugerem que baixos níveis séricos de vitamina D podem estar relacionados ao aumento da inflamação das vias aéreas, à pior função pulmonar e à maior frequência de crises asmáticas.
Nesse sentido, o estudo “The Role of Vitamin D in Severity and Control of Asthma in Children and Adolescents”, publicado em 2026, teve como objetivo avaliar a associação entre os níveis séricos de vitamina D e a gravidade, o controle clínico e os marcadores inflamatórios da asma em crianças e adolescentes, por meio de uma revisão sistemática com meta-análise.
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Como o estudo foi conduzido
Trata-se de uma revisão sistemática e meta-análise registrada na plataforma PROSPERO e conduzida conforme as recomendações PRISMA. Os autores realizaram buscas em bases de dados como PubMed, Embase, Scopus, Web of Science e Cochrane Library, sendo selecionados artigos publicados até maio de 2025.
Foram incluídos estudos envolvendo crianças e adolescentes asmáticos, de 2 a 18 anos, que analisaram a relação entre os níveis de vitamina D, controle da doença, gravidade clínica, função pulmonar e biomarcadores inflamatórios. Os desenhos metodológicos incluíram estudos observacionais e ensaios clínicos randomizados publicados em língua inglesa. Foram excluídos estudos com gestantes e pacientes com comorbidades.
Níveis séricos de vitamina D foram menores em crianças com asma
Foram incluídos 41 artigos, totalizando 7780 participantes, sendo 19 estudos transversais, 13 estudos de caso-controle e 3 de coorte. A meta-análise, por sua vez, foi realizada com 25 estudos. Os autores observaram níveis significativamente menores de vitamina D em crianças com asma quando comparadas aos controles saudáveis, com diferença média de aproximadamente 4,89 ng/mL (IC 95%: −7,38 a −2,40; p < 0,001).
Além disso, a asma grave esteve associada a menores níveis séricos de vitamina D quando comparada à forma leve da doença (−4,21 ng/mL; IC 95%: −6,43 a −1,98; p = 0,0002), e concentrações reduzidas dessa vitamina também se relacionaram a pior controle clínico.
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Marcadores inflamatórios e função pulmonar tiveram resultados variáveis
Alguns estudos identificaram associação entre deficiência de vitamina D e aumento de citocinas inflamatórias, como IL-5, IL-13 e TNF-α, sugerindo possível participação dessa vitamina na modulação da hiperresponsividade das vias aéreas. Esse efeito pode ser explicado por sua ação imunomoduladora, capaz de reduzir mediadores pró-inflamatórios e estimular mecanismos anti-inflamatórios, contribuindo para menor inflamação eosinofílica, redução da síntese de IgE e controle da hiperresponsividade brônquica.
Além disso, a vitamina D parece atuar na integridade epitelial e no remodelamento das vias aéreas, podendo influenciar a função pulmonar. Apesar disso, os autores não observaram diferenças significativas nos níveis de vitamina D entre pacientes com asma controlada e não controlada, e a associação com a função pulmonar mostrou-se fraca e sem significância estatística. Observou-se ainda relação inversa moderada entre vitamina D e IgE total, sem associação consistente com eosinófilos ou IL-10.
De modo geral, os achados sugerem que baixos níveis de vitamina D podem contribuir para desregulação imunológica e maior predisposição a respostas alérgicas em crianças asmáticas, embora os benefícios da suplementação ainda permaneçam controversos.
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Heterogeneidade limita a interpretação dos achados
Os estudos incluídos apresentaram elevada heterogeneidade metodológica e amostras reduzidas, dificultando comparações mais consistentes e limitando a realização de análises quantitativas mais robustas.
Mensagem prática para a avaliação da asma pediátrica
Os resultados sugerem que baixos níveis de vitamina D podem estar associados à maior gravidade da asma pediátrica e a alterações imunológicas relacionadas à doença. Entretanto, devido à heterogeneidade dos estudos e aos resultados ainda inconsistentes sobre suplementação, os autores ressaltam a necessidade de novas pesquisas para esclarecer se a correção da deficiência de vitamina D pode contribuir para melhores desfechos clínicos e imunológicos em crianças e adolescentes asmáticos.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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