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Pediatria2 junho 2026

Coqueluche grave em lactentes: análise multicêntrica em UTIP

Estudo descreve perfil clínico, suporte intensivo e mortalidade em crianças internadas por coqueluche grave em lactantes.

Diversos países têm relatado um aumento acentuado nos casos de coqueluche desde 2023, principalmente em lactentes com menos de 6 meses. Esses bebês apresentam maior risco de desenvolver coqueluche grave em lactentes, quadro que pode requerer internação em unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP) e ventilação mecânica (VM), além de complicações graves, como apneia, hipertensão pulmonar, hiperleucocitose, insuficiência respiratória e disfunção de múltiplos órgãos. 

Nesse contexto e com base em evidências prévias que associam leucocitose à coqueluche grave, pesquisadores do Gulf Cooperation Council (GCC) conduziram um estudo retrospectivo multicêntrico com o objetivo de descrever as características clínicas, o manejo em terapia intensiva e os desfechos de crianças com coqueluche grave entre os anos de 2022 e 2024. O artigo Critical Pertussis in the PICU: Multinational Study in the Gulf Cooperation Council Region, 2022–2024 foi publicado na Pediatric Critical Care Medicine. 

Saiba mais: Coqueluche: o que você precisa saber sobre esta doença respiratória pediátrica 

Como o estudo avaliou Bordetella pertussis e casos graves? 

A equipe do GCC coletou os dados de 35 UTIP em seis países do próprio conselho. Foram incluídos todos os pacientes com idade igual ou inferior a 16 anos com coqueluche confirmada por laboratório (reação em cadeia da polimerase [PCR] para Bordetella pertussis e Bordetella parapertussis) e/ou cultura específica para coqueluche, desde que tivessem permanecido na UTIP por, no mínimo, seis horas. 

B. parapertussis geralmente causa uma doença mais leve; no entanto, ela foi incluída por ser clinicamente indistinguível e por ser associada a casos graves. Foram excluídos pacientes com apenas diagnóstico clínico ou apenas teste sorológico devido à confiabilidade limitada em lactentes, em função da interferência de anticorpos maternos e da resposta tardia. Nenhuma intervenção foi realizada. 

Hiperleucocitose na coqueluche marcou quase metade dos casos 

No período do estudo, foram identificados 204 casos de coqueluche grave. A idade mediana dos pacientes foi de 53 dias e a maioria (91,2%) era saudável antes da admissão na UTIP. As comorbidades encontradas incluíram cardiopatia congênita acianótica (3,9%) ou doença respiratória (2,9%). 

Um total de 49,5% apresentou hiperleucocitose (> 30 × 10⁹/L). As principais causas de internação foram insuficiência respiratória (47,6%) e apneia (28,4%). Somente 4,1% dos bebês tinham mães vacinadas durante a gestação e 17,3% haviam sido vacinados contra coqueluche. 

As estratégias de manejo da coqueluche grave variaram substancialmente entre os países, principalmente em relação às abordagens de leucorredução: a exsanguineotransfusão foi a técnica predominante, realizada em 47 dos 56 pacientes submetidos a esses procedimentos, geralmente em uma única sessão (37/47). A leucaférese foi efetuada com menos frequência (9/204 casos; 4,4%). 

O suporte respiratório foi comumente necessário, com o uso de cânula nasal de alto fluxo (CNAF) em mais da metade dos pacientes (118/204; 57,8%). Cerca de um terço dos pacientes necessitou de VM (71/204; 34,8%). Com relação aos pacientes intubados, 35/71 foram submetidos à VM prolongada com duração igual ou superior a sete dias. Três pacientes fizeram uso de oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO). O óxido nítrico inalado foi administrado em 21/204 (10,3%) pacientes. Já os corticosteroides, em 24/204 (11,8%). 

No geral, o suporte inotrópico e a infusão vasoativa foram necessários em 45/204 pacientes (22%). 

Com relação à antibioticoterapia, quase todos os pacientes receberam macrolídeos (99%). O uso de outras classes de antimicrobianos foi prevalente (158/204; 77,5%), sendo as cefalosporinas de terceira geração os antimicrobianos mais frequentemente prescritos (128/158; 81%), seguidas pelos agentes anti-Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) (60/158; 38%) e pelo meropenem (38/158; 24%). 

A duração mediana da internação na UTIP foi de cinco dias e, no hospital, de nove dias. Por fim, a mortalidade geral foi de 15,2%, atribuída principalmente ao choque séptico e à insuficiência respiratória. 

Saiba mais: Mortalidade por coqueluche em lactentes 

Vacinação materna contra coqueluche reforça estratégia de prevenção em lactentes 

A análise revelou que a coqueluche grave afeta predominantemente lactentes jovens, com morbidade e mortalidade substanciais. Em toda a região, as práticas de manejo, incluindo técnicas de leucorredução e estratégias de fluidoterapia, foram bastante variáveis. Dessa forma, os resultados destacam lacunas nas estratégias de prevenção e manejo da coqueluche grave, sendo necessário um consenso futuro na prática clínica. 

Mensagem prática 

Esse estudo traz implicações importantes para a prática clínica pediátrica no Brasil, principalmente em meio ao recente ressurgimento de casos de coqueluche e à queda considerável na cobertura vacinal. As baixas taxas de vacinação durante a gravidez mostradas nos resultados deste estudo ressaltam o papel do fortalecimento dos programas de imunização materna na gestação, o que protege os bebês até que eles possam concluir a vacinação. Além disso, as elevadas morbidade e mortalidade reforçam a necessidade de reconhecimento precoce de quadros graves de coqueluche na infância. 

Saiba mais: Estudo avalia se vacinação materna contra coqueluche é efetiva em lactentes. 

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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