Durante a mesa-redonda “Suporte nutricional do recém-nascido”, realizada em 5 de junho no 20º Congresso Brasileiro de Gastroenterologia e Hepatologia Pediátrica, o 6º Congresso Brasileiro de Nutrologia Pediátrica e o 1º Congresso Brasileiro de Suporte Nutricional, as médicas Grasiela Bossolan e Vanessa Liberalesso destacaram que a nutrição adequada do recém-nascido pré-termo (RNPT) é determinante para a sobrevida, o crescimento e o desenvolvimento neurológico adequado.
Nutrição enteral precoce foi destacada na discussão
A Dra. Grasiela Bossolan ressaltou que a introdução precoce da nutrição enteral deve ser sempre estimulada, por favorecer a maturação gastrointestinal, a colonização intestinal benéfica e a redução do risco de infecções. Nesse contexto, o colostro nas primeiras horas de vida foi destacado como importante ferramenta de imunomodulação. Segundo a especialista, evidências da Cochrane Neonatal demonstram que a nutrição enteral trófica precoce, em torno de 24 mL/kg/dia nos três primeiros dias de vida, assim como a introdução precoce de volumes maiores, não aumenta o risco de enterocolite necrosante (ECN), estando associada à redução do tempo de internação e à maior rapidez para atingir alimentação plena.
Ainda nesse cenário, foi reforçada a segurança da progressão alimentar mais rápida, com aumentos de 35 a 40 mL/kg/dia, quando comparada à progressão mais lenta de 20 mL/kg/dia, sem aumento de mortalidade ou de ECN. A via gástrica permanece como a principal forma de administração da dieta enteral, e intervalos menores entre as refeições podem favorecer a evolução clínica.
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Leite humano e transição para via oral no prematuro
Quanto ao tipo de dieta, a especialista enfatizou que o leite humano segue como primeira escolha nos prematuros devido aos seus efeitos imunológicos e à proteção contra infecções e ECN. Na ausência, pontuou que fórmulas hidrolisadas podem ser utilizadas temporariamente, embora os benefícios em desfechos clínicos maiores ainda sejam inconsistentes. Em relação à transição da alimentação por sonda para a via oral, foi ressaltado que ela deve considerar a estabilidade clínica do recém-nascido, além da idade gestacional e do peso. Na prática, é geralmente iniciada quando o recém-nascido apresenta bom estado geral, peso entre 1.500 e 1.800 g e idade gestacional acima de 31 semanas. A sucção não nutritiva foi apontada como estratégia que favorece o ganho ponderal. Por outro lado, o uso precoce de mamadeiras deve ser evitado durante o estabelecimento do aleitamento materno, devido ao impacto negativo nas taxas de amamentação exclusiva.
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Quando considerar nutrição parenteral no RNPT?
No que se refere à nutrição parenteral, a Dra. Vanessa Liberalesso destacou seu papel essencial em prematuros muito pequenos ou incapazes de atingir necessidades nutricionais por via enteral, além daqueles que estão em dieta enteral e precisam interrompê-la por 48 horas ou mais. As recomendações incluem início na admissão da UTI para recém-nascidos com menos de 31 semanas ou peso inferior a 1.250 g. Para aqueles entre 31 semanas e 33 semanas e 6 dias, com 1.250 a 1.499 g, a indicação ocorre se não houver progressão adequada da dieta enteral após três dias. Já em prematuros acima de 34 semanas e com peso superior a 1.500 g, a nutrição parenteral deve ser reservada para situações como doença crítica ou malformações. A suspensão deve ser gradual.
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Vigilância metabólica e síndrome de realimentação neonatal
Nesse contexto de nutrição no prematuro, também foi abordada a síndrome de realimentação neonatal, complicação metabólica potencialmente grave que pode ocorrer após aumento da oferta nutricional em recém-nascidos previamente desnutridos ou restritos. Os principais grupos de risco incluem prematuros extremos, recém-nascidos com peso inferior a 1.500 g, restrição de crescimento intrauterino e pequenos para a idade gestacional. A monitorização precoce de fósforo, potássio e magnésio durante a primeira semana de vida foi enfatizada como essencial para identificação e manejo dessas alterações.
Mensagem prática para a condução nutricional do RNPT
Em síntese, as especialistas reforçaram que o suporte nutricional do recém-nascido pré-termo deve ser iniciado precocemente e conduzido de forma individualizada, com base em evidências atuais que sustentam a progressão segura da nutrição enteral, a prioridade do leite humano e o uso criterioso da nutrição parenteral. A vigilância metabólica rigorosa, especialmente em prematuros de maior risco, é fundamental para prevenir complicações como a síndrome de realimentação neonatal e otimizar os desfechos clínicos.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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