A enterocolite necrosante (necrotizing enterocolitis – NEC) neonatal é uma emergência gastrointestinal grave em unidades de terapia intensiva neonatal (UTIN); afeta particularmente recém-nascidos (RN) prematuros e de muito baixo peso ao nascer (MBPN), e está associada a alta mortalidade, hospitalização prolongada e complicações em longo prazo, como a síndrome do intestino curto.
Embora a transfusão de concentrado de hemácias (TCH) seja comumente utilizada no tratamento da anemia e melhore a oferta de oxigênio, ela tem sido associada a possíveis complicações, incluindo a NEC. No entanto, a relação causal ainda é incerta e baseia-se, principalmente, em evidências observacionais.
Uma revisão sistemática com metanálise realizada na China avaliou se a TCH está associada à progressão ou exacerbação da NEC, trazendo evidências que podem auxiliar na orientação da conduta clínica e na melhoria dos desfechos em neonatologia. O estudo foi publicado no periódico Annals of Medicine.
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Como a revisão sistemática foi conduzida
Os autores utilizaram as bases de dados PubMed, Cochrane Library, EBSCO, Embase, Google Scholar e Web of Science em busca de estudos sobre TCH e NEC publicados até 10 de maio de 2025.
A pesquisa incluiu estudos de caso-controle, estudos de coorte ou ensaios clínicos randomizados (ECR) em língua inglesa que envolvessem RN com NEC, comparassem a TCH com a não transfusão e relatassem alterações no estado clínico da NEC. Foram excluídos artigos de revisão, editoriais, estudos com dados incompletos, estudos em animais, publicações duplicadas, relatos de caso e revisões sistemáticas.
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Achados em recém-nascidos com NEC
Foram incluídos cinco estudos observacionais envolvendo 971 RN. Os pesquisadores observaram uma possível associação entre a TCH e o agravamento da NEC, embora não tenham sido identificados ECR controlados (odds ratio: 6,05; intervalo de confiança de 95% [IC 95%]: 3,02–12,14).
Um modelo de efeitos aleatórios foi aplicado devido à heterogeneidade substancial. As análises de sensibilidade sugeriram que a associação permaneceu significativa após a remoção sequencial de estudos e depois de exclusões exploratórias baseadas em diferenças de peso ao nascer ou idade gestacional. No entanto, os pesquisadores ressaltaram que esses achados de subgrupos devem ser interpretados com muita cautela, pois foram baseados em poucos estudos.
Por fim, não foi detectada evidência significativa de viés de publicação, porém a certeza global da evidência foi classificada como muito baixa devido ao delineamento observacional, às diferenças basais entre os estudos e à heterogeneidade.
O que o estudo sugere para a prática em neonatologia
O estudo concluiu que a TCH pode estar associada à exacerbação da NEC no RN. No entanto, os limiares, o momento e o volume ideais de transfusão nesta população específica precisam de avaliação adicional.
O artigo traz subsídios para pesquisas futuras, apesar de as evidências atuais serem insuficientes para estabelecer uma relação de causalidade. Portanto, ainda são necessários estudos de grande porte e bem delineados para esclarecer melhor a relação entre a TCH e o agravamento da NEC.
Achei muito importante esse estudo para a prática clínica em neonatologia porque reforça que a TCH em RN com NEC deve ser considerada como uma intervenção clínica, não sendo neutra, principalmente nos bebês de alto risco. Mesmo não podendo estabelecer uma relação de causalidade, a associação observada destaca a necessidade de uma avaliação cuidadosa do risco-benefício à beira-leito. Para a rotina, essa pesquisa sugere uma estratégia transfusional mais cautelosa e otimizada para RN com NEC. Ao mesmo tempo, ela enfatiza a necessidade de estudos maiores e bem delineados para definir práticas transfusionais mais seguras nesta população.
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Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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