Faringite aguda ainda é uma das principais de causas de prescrição exagerada de antibióticos, pois a maior parte dos quadros decorrem de infecções virais (ex. por adenovírus, vírus Epstein-Barr e Coxsackievirus). Ao mesmo tempo o receio de não tratar e evoluir com complicações supurativas (ex. otite média aguda (OMA), sinusite e/ou abscesso parafaríngeo/peritonsilar) ou não supurativas (ex. febre reumática e glomerulonefrite pós-infecciosa) impulsiona o uso da antibioticoterapia. Um consenso prévio do Instituto Nacional de Saúde Italiano já preconizava que só pacientes com evidência microbiológica de estreptococo fosse tratado, mas boa parte dos pediatras tratava baseado só na clínica apresentada. Para promover a adequada prescrição e uso de antibioticoterapia em pacientes ambulatoriais pediátricos com faringite aguda, foi feito um consenso italiano entre sociedades médicas que foi publicado no Italian Journal of Pediatrics em 2024. Destacaremos as principais contribuições deste consenso neste artigo.
Metodologia para o consenso sobre o tratamento de faringite aguda
Foi baseado em revisão sistemática da literatura atual seguindo a metodologia GRADE e o checklist PRISMA. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados, estudos observacionais e revisões sistemáticas com ou sem metanálise sobre antibioticoterapia em crianças maiores de um ano mês com faringotonsilite aguda das bases de dados Embase, Scopus, PubMed e Cochrane de 2012 a abril de 2024.
Foram considerados os seguintes desfechos:
- Persistência dos sintomas no 3º dia e no fim da terapia (resultado importante);
- Complicações dentro de dois meses: febre reumática aguda (FR), glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica (GNPE), abscesso periamigdaliano dentro de dois meses (resultado crítico);
- Risco de recorrência dentro de 28–42 dias (resultado importante).
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Resultados
1. A faringite pelo estreptococo β-hemolítico do grupo A deve ser tratada com antibióticos?
Sim, pois está associada à redução dos sintomas agudos no terceiro dia, com risco relativo (RR) de 0,58 (IC 95% 0,48 a 0,71; NNT=6), e no dia 7, com um RR de 0,29 (IC 95%, 0,12 a 0,70). Ao mesmo tempo que reduz significativamente a probabilidade de desenvolver complicações supurativas (ex. OMA e abscesso periamigdaliano) e febre reumática.
2. A amoxicilina deve ser considerada o antibiótico de escolha no tratamento da faringite estreptocócica além da penicilina V e qual é a melhor dose de amoxicilina para faringite?
Sim na dose de amoxicilina de 50 mg/kg/dia de 12/12 horas, porque tem menor chance de eventos adversos comparando com a azitromicina.
3. A duração da antibioticoterapia para faringite estreptocócica pode ser < 10 dias?
Na ausência de evidências robustas sobre a eficácia e segurança de diferentes durações de terapia para reduzir o risco de complicações supurativas e não supurativas, recomenda-se amoxicilina por 10 dias em crianças com faringoamigdalite estreptocócica mesmo em regiões com baixa incidência de FR.
4. Em crianças alérgicas à penicilina, qual(is) antibiótico(s) prescrever para faringite estreptocócica?
Se o paciente não tiver uma investigação alergológica, escolher entre cefalosporina de 3ª geração ou azitromicina. Já se tiver suspeita de alergia à amoxicilina e baixo risco de uma reação alérgica, prescrever uma cefalosporina de 3ª geração por 5 dias, restringindo o uso de azitromicina a pacientes com alto risco de reações alérgicas graves.
5. Qual é a antibioticoterapia de 1ª linha para faringite estreptocócica recidivante apesar de vários ciclos de amoxicilina?
No caso de amigdalite estreptocócica recidivante, prescrever antibioticoterapia apenas em pacientes candidatos à amigdalectomia, como tentativa de evitar cirurgia. (amoxicilina + clavulanato ou associar amoxicilina à rifampicina nos últimos 4 dias de tratamento (baixa qualidade de evidência/recomendação fraca).
6. Quando prescrever penicilina benzatina ao invés de amoxicilina?
Só prescrever para pacientes com má absorção gastrointestinal, incapacidade de tomar medicação via oral ou em caso de má adesão ao tratamento oral, principalmente em pacientes com alto risco de complicações supurativas (ex. pacientes com imunodeficiência primária ou secundária).
7. É recomendado fazer antibioticoterapia para faringite bacteriana não estreptocócica (ex. Fusobacterium spp., outros anaeróbios, Staphylococcus aureus etc.)?
Se o paciente não tiver comorbidades, não é recomendado tratar. Se considerarem apropriado fazer antibioticoterapia, é importante discutir com infectologista.
Conclusão
O consenso não detalha a forma de diagnóstico de tratamento da faringite estreptocócica, mas reforça a importância de evidência microbiológica positiva e ratifica por meio de revisão de literatura atual que a amoxicilina 50 mg/kg/dia de 12/12 horas via oral por 10 dias é o tratamento de primeira linha para faringite estreptocócica.
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