A hiperbilirrubinemia indireta prolongada (HBIP) em recém-nascidos (RN) é geralmente benigna e frequentemente associada à icterícia do leite materno. No entanto, é importante descartar causas patológicas, como incompatibilidade sanguínea, deficiência de G6PD, hipotireoidismo congênito, infecção do trato urinário (ITU), distúrbios metabólicos e outras condições.
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Até o momento, não existe um tratamento farmacológico padrão. O ácido ursodesoxicólico (AUDC) tem sido investigado como uma alternativa potencial para acelerar a redução da bilirrubina, devido aos seus efeitos no fluxo biliar e na proteção dos hepatócitos. Todavia, as evidências sobre seu uso nessa condição ainda são limitadas e exigem mais investigações. Dessa forma, um estudo realizado no Irã teve como objetivo investigar o impacto do AUDC na HBIP em RN prematuros e a termo.
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Como o estudo foi conduzido
O grupo de pesquisa conduziu um estudo controlado e randomizado (ECR) com lactentes com icterícia neonatal induzida pelo leite materno e HBIP em Rasht, Irã, no período de julho de 2023 a julho de 2024.
Foram incluídos todos os RN prematuros com mais de 21 dias de vida e RN a termo com mais de 14 dias, apresentando bilirrubina sérica total (BST) ≥10 mg/dL e bilirrubina direta (BD) <1 mg/dL.
Os critérios de exclusão foram: BD ≥1 mg/dL; evidência clínica de hipotireoidismo ou alterações nos níveis de hormônio estimulante da tireoide (TSH) e tiroxina livre (T4); evidência clínica de infecção; ITU confirmada laboratorialmente; cefalohematoma ou organomegalia; presença de substâncias redutoras na urinálise (sugestivo de galactosemia); exames de função hepática alterados; uso de fenobarbital ou de qualquer agente químico ou fitoterápico para redução da bilirrubina; suspeita de obstrução intestinal; estado crítico do RN (febre, diminuição dos reflexos neonatais, hipo ou hipertermia, sinais vitais instáveis); fototerapia domiciliar durante o estudo; níveis elevados de BST com indicação de fototerapia; e recusa dos pais em participar.
Os participantes foram recrutados por meio de amostragem consecutiva e alocados aleatoriamente nos grupos controle (GC) ou de intervenção (GI):
- GI: recebeu AUDC 10 mg/kg/dia durante 5 dias;
- GC: não recebeu intervenção e foi apenas observado.
Os níveis de bilirrubina e a tipagem sanguínea (sistemas ABO e Rh) foram avaliados nos dias 1 e 5.
O que foi observado nos níveis de bilirrubina
Foram incluídos 58 pacientes (29 em cada grupo). Ambos os grupos tiveram redução significativa nos níveis de bilirrubina ao longo de cinco dias (p<0,001):
- GC: 12,26 ± 1,65 para 10,09 ± 2,74 mg/dL;
- GI: 11,96 ± 1,48 para 9,07 ± 3,45 mg/dL.
A redução média da bilirrubina não apresentou diferença estatisticamente significativa entre os grupos (P = 0,323):
- GC: 2,17 ± 2,50 mg/dL;
- GI: 2,89 ± 3,00 mg/dL.
No quinto dia, os níveis de bilirrubina foram (P = 0,216):
- GC: 10,09 ± 2,74 mg/dL;
- GI: 9,07 ± 3,45 mg/dL.
A incompatibilidade ABO associou-se a níveis mais baixos de bilirrubina no quinto dia no GI (7,26 ± 2,33 vs. 9,76 ± 3,61 mg/dL; P = 0,041). Já a incompatibilidade Rh correlacionou-se a uma maior redução da bilirrubina ao longo de cinco dias (4,98 ± 1,54 vs. 2,45 ± 3,07 mg/dL; P = 0,025).
Mensagem prática para a Pediatria
O estudo mostrou que, em comparação com o grupo controle, um ciclo de cinco dias de AUDC não teve efeito significativo na BST em lactentes com HBIP. Inclusive, os pesquisadores recomendam estudos adicionais com amostras maiores ou durações de tratamento mais longas para avaliar com maior precisão o efeito deste fármaco nessa população.
Na prática, esse estudo sugere que o AUDC por cinco dias não reduziu significativamente a BST em comparação à conduta expectante e, portanto, não deve ser incorporado de rotina ao manejo da HBIP. Dessa forma, é importante manter as condutas atuais de excluir causas patológicas, acompanhar a evolução e evitar medicamentos prescritos no bebê para tratar a ansiedade dos pais.
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Além disso, a amostra é pequena e isso já é uma limitação importante, inclusive para se tirar conclusões sobre a segurança do AUDC. O estudo é relevante, mas seus resultados ainda são insuficientes para mudar a prática clínica.
Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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