Quase 1,8 bilhão de pessoas menstruam mensalmente em todo o mundo, sangrando em média 65 dias por ano. Em países de baixa e média renda, aproximadamente 12% das pessoas utilizam materiais reutilizáveis para higiene menstrual, frequentemente panos ou tecidos improvisados, prática associada a menor escolaridade, menor nível socioeconômico e menor produto interno bruto nacional.
Os coletores menstruais são dispositivos inseridos na vagina para coleta do fluxo menstrual, podendo permanecer por até 12 horas antes do esvaziamento. Existem modelos vaginais em formato de sino e modelos cervicais em formato de disco. A maioria é reutilizável e produzida em silicone médico, borracha, látex ou elastômeros.
Atualmente, esses dispositivos vêm ganhando popularidade devido ao conforto, à sustentabilidade ambiental e à redução de custos a longo prazo. Estudos iniciais de segurança demonstraram ausência de alterações ou abrasões vaginais significativas e ausência de mudanças relevantes na flora vaginal associadas ao uso do coletor. Revisões sistemáticas anteriores já haviam demonstrado poucos problemas de segurança relacionados ao uso do coletor menstrual, além de frequência semelhante ou menor de vazamentos em comparação com outros métodos menstruais.
Mas será que o uso de coletores menstruais pode contribuir para a redução de infecções e a manutenção de um microbioma vaginal saudável? Diante disso, foi conduzida uma revisão sistemática publicada na EBioMedicine a fim de tentar responder a essa dúvida.
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Metodologia – Como a revisão sistemática avaliou infecções e microbioma vaginal
Foi conduzida uma revisão sistemática com metanálise registrada no PROSPERO (CRD42024559595) e elaborada conforme as recomendações do PRISMA. Os autores realizaram buscas nas bases PubMed, CINAHL, Global Health e Scopus desde a criação das bases até janeiro de 2026. Foram incluídos estudos observacionais e ensaios clínicos que avaliassem o uso de coletores menstruais associado a desfechos laboratoriais relacionados a infecções do trato reprodutivo, ISTs e microbioma vaginal.
Foram incluídos 11 estudos envolvendo 10.268 participantes de diferentes países, incluindo Quênia, Tanzânia, Dinamarca, França, Bélgica, Brasil e Estados Unidos. As análises foram apresentadas utilizando a razão de prevalência (PR) e modelos de efeitos fixos para cálculo das estimativas agrupadas.
Principais achados sobre ISTs, vaginose bacteriana e Lactobacillus crispatus
A revisão demonstrou que o uso do coletor menstrual não aumentou o risco de nenhuma das infecções avaliadas; porém, foi associado à menor prevalência de infecções sexualmente transmissíveis (aPR 0,74 [IC95% 0,60–0,91]), HSV-2, HIV e vaginose bacteriana (PR 0,79 [IC95% 0,69–0,90]). Além disso, usuárias de coletor menstrual apresentaram maior probabilidade de microbioma vaginal dominado por Lactobacillus crispatus (CST-I), considerado padrão protetor (PR 1,19 [IC95% 1,11–1,27]).
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Comentários e implicações clínicas
Este estudo trouxe evidências relevantes para a saúde menstrual e a saúde sexual, especialmente porque, durante muitos anos, os coletores menstruais foram cercados por preocupações relacionadas à segurança, à infecção e às alterações do microbioma vaginal.
O trabalho reforça que o coletor menstrual não apenas parece seguro, mas também apresenta associação com possíveis benefícios para a saúde vaginal. O achado mais interessante talvez seja a associação consistente entre o uso do coletor e a maior predominância de Lactobacillus crispatus, bactéria central na proteção contra vaginose bacteriana, ISTs e até risco aumentado de HIV.
Outro ponto importante é que os benefícios foram observados tanto em países de alta quanto de baixa renda, sugerindo que os efeitos não dependem apenas de diferenças socioeconômicas ou de acesso à higiene.
Entretanto, os estudos utilizados apresentam limitações importantes, principalmente o número reduzido de estudos de alta qualidade e a concentração de parte das evidências sobre ISTs em populações específicas do Quênia.
Mensagem prática sobre coletor menstrual e microbioma vaginal
O principal ponto deste trabalho foi reforçar a segurança do uso do coletor menstrual, uma vez que não foi observado aumento do risco de infecções vaginais, ISTs ou síndrome do choque tóxico. O estudo também levanta apontamentos sobre possíveis impactos positivos, como menor prevalência de vaginose bacteriana e possível efeito protetor sobre o microbioma vaginal, favorecendo o predomínio de Lactobacillus crispatus.
Autoria
Sérgio Okano
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