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Saúde11 fevereiro 2026

Saúde com Axé: prevenção do câncer, equidade racial e diálogo entre saberes

Material do INCA articula prevenção oncológica e saberes tradicionais para enfrentar desigualdades históricas no cuidado à saúde

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) acaba de lançar a cartilha Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer, um material educativo que propõe uma abordagem inovadora na promoção da saúde ao integrar informações científicas consolidadas sobre prevenção oncológica aos saberes tradicionais das religiões de matriz africana. Voltada prioritariamente às mulheres negras, a publicação também oferece reflexões fundamentais para médicos, estudantes de medicina e profissionais da saúde sobre como o racismo (inclusive o religioso) atua como determinante social e impacta diretamente o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e aos desfechos clínicos.

Mais do que um instrumento informativo, a cartilha parte do reconhecimento de que desigualdades estruturais moldam trajetórias de adoecimento. Para a pesquisadora e doutora em Saúde Pública com ênfase em Epidemiologia, Emanuelle Góes, o racismo institucional se traduz em falhas sucessivas ao longo do cuidado, que acabam resultando em maior mortalidade, mesmo quando a incidência de determinadas doenças é semelhante entre mulheres negras e brancas. “Podemos até não observar grandes diferenças nas taxas de incidência de câncer de colo do útero ou de mama, mas os estudos mostram piores desfechos e maior letalidade entre mulheres negras. Isso está diretamente relacionado à qualidade de vida, ao acesso oportuno aos serviços e às falhas acumuladas no processo de cuidado”, explica.

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Quando a desigualdade impacta o diagnóstico?

Disponível gratuitamente na internet, a cartilha apresenta, em linguagem acessível e dialogada, os tipos de câncer mais frequentes entre mulheres negras, como câncer de mama, de colo do útero e colorretal, além de abordar sinais de alerta, fatores de risco, hábitos protetores e a importância da realização periódica de exames preventivos. A detecção precoce, reforça o material, continua sendo uma das estratégias mais eficazes para reduzir mortalidade e complicações associadas à doença.

A publicação é resultado da pesquisa Promoção da Saúde e Prevenção do Câncer em Mulheres Negras, desenvolvida entre 2023 e 2025 por pesquisadoras do INCA em parceria com mulheres dos terreiros do Rio de Janeiro. O objetivo foi construir um material que dialogasse com a realidade cultural, social e religiosa dessas comunidades, reconhecendo os terreiros como espaços históricos de cuidado, acolhimento e promoção da saúde.

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Do ponto de vista epidemiológico, a proposta responde a desigualdades amplamente documentadas. Dados do INCA e do Ministério da Saúde indicam que mulheres negras, em média, recebem diagnóstico de câncer em estágios mais avançados e apresentam piores prognósticos. Para Dra. Emanuelle, esses desfechos não podem ser compreendidos de forma simplificada. “Mesmo quando mulheres negras apresentam status socioeconômico semelhante ao de mulheres brancas, inclusive na rede privada, os indicadores seguem piores. Isso mostra que não se trata apenas de classe social, mas de um conjunto de vulnerabilidades produzidas pelo racismo estrutural”, afirma.

Comunicação em saúde como estratégia de equidade

Um dos diferenciais centrais da cartilha é o investimento em comunicação em saúde culturalmente sensível. As referências à mitologia iorubá e às yabás — orixás femininas — funcionam como metáforas para o autocuidado, a integralidade do corpo e a valorização da vida. Essa escolha não substitui nem se contrapõe ao cuidado biomédico, mas atua como estratégia de aproximação e fortalecimento de vínculo.

Segundo Dra. Emanuelle, a forma como a informação é transmitida influencia diretamente a relação das pessoas com os serviços de saúde. “A comunicação em saúde é um dos pilares da saúde pública. Ela não pode ser universalizada a partir de uma única experiência, geralmente branca. Imagem, linguagem e representação definem se uma pessoa vai se aproximar ou se afastar do serviço”, explica. Para populações historicamente negligenciadas, como mulheres negras, estratégias sensíveis à cultura e à corporeidade são fundamentais para adesão, prevenção e continuidade do cuidado.

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A cartilha também aborda práticas reconhecidas pela ciência, como o papel da amamentação na redução do risco de câncer de mama, e discute de forma clara a prevenção do câncer de colo do útero, articulando vacinação contra HPV, exame preventivo e diagnóstico precoce. “O câncer de colo do útero é uma doença evitável e tratável, mas ainda extremamente associada às desigualdades. Quando ele evolui para câncer invasivo, é porque diversos mecanismos de prevenção falharam”, pontua a infectologista. No Brasil, as maiores taxas de mortalidade seguem concentradas nas regiões Norte e Nordeste, atingindo de forma desproporcional mulheres indígenas e negras.

Para a Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), que participou da construção da cartilha, os terreiros sempre exerceram papel ativo na promoção da saúde, especialmente em territórios periféricos. Práticas como uso de ervas, chás, banhos e cuidados com a saúde íntima coexistem, para essas comunidades, com a busca pelos serviços do SUS. A cartilha não propõe substituir tratamentos médicos, mas fortalecer pontes entre saberes, favorecendo adesão e continuidade do cuidado.

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Saúde com Axé: prevenção do câncer, equidade racial e diálogo entre saberes

Ilustração de freepik

O que médicos e estudantes precisam reaprender?

Para médicos e estudantes de medicina, Saúde com Axé funciona como um convite à revisão crítica de práticas, vieses e modelos de formação. Reconhecer que o racismo atravessa o cuidado não significa biologizar a raça, mas compreender como fatores históricos, sociais e culturais influenciam riscos, acesso e desfechos.

A Dra. Emanuelle destaca que a própria formação médica ainda carrega marcas do racismo científico. “A ciência moderna apagou culturas e modos de cuidado, desumanizando corpos negros e indígenas. Muitos profissionais foram formados dentro desse paradigma e atuam, muitas vezes, a partir de vieses raciais implícitos ou explícitos”, afirma. Para ela, a cartilha representa um movimento de ruptura: “Esse material oportuniza aprender com outros saberes e combinar conhecimentos. É assim que se constrói um cuidado integral, ético e verdadeiramente equânime para as mulheres negras”.

Ao integrar ciência, cultura e território, Saúde com Axé reforça uma mensagem central: prevenir o câncer também exige enfrentar desigualdades estruturais que adoecem antes mesmo do diagnóstico. Para a prática médica contemporânea, esse é um aprendizado que não pode mais ser tratado como periférico, mas como parte essencial do cuidado.

Doutora Emanuelle Góes é autora dos artigos:

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*Este artigo foi revisado pela equipe médica do Portal Afya.

Autoria

Foto de Roberta Santiago

Roberta Santiago

Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.

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