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Oncologia26 outubro 2026

LUMINOSITY reforça telisotuzumabe vedotina no CPNPC

Telisotuzumabe vedotina tem análise prolongada de eficácia, duração de resposta e segurança após tratamento prévio.

Após progressão da doença durante ou depois do tratamento com quimioterapia à base de platina e imunoterapia, as opções para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) avançado costumam oferecer benefício limitado. O LUMINOSITY explora uma estratégia diferente, baseada na seleção do tratamento pela quantidade da proteína c-Met na superfície tumoral e no uso de um conjugado anticorpo-fármaco para liberar um agente citotóxico nas células que expressam esse alvo.

O telisotuzumabe vedotina, ou Teliso-V, combina um anticorpo dirigido à proteína c-Met com a monometilauristatina E, um agente citotóxico que interfere nos microtúbulos. O anticorpo reconhece a proteína c-Met presente na célula tumoral, o complexo é internalizado e ocorre a liberação intracelular da carga citotóxica.

Um ponto essencial é que a superexpressão da proteína c-Met por imuno-histoquímica não é sinônimo de amplificação de MET nem de mutação com skipping do éxon 14. São biomarcadores diferentes e não devem ser usados de forma intercambiável.

Nesse contexto, a análise atualizada do estudo LUMINOSITY, publicada em 2026 no JTO Clinical and Research Reports, teve como objetivo avaliar a duração das respostas e o perfil de segurança com acompanhamento prolongado, além de explorar se o tipo de tratamento sistêmico recebido anteriormente modificava a atividade clínica do Teliso-V.

Como o LUMINOSITY foi conduzido?

O LUMINOSITY foi um estudo de fase 2, multicêntrico, não randomizado e de braço único. A análise atual concentrou-se em pacientes adultos com CPNPC não escamoso, localmente avançado ou metastático, EGFR selvagem, doença mensurável pelo RECIST 1.1 e ECOG 0 ou 1. Os pacientes já haviam recebido tratamento sistêmico; 97,6% tinham recebido platina e 80,4%, inibidor de checkpoint imune.

A superexpressão de c-Met foi determinada por imuno-histoquímica com o anticorpo SP44. Considerou-se c-Met positivo quando pelo menos 25% das células tumorais apresentavam coloração forte 3+. O grupo de alta expressão tinha coloração 3+ em pelo menos 50% das células; o grupo intermediário, entre 25% e menos de 50%.

O Teliso-V foi administrado por via intravenosa na dose de 1,9 mg/kg a cada duas semanas. Foram incluídos 172 pacientes na análise de segurança e 168 na análise de eficácia, divididos igualmente entre os grupos de expressão alta e intermediária. O desfecho primário foi a taxa de resposta objetiva por revisão central independente.

Eficácia mostra maior resposta numérica no grupo de alta expressão

Na população total com superexpressão de c-Met, a taxa de resposta objetiva foi de 29,2%. O resultado foi numericamente maior no grupo de alta expressão, com 34,5%, em comparação com 23,8% no grupo intermediário. Além disso, 75% dos pacientes avaliáveis apresentaram alguma redução no tamanho das lesões-alvo.

A mediana do tempo até a resposta foi de 1,4 mês. A duração mediana da resposta foi de 7,2 meses, e 53,1% dos respondedores mantiveram a resposta por pelo menos seis meses. A mediana de sobrevida livre de progressão foi de 5,6 meses e a mediana de sobrevida global, de 14,2 meses.

Os resultados de atividade foram observados também entre pacientes previamente tratados com platina, imunoterapia ou ambos.

Há, porém, uma limitação importante: o LUMINOSITY não teve braço comparador. Portanto, não é possível concluir, a partir desses resultados, que o Teliso-V seja superior ao docetaxel ou a outra estratégia terapêutica. O estudo demonstra atividade antitumoral em uma população selecionada por biomarcador, mas a comparação direta com docetaxel depende dos resultados do estudo de fase 3 TeliMET NSCLC-01.

Neuropatia e doença pulmonar intersticial exigem atenção

Eventos adversos relacionados ao tratamento ocorreram em 81,4% dos pacientes, e eventos de grau 3 ou superior, em 28,5%. A neuropatia sensitiva periférica foi o evento relacionado ao tratamento mais frequente, ocorrendo em 30,8% dos pacientes, com grau 3 ou superior em 7,0%.

Quando se utilizou uma busca padronizada mais ampla para neuropatia periférica, a frequência chegou a 43,6%. A mediana de tempo até o início foi de 101 dias; 18,0% dos pacientes precisaram de redução da dose e 11,6% interromperam definitivamente o tratamento por neuropatia. Esses resultados reforçam a necessidade de monitoramento neurológico durante o tratamento.

Alterações da superfície ocular ocorreram em 24,4% dos pacientes e foram predominantemente de baixo grau. Já a doença pulmonar intersticial ou pneumonite exige vigilância: segundo adjudicação independente, ocorreu em 9,9% dos pacientes, com 5,2% de eventos de grau 3 ou superior e 1,7% de grau 5.

O protocolo recomendava a suspensão definitiva do Teliso-V diante de doença pulmonar intersticial de grau 2 ou superior. Em pacientes que desenvolvem dispneia, tosse ou novos infiltrados na tomografia computadorizada durante o tratamento, a toxicidade pulmonar relacionada ao ADC deve ser considerada entre os diagnósticos diferenciais.

O biomarcador é a peça central

O estudo reforça que a seleção dos pacientes foi baseada na expressão da proteína c-Met por imuno-histoquímica. A maioria dos tumores com superexpressão de c-Met não apresentava amplificação de MET. Dessa forma, um painel genômico negativo para amplificação de MET ou alteração com skipping do éxon 14 não exclui, por si só, a possibilidade de alta expressão proteica de c-Met.

Esse é um ponto prático relevante, pois NGS e imuno-histoquímica avaliam características diferentes do tumor.

Outro achado foi a relativa estabilidade do marcador. Em análise de amostras pareadas relatada pelos autores, mais de 90% dos pacientes mantiveram o mesmo nível ou apresentaram nível maior de superexpressão de c-Met na nova biópsia quando comparada ao tecido arquivado. O achado indica potencial utilidade de material previamente coletado para avaliação, desde que sejam considerados a adequação da amostra e os critérios do teste.

Limitações orientam a interpretação dos resultados

A principal limitação é metodológica, pois se trata de um estudo de fase 2, de braço único, com população selecionada, ECOG 0–1 e taxa de resposta objetiva como desfecho primário. Sem um grupo comparador randomizado, não é possível estabelecer superioridade do Teliso-V sobre outras alternativas terapêuticas.

Desfechos como sobrevida global e sobrevida livre de progressão também podem ser influenciados por características prognósticas da população e por tratamentos subsequentes. Além disso, o estudo foi financiado pela AbbVie, que participou do desenho, da coleta, da análise e da interpretação dos dados.

Esses fatores não anulam a relevância dos resultados, mas exigem cautela na interpretação. Os dados demonstram atividade antitumoral do Teliso-V em pacientes previamente tratados com CPNPC não escamoso, EGFR selvagem e superexpressão de c-Met, enquanto a eficácia comparativa frente a outras opções depende de evidências randomizadas.

O que isso muda para a prática no Brasil?

Em 20 de outubro de 2026, a Anvisa aprovou o Emrelis (telisotuzumabe vedotina) para o tratamento de adultos com CPNPC não escamoso, localmente avançado ou metastático, EGFR selvagem, alta superexpressão da proteína c-Met e que tenham recebido terapia sistêmica previamente.

Portanto, a indicação aprovada no Brasil não inclui o grupo de expressão intermediária estudado no LUMINOSITY. A alta superexpressão de c-Met é definida como coloração forte por imuno-histoquímica, IHQ 3+, em pelo menos 50% das células tumorais.

Na prática, a aprovação acrescenta a avaliação da superexpressão proteica de c-Met ao processo de seleção de pacientes potencialmente candidatos ao telisotuzumabe vedotina. A pesquisa de alterações genômicas de MET não substitui a avaliação de c-Met por imuno-histoquímica utilizada para essa indicação.

Para os serviços brasileiros, a incorporação dessa estratégia exige atenção à realização do teste adequado, à qualidade da amostra e ao monitoramento de eventos adversos relevantes, particularmente neuropatia periférica, alterações oculares e sinais de doença pulmonar intersticial ou pneumonite.

Como aplicar os resultados do LUMINOSITY na prática clínica

O LUMINOSITY mostrou taxa de resposta objetiva de 34,5% entre pacientes com CPNPC não escamoso, EGFR selvagem e alta superexpressão de c-Met, com duração mediana da resposta de 7,2 meses. A atividade também foi observada em pacientes previamente expostos à platina e à imunoterapia.

A avaliação da alta superexpressão de c-Met por imuno-histoquímica tornou-se um critério relevante para a seleção de pacientes candidatos ao telisotuzumabe vedotina. No Brasil, essa informação ganhou aplicação imediata com a aprovação do Emrelis pela Anvisa em outubro de 2026.

A interpretação dos resultados, entretanto, deve considerar que o LUMINOSITY é um estudo de fase 2 de braço único. O benefício comparativo frente ao docetaxel ou a outras alternativas ainda depende dos resultados de estudos randomizados de fase 3. Além disso, neuropatia periférica e doença pulmonar intersticial ou pneumonite permanecem eventos adversos relevantes durante o tratamento.

Autoria

Foto de Gabriel Madeira Werberich

Gabriel Madeira Werberich

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela UERJ; residências de Clínica Médica pela UERJ, Oncologia Clínica pelo INCA e Radiologia pela UFRJ. Fellow em Oncologia pelo Sírio Libanês e R4 em Radiologia pelo Copa D’or. Mestrado em medicina pela UFRJ. Pós-graduação em Inteligência Artificial aplicada a saúde pela Data Science Academy/Faculdade Facint. Atua em ambulatório, pesquisa clínica no INCA e revisa artigos.

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