Os cistos renais Bosniak III e IV representam um desafio diagnóstico porque a imagem nem sempre diferencia com segurança lesões benignas e malignas antes do tratamento. Nesse cenário, a biópsia renal percutânea pode fornecer informações adicionais, mas seu desempenho em massas císticas permanece menos definido do que em tumores sólidos. A revisão sistemática e meta-análise de Barretta e colaboradores avaliou o desempenho diagnóstico, a segurança e o impacto clínico da punção aspirativa por agulha fina, ou FNA, e da biópsia por agulha grossa, ou CNB, nessas lesões.
A revisão sistemática reúne evidências em cistos Bosniak
Os autores destacam que cistos Bosniak IV apresentam alta probabilidade de malignidade, enquanto lesões Bosniak III mostram heterogeneidade histológica relevante. A dificuldade de caracterização pré-operatória pode influenciar o aconselhamento, a escolha terapêutica e o risco de tratamento excessivo. Por isso, a revisão sistemática buscou esclarecer em que medida a amostragem percutânea consegue refinar a avaliação antes da decisão clínica.
A análise incluiu pacientes adultos com cistos Bosniak III ou IV submetidos a FNA ou CNB guiada por imagem. O objetivo não foi apenas medir a capacidade de detectar malignidade, mas também examinar resultados não diagnósticos, complicações e situações em que a informação histológica poderia modificar o manejo.
Como os autores avaliaram a acurácia diagnóstica?
A revisão seguiu o PRISMA e foi registrada previamente no PROSPERO. As buscas abrangeram PubMed/MEDLINE, Embase, Cochrane CENTRAL, Scopus e Web of Science, desde 1980 até maio de 2025. Foram aceitos estudos prospectivos ou retrospectivos e séries com pelo menos dez pacientes, desde que apresentassem dados específicos de lesões Bosniak III ou IV e permitissem avaliar a acurácia diagnóstica.
Sete estudos, com 954 pacientes, preencheram os critérios de inclusão. Três avaliaram FNA e quatro estudaram CNB. Quando havia dados comparáveis, os autores aplicaram um modelo bivariado de efeitos aleatórios para estimar sensibilidade e especificidade. O risco de viés foi analisado pelo QUADAS-2. Para desfechos com poucos estudos ou definições heterogêneas, como resultados não diagnósticos e eventos adversos menores, a síntese foi narrativa.
Um resultado positivo ajuda, mas um negativo limita a FNA
A punção aspirativa por agulha fina apresentou desempenho bastante variável. Nos três estudos, a sensibilidade individual variou de 22% a 95,2%, e o valor preditivo negativo ficou entre 31% e 47%. Na meta-análise, a sensibilidade combinada foi de 59%, com IC95% amplo, de 14% a 93%. A especificidade foi de 84%, com IC95% de 62% a 94%, e a área sob a curva foi de 0,84.
Isso significa que, quando a citologia identifica células malignas, o resultado tende a ter maior valor diagnóstico. Em um dos estudos, o valor preditivo positivo chegou a 90,9%. Entretanto, em uma das séries, mais da metade dos cistos malignos posteriormente ressecados apresentava citologia falso-negativa. Portanto, uma FNA negativa não equivale a um cisto benigno.
Essa limitação ocorre porque o líquido pode conter poucas células e porque as células malignas podem estar concentradas em septos ou pequenos nódulos da parede. Dessa forma, a agulha pode aspirar o conteúdo do cisto sem atingir a área que contém tecido tumoral.
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A biópsia por agulha grossa tem maior rendimento quando há alvo sólido
A biópsia por agulha grossa apresentou rendimento diagnóstico entre 75% e 81%. Em vez de colher apenas células ou líquido, a CNB obtém um fragmento de tecido, permitindo avaliar a arquitetura e realizar imuno-histoquímica quando necessário.
Em uma pequena coorte de pacientes com Bosniak III, todos os resultados malignos da biópsia foram confirmados posteriormente na cirurgia. As lesões com biópsia benigna permaneceram estáveis durante seguimento mediano de 18 meses e, naquele estudo, foi possível evitar cirurgia em aproximadamente 39% dos pacientes.
Entretanto, a arquitetura cística continuou sendo o principal obstáculo. Em diferentes estudos, a presença de componente cístico aumentou significativamente a probabilidade de uma biópsia não diagnóstica. Os odds ratios encontrados chegaram a 13,1 e 13,9. Em uma coorte multicêntrica, o resultado foi não diagnóstico em 25% das lesões císticas, em comparação com aproximadamente 10% das lesões sólidas.
Um dos achados de maior relevância clínica foi que, em uma das grandes séries, 73% das lesões inicialmente não diagnósticas foram posteriormente confirmadas como malignas. Portanto, um laudo de “material insuficiente” não deve ser interpretado como ausência de câncer. Trata-se de ausência de diagnóstico, e não de evidência de benignidade.
O resultado da biópsia precisa se relacionar com a imagem
Esse é um ponto importante para interpretar os resultados do artigo. Os dados não sustentam o uso rotineiro da biópsia em todas as lesões Bosniak III ou IV, mas favorecem uma abordagem seletiva.
Uma biópsia positiva pode fornecer informação relevante, e uma CNB direcionada para um componente sólido pode contribuir para a tomada de decisão. Por outro lado, uma biópsia negativa de um cisto altamente suspeito, sobretudo quando a amostra contém predominantemente líquido ou tecido pouco representativo, não deve afastar isoladamente a suspeita indicada pelos exames de imagem.
Isso também ajuda a explicar por que as recomendações internacionais citadas pelos autores mantêm uma abordagem cautelosa. A amostragem é mais apropriada quando existe um componente sólido visível e acessível e quando o conhecimento da histologia tem potencial de modificar a conduta. A própria revisão destaca que os paradigmas estabelecidos para biópsia de massas renais sólidas não podem ser simplesmente extrapolados para lesões císticas.
E a segurança da biópsia renal percutânea?
De maneira geral, a amostragem percutânea apresentou perfil de segurança favorável nos estudos incluídos. Não foram relatados casos de semeadura tumoral nas lesões císticas avaliadas, e a maioria das complicações descritas foi leve, como hematoma perirrenal, hematúria transitória ou dor.
Entretanto, os autores ressaltam que a descrição dos eventos adversos foi heterogênea e frequentemente incompleta. Por esse motivo, não foi possível realizar uma análise quantitativa conjunta das complicações.
Limitações da evidência exigem cautela na interpretação
A revisão incluiu apenas sete estudos, em sua maioria retrospectivos e bastante heterogêneos quanto à técnica de biópsia, ao método de orientação por imagem e à definição de resultado não diagnóstico. Além disso, nem todas as lesões tiveram confirmação cirúrgica, o que pode ter contribuído para subestimar resultados falso-negativos.
Outro limite importante é que os estudos incluídos foram publicados entre 1999 e 2015, portanto antes da classificação Bosniak 2019. Também não foi possível realizar uma meta-análise da CNB devido à heterogeneidade e à incompletude dos dados disponíveis. Assim, os resultados devem ser interpretados considerando a limitada base de evidências e a variabilidade entre os estudos.
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O que isso agrega para a prática no Brasil?
O estudo não avaliou especificamente pacientes ou serviços brasileiros. Portanto, seus resultados não permitem estabelecer recomendações próprias para o contexto nacional. Ainda assim, a mensagem clínica central da revisão é que a biópsia deve ser considerada principalmente quando o resultado puder modificar a conduta e quando houver um componente sólido acessível para amostragem.
Em lesões Bosniak III nas quais a informação histológica possa interferir na escolha entre diferentes estratégias de manejo, a CNB pode fornecer dados adicionais para a decisão. Em contrapartida, quando a conduta já está estabelecida independentemente do resultado histológico, o benefício adicional da amostragem tende a ser mais limitado.
Quando a biópsia renal percutânea pode orientar a conduta
A biópsia renal percutânea pode contribuir para a avaliação dos cistos Bosniak III e IV, mas não deve ser interpretada isoladamente como uma resposta definitiva entre benignidade e malignidade.
A FNA apresenta valor diagnóstico limitado, sobretudo quando o resultado é negativo. A CNB parece mais útil quando existe um componente sólido bem definido e acessível, mas resultados não diagnósticos continuam frequentes e não excluem câncer.
Na prática, a indicação da biópsia deve considerar três elementos centrais destacados pela revisão: uma dúvida clínica relevante, a existência de um alvo adequado para amostragem e a possibilidade de o resultado modificar o manejo.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Gabriel Madeira Werberich
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela UERJ; residências de Clínica Médica pela UERJ, Oncologia Clínica pelo INCA e Radiologia pela UFRJ. Fellow em Oncologia pelo Sírio Libanês e R4 em Radiologia pelo Copa D’or. Mestrado em medicina pela UFRJ. Pós-graduação em Inteligência Artificial aplicada a saúde pela Data Science Academy/Faculdade Facint. Atua em ambulatório, pesquisa clínica no INCA e revisa artigos.
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