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Oncologia30 setembro 2026

Agonistas de GLP-1 se associam a menor risco de câncer

Revisão sistemática reúne estudos observacionais sobre agonistas de GLP-1, diferentes tumores, comparadores e limitações da evidência.

Os agonistas do receptor de GLP-1 ganharam espaço no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, além de apresentarem benefícios cardiovasculares. Ao mesmo tempo, o excesso de adiposidade é fator de risco reconhecido para diversos tipos de câncer. Surge, então, uma pergunta natural: se esses medicamentos promovem perda de peso e melhoram o ambiente metabólico, poderiam também reduzir a incidência de algumas neoplasias?

A questão é particularmente relevante porque também existe uma preocupação histórica com possíveis efeitos adversos oncológicos, especialmente em relação à tireoide e, no passado, ao pâncreas. Portanto, não basta perguntar se os GLP-1RA reduzem o risco de câncer. É preciso analisar tumor por tumor e, principalmente, separar associação observacional de efeito causal.

Nesse contexto, a revisão sistemática e meta-análise de Lalani e colaboradores, publicada em 2026 na revista Cancer Control, teve como objetivo avaliar a associação entre o uso de agonistas do receptor de GLP-1 e a incidência de diferentes tipos de câncer em adultos. O estudo reuniu dados de pacientes tratados por qualquer indicação e comparou os GLP-1RA tanto com a ausência de tratamento quanto com outros medicamentos utilizados no tratamento do diabetes ou da obesidade.

 

Saiba mais: Novo estudo indica possíveis benefícios dos análogos de GLP-1 para câncer de mama

Close-up of a woman holding a GLP-1 injection pen in both hands with her bare abdomen visible in the background. The image illustrates weight management, hormone therapy, modern medical treatment, and body changes related to GLP-1 medications.

Como a meta-análise avaliou o risco oncológico?

A revisão seguiu as recomendações PRISMA e foi registrada no PROSPERO. Os autores pesquisaram MEDLINE e EMBASE até 17 de setembro de 2025. Foram elegíveis estudos de coorte ou caso-controle em adultos recebendo agonistas de GLP-1, comparados à ausência de tratamento ou ao uso de outros medicamentos antidiabéticos ou antiobesidade, desde que apresentassem a incidência de câncer expressa por risco relativo, hazard ratio ou razão de taxas de incidência. Relatos de caso e estudos transversais foram excluídos.

A busca identificou 2.506 citações. Após a remoção de duplicatas, a triagem e a avaliação em texto completo, 78 estudos observacionais foram incluídos. A maioria apresentava desenho de coorte retrospectiva com base em registros eletrônicos de saúde. Os estudos avaliaram 19 tipos de câncer e sete agonistas de GLP-1, com comparadores como insulina, metformina, inibidores de DPP-4, inibidores de SGLT2, sulfonilureias e outros agentes. A meta-análise utilizou um modelo de efeitos aleatórios, e a heterogeneidade foi examinada pelo I² e pelo teste Q de Cochran.

Comparar cânceres associados à obesidade mostra diferenças

Os resultados agrupados mostraram associação entre o uso de GLP-1RA e menor risco de 10 dos 13 cânceres associados à obesidade avaliados. Entre os achados mais consistentes estavam os cânceres colorretal, hepático, pancreático, gástrico, esofágico, de vesícula e vias biliares e de ovário, além de meningioma e mieloma múltiplo.

Para alguns tumores, os números chamam a atenção. O risco relativo para câncer colorretal foi de 0,72, com IC95% de 0,66 a 0,78. Para câncer de pâncreas, o RR foi de 0,74, com IC95% de 0,67 a 0,82. Para câncer de fígado, o RR foi de 0,73, com IC95% de 0,62 a 0,85. Também houve associação com menor risco de câncer gástrico, com RR de 0,71, e de câncer esofágico, com RR de 0,77.

Fora do grupo tradicionalmente associado à obesidade, apareceram sinais interessantes para câncer de pulmão, com RR de 0,72, e de próstata, com RR de 0,82. Cânceres de mama, rim, bexiga, pele e colo uterino, por exemplo, não apresentaram redução estatisticamente significativa no conjunto da análise.

 

Saiba mais: Análogos de GLP1 e câncer de pâncreas existe associação?

Câncer de tireoide não apresentou aumento significativo

Para câncer de tireoide, a estimativa global apontou RR de 1,09, com IC95% de 0,98 a 1,21, sem aumento estatisticamente significativo. Entretanto, na análise em que a metformina foi o comparador, houve aumento significativo, com RR de 1,31 e IC95% de 1,02 a 1,67. Comparações com sulfonilureias e outros agentes não especificados mostraram tendência de aumento, mas sem significância estatística.

 

Saiba mais: Risco de câncer de tireoide e agonistas de GLP-1

Por que poderia haver menor risco de câncer?

Os autores discutem que o efeito, caso seja real, provavelmente não depende de uma ação antitumoral direta dos GLP-1RA.

A explicação mais plausível é indireta, pois esses medicamentos reduzem o peso e a gordura corporal e promovem mudanças no estado glicêmico e em vias inflamatórias. Como a obesidade está associada a um ambiente metabólico favorável à carcinogênese, a redução da adiposidade e das alterações metabólicas associadas poderia contribuir para diminuir estímulos relacionados à transformação tumoral.

Os autores levantam ainda hipóteses sobre a redução do consumo de álcool e tabaco entre usuários de GLP-1RA, mas essas possíveis associações apresentam evidências muito mais preliminares. Portanto, não devem ser utilizadas para explicar de forma definitiva os achados relacionados aos cânceres hepático ou pulmonar.

Limitações por que ainda não podemos falar em prevenção de câncer?

A principal limitação é que todos os 78 estudos incluídos eram observacionais. Portanto, existe risco de confundimento, viés de seleção e diferenças não mensuradas entre os pacientes.

A heterogeneidade foi alta em várias análises. No câncer de fígado, por exemplo, o I² chegou a 93,3%, indicando grande variação entre os estudos. Além disso, faltaram informações detalhadas sobre dose, duração do tratamento, adesão e tempo de exposição, o que impediu avaliar uma relação dose-resposta.

Outro problema é o tempo de acompanhamento, pois o câncer costuma levar anos para se desenvolver. Alguns estudos apresentaram períodos de observação relativamente curtos para responder adequadamente a uma pergunta relacionada à carcinogênese. Também houve sinais de possível viés de publicação em algumas análises, particularmente para os cânceres de pulmão e colorretal.

Por isso, os próprios autores concluem que ensaios randomizados, estudos de longo prazo e metodologias capazes de aproximar dados observacionais das condições de um ensaio clínico são necessários antes de considerar os GLP-1RA como estratégia de prevenção do câncer.

O que isso muda para a prática no Brasil?

Por enquanto, os achados não mudam as indicações clínicas estabelecidas dos GLP-1RA. Não há evidência para prescrever semaglutida, liraglutida ou outro medicamento da classe com a finalidade de prevenir câncer.

Para pacientes que já apresentam indicação por diabetes, obesidade ou benefício cardiovascular, porém, os dados são potencialmente favoráveis. Esta meta-análise não identificou aumento global do risco de câncer e sugere que o tratamento pode estar associado a menor incidência de diversas neoplasias, sobretudo daquelas relacionadas à obesidade.

No entanto, como o estudo não avaliou especificamente a população brasileira, não é possível estabelecer conclusões próprias para o Brasil a partir desses dados. Caso estudos prospectivos confirmem que parte da redução de risco observada é causal, os benefícios metabólicos desses medicamentos poderão apresentar repercussões também no risco oncológico.

Até lá, a abordagem permanece baseada nas indicações estabelecidas para o tratamento do diabetes e da obesidade. A possível associação com menor incidência de câncer deve ser interpretada como um achado adicional em investigação, e não como uma indicação preventiva comprovada para os GLP-1RA.

Risco oncológico exige cautela na interpretação clínica

A meta-análise de Lalani e colaboradores mostra uma associação consistente entre o uso de agonistas de GLP-1 e menor incidência de vários cânceres, principalmente tumores associados à obesidade e neoplasias gastrointestinais. Para os cânceres colorretal, pancreático e hepático, os RRs globais ficaram entre aproximadamente 0,72 e 0,74.

Mas existe uma diferença importante entre dizer que “houve menos câncer entre usuários de GLP-1RA” e afirmar que “o medicamento previne câncer”. Este estudo sustenta a primeira afirmação, mas ainda não consegue comprovar a segunda.

Para a prática atual, o achado mais importante talvez seja duplo: não surgiu um sinal global convincente de aumento do risco de câncer, inclusive de tireoide, e existe uma hipótese de benefício oncológico indireto associado à melhora metabólica e à redução da adiposidade.

Os resultados são relevantes, mas ainda não estabelecem uma nova indicação terapêutica. Atualmente, os GLP-1RA são utilizados de acordo com suas indicações clínicas estabelecidas. Caso estudos prospectivos confirmem esses achados, a redução do risco de alguns cânceres poderá vir a ser reconhecida como um benefício adicional do tratamento.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Gabriel Madeira Werberich

Gabriel Madeira Werberich

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela UERJ; residências de Clínica Médica pela UERJ, Oncologia Clínica pelo INCA e Radiologia pela UFRJ. Fellow em Oncologia pelo Sírio Libanês e R4 em Radiologia pelo Copa D’or. Mestrado em medicina pela UFRJ. Pós-graduação em Inteligência Artificial aplicada a saúde pela Data Science Academy/Faculdade Facint. Atua em ambulatório, pesquisa clínica no INCA e revisa artigos.

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