A síndrome do túnel cubital é causada pela compressão do nervo ulnar no seu trajeto próximo ou durante sua passagem na fossa cubital, ao nível do cotovelo. Trata-se da segunda neuropatia compressiva mais comum, atrás apenas da neuropatia do nervo mediano no túnel do carpo.
O nervo ulnar é um ramo do plexo braquial, formado por raízes de C8 e T1. Apresenta função motora, com inervação de músculos da porção medial do antebraço, como o flexor ulnar do carpo e a porção medial do flexor profundo dos dedos, além de músculos intrínsecos da mão, incluindo a eminência hipotenar. Também exerce função sensorial nessas regiões.
Neuropatias compressivas do nervo ulnar podem se manifestar com fraqueza nessas musculaturas, alterações de sensibilidade principalmente no quinto dedo, além de atrofia muscular e posturas anômalas de mão em fases mais avançadas.

Anatomia, mecanismo de compressão e fatores de risco
A região do cotovelo apresenta estruturas ósseas e ligamentares, as quais, em determinados pacientes, pode desencadear pontos de compressão de estruturas nobres, como o nervo ulnar.
Entre os fatores de risco mais comuns para a síndrome do túnel cubital, destacam-se a idade e a presença de fraturas prévias nessa região. Outros fatores de risco associados incluem tabagismo, obesidade e trabalho físico demandante com elevação dos braços e doenças osteoarticulares, como osteoartrite e artrite reumatoide.
Outro ponto importante é o componente mecânico. A flexão repetitiva do cotovelo, especialmente quando associada a outras posturas inadequadas, reduz o espaço do trajeto da fossa cubital e aumenta a probabilidade de compressão do nervo. O apoio prolongado do braço sobre superfícies rígidas também pode contribuir, assim como traumas prévios com deformidade osteoligamentar.
Manifestações clínicas
Dentre os sintomas mais comuns da síndrome do túnel cubital, estão: parestesias e formigamentos em região medial do antebraço, principalmente em território de inervação ulnar na mão, como a eminência hipotenar, o quarto e cindo dedos.
Nos casos mais graves, pode haver perda de força da mão, com comprometimento de preensão palmar, de abdução e adução de dedos, além de atrofia de eminência hipotenar.
Os sintomas podem piorar durante o sono, devido a postura de flexão anormal de cotovelos, mantida durante horas enquanto o paciente dorme.
Com o tempo e avanço da doença, também podem surgir atrofia de musculatura e comprometimento de motricidade fina. Em algumas profissões, como músicos e pintores, esse comprometimento pode gerar impacto funcional significativo.
Diagnóstico da síndrome do túnel cubital
O diagnóstico é baseado na combinação entre história clínica e exame físico. Em geral, o paciente apresenta quadro predominante na região medial do antebraço e da mão, abaixo do cotovelo, podendo haver fraqueza de preensão palmar e atrofia ao exame.
Alguns testes no exame físico são úteis na avaliação. Entre eles o teste de Tinel positivo no cotovelo, realizado por meio da percussão do nervo ulnar no cotovelo medial, com surgimento de sintomas de parestesias na topografia do nervo. Outro teste útil é a flexão mantida do cotovelo por 3 a 5 minutos, associada à extensão do punho, onde espera-se o aparecimento de sintomas relacionados a compressão do nervo ulnar.
Exames complementares
Entre os exames complementares, a eletroneuromiografia pode contribuir para o diagnóstico, para a topografia da lesão e para a avaliação da gravidade do quadro, sendo um instrumento para auxiliar na definição terapêutica e prognóstico. A ultrassonografia do cotovelo, onde o principal parâmetro avaliado é a área de secção transversal do nervo, além de outros dados, como espessamentos ligamentares, deformidades ósseas e anormalidades estruturais compressivas.
Entre os diagnósticos diferenciais, é importante descartar radiculopatia no nível de C8-T1, epicondilite, síndrome do desfiladeiro torácico, entre outras possibilidades.
Tratamento da síndrome do túnel cubital
O tratamento da síndrome do túnel cubital pode ser dividido em duas modalidades: conservador e cirúrgico. A escolha depende da gravidade dos sintomas, da repercussão clínica e refratariedade ao tratamento inicial.
Nos casos leves a moderados, a conduta inicial costuma ser conservadora. Entre as principais medidas estão a readequação de postura, com orientação de evitar hiperflexão do cotovelo acima de 90°, e o uso de órteses durante o sono para manter a postura do cotovelo adequada. Outras abordagens, como infiltração local de corticoides e uso de anti-inflamatórios, não são recomendados.
Já nos casos graves, refratários ao tratamento conservador ou com repercussões clínicas importantes, como atrofia muscular ou evidência de lesão grave vista em propedêutica, é recomendado o tratamento cirúrgico.
Opções cirúrgicas
- Descompressão aberta do nervo: realizada no local da compressão, com menor taxa de complicações.
- Descompressão endoscópica do nervo: pode proporcionar recuperação pós-operatória mais rápida, mas sem diferença na resolução do quadro.
- Transposição do nervo: pode ser feita de forma subcutânea, submuscular ou subfascial. Não é recomendada de forma rotineira.
- Epicondilectomia medial: nessa técnica há remoção parcial do epicôndilo medial, com descompressão do nervo.
Metanálise recente mostrou que a combinação entre descompressão aberta e epicondilectomia medial foi a técnica com melhor desempenho em termos de sucesso terapêutico.
Conclusão
Na prática clínica, o reconhecimento da síndrome do túnel cubital é importante diante de sintomas sensitivos e motores em território do nervo ulnar, sobretudo quando há fraqueza de preensão, dificuldade na abdução e adução dos dedos e sinais de atrofia hipotenar. A confirmação diagnóstica deve considerar o quadro clínico, os achados do exame físico e o apoio de exames como eletroneuromiografia e ultrassonografia, além da exclusão de diagnósticos diferenciais relevantes.
A conduta depende da intensidade dos sintomas, da repercussão funcional e da resposta às medidas iniciais. Em geral, o tratamento conservador é a primeira escolha nos casos leves a moderados, enquanto a abordagem cirúrgica fica reservada para quadros graves ou refratários.
Autoria

Jesus Ventura
Médico graduado pela AFYA Faculdade de Ciências Médicas de Ipatinga em 2017. Neurologista formado no HCUFMG de 2018 a 2021. Neurologista assistente do IPSEMG. Professor na Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais.
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