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Neurologia29 abril 2026

Neurotoxicidade pelas cefalosporinas: reconhecimento e manejo clínico

O uso de cefalosporinas possui riscos de efeitos neurológicos adversos graves e a neurotoxicidade é uma complicação muitas vezes subestimada
Por Victor Fiorini

As cefalosporinas são antibióticos betalactâmicos amplamente prescritos na prática hospitalar, mas seu uso carrega riscos de efeitos neurológicos adversos graves. A neurotoxicidade é uma complicação muitas vezes subestimada, que pode mimetizar quadros de encefalopatia metabólica ou sepse, exigindo alto índice de suspeição clínica.

Neurotoxicidade pelas cefalosporinas: reconhecimento e manejo clínico

Manifestações clínicas e fatores de risco para neurotoxicidade

O espectro de manifestações neurológicas é amplo e inclui principalmente encefalopatia, estado confusional agudo, mioclonias e convulsões. Em casos mais graves, o paciente pode evoluir para status epilepticus (inclusive o tipo não convulsivo), alucinações e coma.

Certos grupos de pacientes apresentam vulnerabilidade aumentada a esses efeitos:

  • Insuficiência Renal: É o principal fator de risco, especialmente quando a dose do antibiótico não é ajustada para a depuração de creatinina.
  • Idosos: Devido à redução fisiológica da função renal e maior fragilidade da barreira hematoencefálica.
  • Histórico Neurológico: Pacientes com doenças do Sistema Nervoso Central (SNC) preexistentes têm menor limiar convulsígeno.

Os sintomas geralmente surgem entre 4 a 8 dias após o início da terapia. Os fármacos mais frequentemente implicados são a ceftriaxona, ceftazidima, cefotaxima e, notadamente, o cefepime, que é o agente mais associado a quadros de toxicidade grave.

Fisiopatologia: O papel dos receptores GABA-A

O mecanismo biológico proposto para a neurotoxicidade das cefalosporinas envolve o antagonismo dos receptores GABA-A. O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do cérebro; ao bloquear sua ação, as cefalosporinas provocam uma hiperexcitabilidade neuronal.

Em contextos de insuficiência renal, a excreção do fármaco é prejudicada, elevando as concentrações plasmáticas e facilitando a travessia da barreira hematoencefálica, o que intensifica o bloqueio gabaérgico e desencadeia as crises convulsivas ou a atividade mioclônica multifocal.

Diagnóstico por EEG e estratégias de tratamento

A monitorização por Eletroencefalograma (EEG) desempenha um papel fundamental no diagnóstico diferencial. Os achados comuns incluem:

  • Lentificação difusa da atividade de fundo;
  • Presença de ondas trifásicas (semelhantes às da encefalopatia hepática);
  • Atividade epileptiforme franca, essencial para identificar o status epilepticus não convulsivo em pacientes com rebaixamento do nível de consciência inexplicado.

Protocolo de manejo e reversibilidade

A principal medida terapêutica é a suspensão imediata do antibiótico. Na maioria dos casos, a melhora clínica é observada em poucos dias após a interrupção. Em pacientes com insuficiência renal grave e sintomas refratários, a hemodiálise pode ser indicada para acelerar a depuração do fármaco. O uso de anticonvulsivantes deve ser reservado para casos com atividade epiléptica documentada ou persistente.

A prevenção, através do ajuste rigoroso da dose conforme a função renal e a vigilância clínica longitudinal, continua sendo a estratégia mais eficaz para reduzir a morbidade associada a essa classe de antimicrobianos.

Autoria

Foto de Victor Fiorini

Victor Fiorini

Médico formado pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP. Residência de Clinica Médica pela UNIFESP. Residência de Neurologia Clínica pelo HCFMUSP. Professor de Neurologia na Afya Educação Médica. Professor de Urgências e Emergências do Hospital Israelita Albert Einstein. Professor de Neurologia do Curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo (2013-2024). Autor de capítulos de Livros na Área de Neurologia. Médico do Corpo Clínico dos Hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.

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