A neuralgia pós-herpética (NPH) é uma das complicações mais temidas do herpes-zóster e uma das causas de dor neuropática crônica mais desafiadoras na prática clínica. Definida como a persistência de dor na região dermatômica por pelo menos 90 dias após o início do rash, a NPH afeta entre 5% e 32% dos pacientes com herpes-zóster, com risco crescente com a idade. Além da dor intensa, a condição frequentemente compromete o sono, a funcionalidade e o bem-estar emocional dos pacientes, impondo elevado ônus individual e social.
O arsenal terapêutico disponível, que inclui anti-epilépticos (gabapentina e pregabalina), antidepressivos tricíclicos, agentes tópicos e opioides, é frequentemente promove alívio apenas parcial, deixando muitos pacientes com controle inadequado da dor. Nesse contexto, estratégias não farmacológicas têm sido investigadas como opções adjuvantes, entre elas a eletroacupuntura, uma modalidade que combina a inserção tradicional de agulhas com estimulação elétrica para potencializar o efeito analgésico.
Recentemente, um ensaio clínico randomizado multicêntrico publicado na JAMA Neurology avaliou com rigor metodológico a eficácia e a segurança da eletroacupuntura em pacientes com essa condição.

Como o estudo com eletroacupuntura foi desenhado e conduzido
O estudo foi conduzido em sete hospitais terciários na China, com pacientes recrutados entre outubro de 2020 e julho de 2022. Foram incluídos adultos entre 45 e 75 anos com diagnóstico de NPH segundo critérios do consenso europeu de consenso e dor moderada a grave, definida como pontuação ≥ 4 na Escala Numérica de Avaliação de 11 pontos (NRS-11).
De 1.072 pacientes triados, 448 foram randomizados em proporção 1:1 para receber eletroacupuntura real (n = 225) ou eletroacupuntura sham (n = 223) , um procedimento controle cuidadosamente elaborado para mimetizar a intervenção ativa sem produzir efeito fisiológico. No grupo sham, isto é, o grupo controle, foram utilizadas agulhas rombas não penetrantes, posicionadas nos mesmos acupontos, com eletrodos conectados de forma idêntica, porém com a passagem de corrente bloqueada por uma camada adesiva isolante. Ambos os grupos realizaram 20 sessões ao longo de 4 semanas (cinco vezes por semana, 30 minutos por sessão).
Os participantes foram seguidos por mais quatro semanas após o término do tratamento, totalizando oito semanas de acompanhamento. Pacientes, avaliadores de desfechos e estatísticos foram cegados para a alocação; apenas os acupunturistas tinham conhecimento do grupo de cada participante.
O desfecho primário foi a variação na pontuação da NRS-11 do basal até a semana 4, com respondedores definidos como pacientes que atingissem redução ≥ 30% na escala. Para orientar a interpretação clínica, os autores definiram post hoc uma diferença mínima de 1,5 ponto — benchmark a partir do qual uma diferença entre grupos seria considerada clinicamente relevante, e não apenas estatisticamente significativa.
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O que a dor dos pacientes revelou após o tratamento
O desfecho primário mostrou que o grupo de eletroacupuntura apresentou redução média de 1,52 pontos, comparado a 0,99 pontos no grupo controle, com diferença ajustada de −0,53 (IC 95%, −0,61 a −0,43; P < 0,001). Embora essa diferença tenha sido estatisticamente significativa, os autores destacam que ela, também, ficou abaixo da diferença mínima clinicamente importante de 1,5 pontos, estabelecida com base na literatura publicada. Ou seja: o benefício médio foi modesto em termos absolutos, mas esse resultado precisa ser interpretado à luz dos dados sobre respondedores. A taxa de respondedores definidos como pacientes com redução ≥ 30% na NRS-11 foi significativamente maior no grupo de eletroacupuntura: 46,68% versus 24,28% no grupo controle (diferença de risco ajustada de 22,40%; IC 95%, 13,02%–31,79%; p < 0,001). Em outras palavras, quase metade dos pacientes tratados com eletroacupuntura atingiram redução clinicamente relevante de dor, em comparação a apenas um quarto do grupo controle.
Nas análises exploratórias pos-hoc, o grupo de eletroacupuntura também apresentou menor uso de analgésico de resgate (6,67% vs. 13,90%; diferença de risco ajustada de −7,23%; p = 0,01) e maior proporção de redução ou descontinuação de medicações analgésicas concomitantes (23,91% vs. 8,93%; diferença de risco ajustada de 14,98%; p = 0,04). Esses achados são relevantes do ponto de vista prático, especialmente considerando os efeitos adversos associados ao uso crônico de anticonvulsivantes e opioides.
O perfil de segurança foi favorável. Eventos adversos relacionados ao tratamento ocorreram em 14 pacientes do grupo de eletroacupuntura (13 casos de equimose subcutânea local e 1 caso de dor aguda) e em 3 do grupo controle (todos dor aguda). Todos foram classificados como grau 1 (leves) e nenhum requereu intervenção. Não foram registrados eventos adversos graves.
Eletroacupuntura na prática: interpretando os achados
Os resultados deste ensaio são consistentes com evidências prévias sobre terapias relacionadas à acupuntura na neuralgia pós-herpética. Uma metanálise de intervenções nesse contexto reportou redução significativa da dor (SMD agrupado de −1,78), com subgrupo de eletroacupuntura mostrando efeito igualmente favorável (SMD de −1,28). A taxa de respondedores reforça esse achado: a eletroacupuntura mais que dobrou a chance de o paciente atingir redução clinicamente relevante de dor em comparação ao controle.
Uma observação clínica relevante do estudo foi o surgimento da diferença significativa entre os grupos já na semana 2, após apenas 10 sessões, indicando um efeito analgésico cumulativo da eletroacupuntura na neuralgia pós-herpética. Esse dado tem implicação prática direta: sugere que a eficácia da intervenção depende de um número mínimo de sessões administradas de forma contínua, e que interromper o tratamento precocemente pode comprometer os resultados. Em outras palavras, completar o curso terapêutico é condição para que o benefício se manifeste plenamente.
Entre as limitações, destacam-se: o seguimento de apenas um mês após o término do tratamento, sem avaliação da manutenção do efeito a longo prazo; a impossibilidade de cegas os acupunturistas; a possibilidade de que a equimose subcutânea (presente em 5,78% do grupo ativo) possa ter rompido o cegamento em alguns participantes; e a restrição da amostra a uma faixa etária específica (45 a 75 anos) e à população chinesa, o que limita a generalização dos achados.
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O que fica dessa evidência para o dia a dia médico
A eletroacupuntura demonstrou redução estatisticamente significativa da dor na neuralgia pós-herpética, com aumento expressivo na taxa de respondedores e benefícios sobre o bem-estar emocional, ainda que a diferença média absoluta não tenha atingido a diferença mínima clinicamente importante. Seu perfil de segurança foi favorável, e os efeitos persistiram por ao menos um mês após o término do tratamento.
Autoria

Danielle Calil
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Neurologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fellow em Neurologia Cognitiva e Anormalidades do Movimento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre no Programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto na UFMG e, atualmente, cursando o doutorado na mesma instituição. Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular e em rede secundária no SUS.
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