A azatioprina (AZA) segue sendo um pilar no tratamento da miastenia gravis (MG), apesar da chegada de terapias mais modernas. Seu mecanismo de imunomodulador amplo, ainda a torna uma opção relevante — especialmente em cenários de acesso limitado. No entanto, muito do que sabemos sobre sua toxicidade vem da gastroenterologia, e não da neurologia. Um novo estudo observacional de centro único, publicado em Muscle & Nerve (2026), ajuda a preencher essa lacuna ao descrever, em detalhes, o perfil real de eventos adversos da azatioprina em pacientes com MG, trazendo dados que dialogam diretamente com a prática clínica diária.
Leia também: Miastenia Gravis: o que muda nas novas diretrizes britânicas de 2025
O que o estudo avaliou?
Pesquisadores revisaram prontuários de 145 pacientes adultos com miastenia gravis acompanhados em um centro terciário, todos tratados com azatioprina entre 2014 e 2023.
O objetivo foi mapear reações adversas laboratoriais e clínicas, fatores associados ao risco e desfechos após ajuste de dose ou suspensão do fármaco.
A grande pergunta: a azatioprina é “tão tóxica assim”?
Sim, eventos adversos são comuns — mas raramente graves.
- 66% dos pacientes apresentaram algum tipo de reação adversa.
- 43,5% precisaram reduzir a dose ou suspender a medicação.
- Apenas 16% tiveram efeitos colaterais sintomáticos relevantes.
A maioria das alterações foi laboratorial, silenciosa e reversível com observação ou ajuste de dose.
Principais toxicidades observadas
As três alterações mais frequentes foram:
- Leucopenia (29%)
- Macrocitose (26%)
- Hepatotoxicidade (21%)
Um ponto crucial: a macrocitose isolada é um efeito esperado e não deve, por si só, indicar suspensão da droga — muitas vezes funciona até como marcador de adesão.
Na maior parte dos casos, tanto leucopenia quanto elevação de transaminases regrediram espontaneamente ou após redução de dose, reforçando uma conduta mais conservadora e individualizada.
Reação “gripal”: rara, mas clássica
- Ocorreu em 10% dos pacientes
- Surgiu, em média, duas semanas após o início da AZA
- Sintomas típicos: febre, calafrios, mal-estar, náuseas
- Resolveu completamente com a suspensão da droga
- Reexposição levou à recorrência dos sintomas
Pérola clínica: quadro gripal precoce + AZA = pense em reação medicamentosa, não em infecção.

Câncer e infecções oportunistas: risco real?
- Câncer: incidência de 4,1%, principalmente câncer de pele não melanoma (Taxas semelhantes ou até inferiores às da população geral.)
- Pneumocystis jirovecii (PJP): nenhum caso, mesmo sem profilaxia rotineira.
Esses achados reforçam que o risco absoluto é baixo, especialmente quando comparado ao medo que frequentemente leva à suspensão precoce da medicação.
Quem tem mais risco de toxicidade?
O principal preditor identificado foi simples e clínico:
Carga de comorbidades
- Para cada comorbidade adicional, o risco de reação adversa aumentou ~30%
- Idade mais avançada também se associou a maior risco (tendência)
Isso muda a prática: o “perfil do paciente” importa tanto quanto a dose prescrita.
Saiba mais: Diagnóstico diferencial da miastenia gravis
E a dose ideal?
Curiosamente, muitas reações ocorreram em doses abaixo das recomendações clássicas (2–3 mg/kg/dia).
Isso vai ao encontro de evidências recentes sugerindo que doses mais baixas podem manter eficácia com melhor tolerabilidade, especialmente em pacientes mais complexos.
Implicações práticas para o consultório
- Eventos adversos são comuns, mas raramente catastróficos
- Não suspenda automaticamente diante de alterações leves de laboratório
- Monitore e ajuste dose, em vez de abandonar a droga precocemente
- Avalie com atenção pacientes idosos e com múltiplas comorbidades
- Reação gripal precoce é uma red flag para intolerância verdadeira
Conclusão: azatioprina na miastenia gravis
Este estudo reforça uma mensagem importante: a azatioprina continua sendo uma droga eficaz, utilizável e mais segura do que muitos imaginam, desde que usada com monitorização adequada e raciocínio clínico individualizado.
Em tempos de terapias-alvo cada vez mais sofisticadas, a AZA ainda tem lugar — especialmente quando entendemos quem tratar, como tratar e quando ajustar.
Leia mais: Miastenia gravis: comparação entre biológicos no tratamento
Autoria

Thiago Nascimento
Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Residência Médica em Neurologia no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS) Salvador - Bahia (2016-2019). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Mestrando em Ciências da Saúde pela UFBA (PPGCs - UFBA). Preceptor da Residência de Neurologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Médico Neurologista - Membro do Ambulatório de Neuroimunologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Professor na Afya Educação Médica.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.