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Neurologia20 agosto 2026

Agonistas de GLP-1 e epilepsia: risco convulsivo ou efeito neuroprotetor? 

Estudo avaliou as evidências sobre a segurança neurológica, farmacocinética e implicações clínicas dos agonistas de GLP-1 na epilepsia

Indivíduos com epilepsia apresentam prevalência mais elevada de diabetes mellitus tipo 2 (DM2), obesidade e doença cardiovascular quando comparadas à população geral. Apesar dessas comorbidades receberem menor atenção em consultas neurológicas nesses pacientes, visto que tais consultas são mais focadas no controle de crises, tais doenças cardiometabólicas impactam de forma direta a morbimortalidade a longo prazo.  Considerando esse dado epidemiológico, cada vez mais na rotina prescritiva de neurologistas que cuidam de pessoas com epilepsia será encontrar pacientes sob uso de agonistas do receptor de peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1 RA), classe farmacológica protagonista no manejo concomitante do DM2, da obesidade e do risco cardiovascular. 

Nesse contexto, uma dúvida prática ganhou relevância clínica: os GLP-1 RA são seguros em quem tem epilepsia, e podem interagir com as medicações antiepilépticas (MAEs)? Como forma de responder a esses questionamentos, foi conduzido revisão de escopo publicada recentemente na revista Seizure.  

Agonistas de GLP-1 e epilepsia: risco convulsivo ou efeito neuroprotetor? 

Imagem de kjpargeter/freepik

Métodos 

Trata-se de uma revisão de escopo conduzida segundo os princípios do PRISMA-ScR (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews). Uma busca estruturada foi conduzida no PubMed/MEDLINE entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2026. Foram incluídos estudos pré-clínicos sobre sinalização de GLP-1 em modelos de crise; estudos observacionais em humanos com desfechos relacionados a crises ou epilepsia; ensaios clínicos randomizados com desfechos relacionados a crises; estudos farmacocinéticos ou de interação medicamentosa com MAEs; estudos de farmacovigilância; e literatura de base clinicamente relevante.  

Dos 221 registros identificados, 45 estudos preencheram os critérios de elegibilidade após triagem em duas etapas e foram incluídos na síntese narrativa. Em decorrência da heterogeneidade das evidências disponíveis, não foi realizada metanálise formal. 

Resultados 

A revisão evidencia sobreposição substancial entre epilepsia e comorbidades metabólicas/cardiovasculares: o DM2 acomete cerca de 25% das pessoas com epilepsia contra 12% na população geral; a obesidade varia entre 34% e quase 50%, sobretudo com MAEs associadas a ganho de peso (ex. valproato, pregabalina, carbamazepina).  

Estima-se que 40% a 50% das pessoas com epilepsia preencham critérios de elegibilidade para GLP-1 RA por indicações metabólicas, cardiovasculares ou de sono — sobreposição que mostra que a a atenção à indicação dessa classe farmacológica não deve ser considerada exclusiva do consultório endocrinológico. 

Há evidências pré-clínicas que apontam benefício neurológico com uso dos agonistas do receptor GLP-1. Em modelos animais na qual as crises epilépticas foram induzidas quimicamente, a ativação farmacológica do receptor associou-se à redução da gravidade das crises, aumento da latência para crises e atenuação da disfunção cognitiva associada, efeitos mediados por ação anti-inflamatória além de modulação do estresse oxidativo e da sobrevivência neuronal. Importante destacar que, embora os achados pré-clínicos não traduzem em eficácia clínica em epilepsia humana, são capazes de fornecer racional biológico coerente para algumas evidências clínicas de estudos observacionais em humanos. 

Embora nenhum ensaio clínico randomizado tenha sido desenhado especificamente para avaliar os GLP-1 RA em epilepsia, múltiplas coortes observacionais de grande porte e análises post hoc convergem para uma associação favorável. Uma metanálise de 27 ensaios cardiovasculares e renais, com quase 200 mil participantes, mostrou redução de risco relativo de 33% para o desfecho combinado de crises de início tardio e epilepsia. Em estudos com amostra de participantes com doenças cerebrovasculares (hemorragia subaracnóidea, hemorragia intracerebral e AVC isquêmico agudo), análise multi-institucional pareada por escore de propensão associou o uso de GLP-1 RA a reduções de até 44% nas crises pós-hemorragia intracerebral e 57% pós-AVC isquêmico em 6 meses.  

Leia também: Efeitos dos análogos de GLP-1 em sintomas psiquiátricos

Comentários 

Os achados desta revisão de escopo convergem para um cenário clinicamente tranquilizador: não há sinal de que os GLP-1 RA piorem o controle de crises e, de forma consistente, múltiplas fontes de evidência observacional apontam para redução do risco de crises incidentes e recorrentes. A plausibilidade biológica é reforçada pelos dados pré-clínicos, que sugerem efeitos antiepileptogênicos. 

É importante ressaltar, contudo, que toda a evidência humana disponível é observacional ou derivada de análises secundárias de ensaios desenhados para outros desfechos; nenhum ensaio clínico randomizado avaliou especificamente os GLP-1 RA em epilepsia. Diante dessas limitações, os achados devem ser interpretados como geradores de hipótese, e não como definitivos, reforçando a necessidade de ensaios prospectivos dedicados a essa população.  

Saiba mais: Muito além da perda de peso: os efeitos anti-inflamatórios dos agonistas de GLP-1

Mensagem final 

Diante da elevada prevalência de comorbidades metabólicas e cardiovasculares em pessoas com epilepsia, os GLP-1 RA deixaram de ser terapias restritas ao consultório endocrinológico e passaram a integrar o cuidado neurológico cotidiano. As evidências atuais não sustentam a epilepsia como contraindicação ao uso de GLP-1 RA quando clinicamente indicado. Estudos prospectivos e específicos para epilepsia ainda são necessários para esclarecer se os GLP-1 RA exercem, de fato, um efeito modificador de doença sobre a epileptogênese. 

Autoria

Foto de Danielle Calil

Danielle Calil

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Neurologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fellow em Neurologia Cognitiva e Anormalidades do Movimento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre no Programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto na UFMG e, atualmente, cursando o doutorado na mesma instituição. Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular e em rede secundária no SUS.

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