Agonistas do GLP-1 (GLP-1RA) se estabeleceram como classe de primeira linha no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. Essa classe de medicamentos redefiniu diretrizes ao reduzir a glicose, o peso corporal e melhorar o sistema cardiovascular. Evidências acumuladas indicam que os GLP-1RA exercem efeitos anti-inflamatórios amplos e consistentes em diversos órgãos e sistemas. Revisão recente publicada no JCEM faz uma imersão no tema. Os autores destacam que a inflamação crônica de baixo grau é um mecanismo central na fisiopatologia de doenças cardiovasculares, insuficiência cardíaca, doenças neurodegenerativas, doenças inflamatórias intestinais e enfermidades autoimunes. Nesse contexto, os GLP-1RA emergem não apenas como agentes metabólicos, mas também como potenciais moduladores imunológicos.

Mecanismos anti-inflamatórios
Os mecanismos envolvidos incluem a redução da ativação do fator nuclear kappa B (NF-κB), uma das principais vias intracelulares relacionadas à inflamação, além da diminuição da produção de citocinas pró-inflamatórias como TNF-α, IL-1β e IL-6. Estudos experimentais também demonstram menor infiltração de macrófagos em tecidos-alvo, redução do estresse oxidativo e modulação favorável do perfil imunológico, com aumento da polarização de macrófagos para o fenótipo anti-inflamatório M2. Esses efeitos sugerem uma ação imunomoduladora direta dos agonistas de GLP-1, parcialmente independente da perda de peso observada com o tratamento.
Efeitos cardiovasculares
No sistema cardiovascular, os efeitos anti-inflamatórios parecem contribuir para a redução dos eventos cardiovasculares observada nos estudos LEADER, SUSTAIN-6, REWIND e SELECT. Modelos experimentais demonstram redução da formação de placas ateroscleróticas, menor infiltração de macrófagos na parede arterial, melhora da função endotelial e redução da expressão de moléculas de adesão vascular. Além disso, análises clínicas mostram reduções significativas da proteína C reativa ultrassensível (PCR-us), reforçando a hipótese de que parte dos benefícios cardiovasculares dos GLP-1RA decorre da atenuação da inflamação vascular e da estabilização da placa aterosclerótica.
Na insuficiência cardíaca, particularmente na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP), a inflamação tem papel central na fisiopatologia da doença. Nos estudos STEP-HFpEF e STEP-HFpEF DM, a semaglutida promoveu melhora dos sintomas, da capacidade funcional e da qualidade de vida, acompanhada por reduções de até 39% nos níveis de PCR-us. Esses resultados sugerem que os benefícios observados não dependem exclusivamente da perda ponderal, mas também da redução da inflamação sistêmica, da melhora da função endotelial e da modulação de vias pró-fibróticas e pró-inflamatórias do miocárdio.
Outro aspecto particularmente interessante é o potencial efeito anti-inflamatório em doenças não tradicionalmente associadas ao tratamento metabólico. Em modelos de doença inflamatória intestinal, os GLP-1RA reduziram a produção de citocinas inflamatórias, melhoraram a integridade da barreira intestinal e favoreceram a composição da microbiota. Em doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, foram observadas reduções da ativação microglial, da atividade do inflamassoma NLRP3 e da produção de mediadores inflamatórios no sistema nervoso central. Embora os resultados clínicos ainda sejam preliminares, essas observações ampliam significativamente o potencial terapêutico da classe.
Benefícios
Finalmente, evidências emergentes sugerem benefícios em doenças infecciosas e autoimunes. Estudos observacionais indicam menor risco de infecções graves, sepse e mortalidade relacionada a infecções entre usuários de GLP-1RA. Em modelos experimentais, esses fármacos reduzem a tempestade de citocinas, melhoram a função endotelial e preservam a função de múltiplos órgãos durante quadros sépticos. Em doenças autoimunes, como artrite reumatoide e psoríase, observou-se redução de marcadores inflamatórios e melhora clínica em estudos iniciais. Embora ainda sejam necessários ensaios clínicos especificamente desenhados para avaliar desfechos inflamatórios, o conjunto atual de evidências reforça que os agonistas de GLP-1 possuem ações anti-inflamatórias sistêmicas relevantes, capazes de contribuir para seus benefícios cardiovasculares, renais e metabólicos muito além da simples redução de peso corporal.
Autoria

Luciano de França Albuquerque
Redator em Endopapers. Mestre em Neurociências UFPE. Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Editor associado do livro Endocrinologia Clínica 7a edição 2020. Preceptor da residência em endocrinologia do HC – UFPE.
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