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Medicina Laboratorial1 agosto 2026

FIT no rastreamento do câncer colorretal: acurácia e uso prático

Entenda a acurácia do FIT, as diferenças entre testes qualitativos e quantitativos e o impacto do limiar de positividade no rastreamento do câncer colorretal.
Por Pedro Morales

O câncer colorretal (CCR) está entre as neoplasias mais incidentes no mundo, e boa parte da taxa de mortalidade associada a ele pode ser evitada com rastreamento populacional para o diagnóstico precoce. O teste imunoquímico fecal (FIT), também conhecido como sangue oculto fecal, é hoje o método não invasivo mais recomendado para essa finalidade. Ele suplantou, com sucesso, o antigo teste para a pesquisa de sangue nas fezes com a metodologia de guaiaco (que apresenta restrições quanto a dieta, efeito prozona, reações cruzadas com hemoglobinas não humanas) na maioria dos programas de rastreamento ao redor do mundo. 

O FIT detecta hemoglobina humana por método imunológico, com anticorpos monoclonais específicos, o que o torna menos sujeito a interferências dietéticas e medicamentosas. Outra vantagem prática é o seu relativo baixo custo e a sua coleta simples, já que, para a maioria dos kits diagnósticos, basta uma única amostra de fezes coletada com auxílio de espátula e enviada ao laboratório em um frasco, o que facilita a adesão do paciente ao rastreamento. 

FIT no rastreamento do câncer colorretal

FIT alcança alta sensibilidade no rastreio do câncer colorretal

Uma revisão sistemática da Cochrane, que reuniu 63 estudos com quase 4 milhões de participantes, consolidou o desempenho do FIT em relação à colonoscopia com biópsia, considerada como método padrão-ouro. Em estudos nos quais todos os participantes foram submetidos ao teste e à colonoscopia, a sensibilidade do FIT para detectar neoplasia avançada (câncer ou adenoma avançado) ficou entre 26% e 33%, a depender do limiar de positividade utilizado (20 µg ou 10 µg de hemoglobina por grama de fezes, respectivamente). Para câncer colorretal isoladamente, a sensibilidade foi ainda mais expressiva, variando de 65% a 76%. 

Em termos práticos, isso significa que, em um grupo hipotético de 100 pessoas com câncer colorretal, o FIT deixaria de identificar entre 24 e 35 casos, dependendo do ponto de corte adotado – um desempenho consideravelmente superior ao dos métodos que o antecederam. A especificidade do teste também se mostrou consistente, entre 93% e 97% nos diferentes limiares avaliados, o que indica que o ganho de sensibilidade não veio acompanhado de um aumento expressivo de encaminhamentos desnecessários à colonoscopia.  

Em estudos que acompanharam coortes de rastreamento ao longo do tempo, o FIT manteve sensibilidade elevada para detecção de câncer, em torno de 89%, com especificidade em torno de 94% a 95%. Esse conjunto de evidências sustenta a recomendação do FIT como método não invasivo de escolha para rastreamento em indivíduos de risco habitual. 

Saiba mais: ACP 2026: Rastreamento do câncer colorretal – novos testes ampliam acesso? 

A escolha no rastreamento entre FIT qualitativo ou quantitativo 

Uma diferença, nem sempre bem compreendida na prática clínica, é que o FIT está disponível comercialmente em duas “modalidades”. O FIT qualitativo, o mais comum em nosso meio, fornece um resultado binário (positivo ou negativo) a partir de um limite inferior de detecção definido pelo fabricante, cuja reação imunológica é evidenciada pelo aparecimento de listras em um teste imunocromatográfico e interpretada, a olho nu, pelo profissional executante do teste (o que, por si só, pode carregar algum grau de subjetividade).  

Já o FIT quantitativo mede a concentração exata de hemoglobina fecal e permite ajustar o limiar de positividade conforme os objetivos do programa de rastreamento – reduzi-lo para priorizar sensibilidade, ou elevá-lo para conter a demanda de colonoscopias (aumentando a especificidade). 

Essa diferença tem impacto direto na prática. Um estudo comunitário chinês testou quase 6 mil pessoas de 50 a 74 anos com as duas modalidades simultaneamente e mostrou que o FIT quantitativo teve uma taxa de positividade bem menor que o qualitativo (cerca de 6% contra 13%, no limiar adotado de 100 µg/g), mas concentrou melhor os casos de maior risco: a taxa de detecção de câncer na colonoscopia e o valor preditivo positivo (VPP) para câncer foram quase o dobro no teste quantitativo.  

Na prática, isso reduziu à metade o número de colonoscopias necessárias para encontrar um câncer colorretal. A contrapartida foi uma menor detecção de adenomas e pólipos em nível populacional com o teste quantitativo – um trade-off que qualquer serviço precisa ponderar ao escolher qual tipo de FIT adotar. 

Saiba mais: 45 é o novo 50? Rastreio do câncer colorretal 

Como ajustar o rastreamento do câncer colorretal 

A capacidade de ajustar o limiar de positividade é uma das principais vantagens do FIT quantitativo, e a prática internacional mostra como isso é usado. Uma pesquisa da World Endoscopy Organization, com respostas de 38 sítios de rastreamento em 28 países, documentou uma variação de 14 vezes nos limiares adotados ao redor do mundo – de 8,5 a 120 µg de hemoglobina por grama de fezes, sendo 20 µg/g o mais comum.  

As razões mais citadas para a escolha do corte foram maximizar a sensibilidade para neoplasia avançada e adequar a demanda à capacidade de colonoscopia disponível. Não é incomum que programas precisem reajustar esse limiar ao longo do tempo, como ocorreu em vários países durante a pandemia de Covid-19, quando elevar o corte ajudou a conter a demanda por exames em um período de isolamento social e recursos escassos. 

Uma pergunta mais recente é se, além de ajustar o limiar pela disponibilidade de acesso à colonoscopia, também vale a pena ajustá-lo por idade e sexo do paciente. O racional biológico existe: homens têm maior risco basal de câncer colorretal, e mulheres com câncer diagnosticado pelo rastreio tendem a apresentar concentrações mais baixas de hemoglobina fecal, o que reduz a sensibilidade do teste quando se usa o mesmo limiar para todos.  

Modelos de microssimulação americanos testaram essa hipótese e mostraram que estratégias de FIT estratificadas por idade e sexo podem, de fato, ser mais custo-efetivas que o rastreamento uniforme atual – favorecendo limiares mais baixos para mulheres e para faixas etárias mais avançadas. Ainda assim, o ganho em anos de vida ajustados por qualidade foi pequeno, e o rastreamento uniforme com limiar de 20 µg/g de fezes permaneceu próximo da fronteira de eficiência em ambos os modelos avaliados. Ou seja: a estratificação tem racional teórico e pode agregar valor marginal, mas está longe de representar uma mudança de paradigma frente ao que já se pratica. 

Saiba mais: Qual a melhor estratégia de rastreamento populacional do câncer colorretal? 

O que muda na prática clínica com o uso do FIT 

Para a rotina clínica brasileira, é essencial reforçar que o FIT é hoje a alternativa não invasiva com melhor desempenho e custo-efetividade para rastreamento de câncer colorretal, com sensibilidade elevada para câncer e neoplasia avançada, com uma especificidade consistente.  

Ao interpretar um resultado, vale lembrar que, quando disponível, o valor quantitativo de hemoglobina fecal carrega uma informação de risco por si só – concentrações mais altas indicam maior probabilidade de doença significativa, o que pode ajudar a priorizar encaminhamentos em cenários de fila para colonoscopia, uma realidade frequente no SUS e também no sistema de saúde suplementar. Todavia, em nosso meio, o FIT qualitativo ainda é o mais disponível comercialmente e utilizado. 

A estratificação de limiares por idade e sexo ainda não é prática recomendada no Brasil, e seus ganhos são modestos mesmo em modelagens internacionais. Entretanto, o racional biológico por trás dela – menor sensibilidade do teste em mulheres, maior risco basal em homens e em idosos – pode agregar à leitura clínica de resultados limítrofes.

Autoria

Foto de Pedro Morales

Pedro Morales

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Gama Filho (UGF), com residência médica em Patologia Clínica/Medicina Laboratorial pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Além da atuação na Afya, é o responsável técnico do Laboratório Morales, é médico patologista clínico do Laboratório Central do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP-UFF) e membro do corpo clínico do Instituto Estadual de Doenças do Tórax Ary Parreiras (IETAP - SES/RJ).

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